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Faleceu na manhã desta quarta-feira (26), em Salvador, Wanda Guerra, 79 anos, uma das mulheres mais marcantes e transformadoras na vida social, filantrópica e de formação cultural e educacional de jovens de Juazeiro e região do Vale do São Francisco desde a década dos Anos 50, até a partida , ontem. Nascida na comunidade de Catuni, zona rural do município de  Jaguarari, Wanda morou desde a infância em Juazeiro , onde reinou , venceu preconceitos machistas e promoveu transformações.

Pioneira desde sempre, ela foi uma das primeiras locutoras de rádio em Juazeiro e Vale do Rio  São Francisco. Teve influência especial na formação cultural de inúmeras gerações de jovens na região, incluindo este editor do Bahia em Pauta, quando morou em Petrolina (PE) e, do outro lado da ponte sobre o Velho Chico, conheceu Wanda Guerra, bebeu de seus ensinamentos , aprendeu a admira-la e tornou-se seu amigo.

O último encontro do jornalista com Wanda foi no ano passado, em Juazeiro, na grande festa “Geração Anos Dourados- IV Encontro Marcado, animada pelo fantástico grupo Reneto e Seus Blue Caps. Wanda, beirando os 80, era a de sempre: mais alegre, mais receptiva, mais animada e participante, sempre abraçada, beijada, louvada e cercada de admiradores novos e antigos, como eu. Conversamos, rememoramos, rimos, derramamos lágrimas (de felicidades) e combinamos novo encontro na festa deste ano. mas o destino traçou outros caminhos na manhã desta quarta-feira, no Hospital, onde ela esta internada. Vanda, mãe revolucionária e amorosa deixa cinco filhos: Tom Zé, Guerra Filho, Alice, Karina e Poliana. O corpo, velado no SAF, será sepultado as 10h da manhã desta quinta-feira, no cemitério Central de Juazeiro.

Adeus, querida amiga. Adeus grande mulher!

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WANDA GUERRA NA DESPEDDA: DEIXE SEU RECADO

Mônica Sangalo

Liguei pro seu apartamento, telefone fixo , precisava de ajuda numas receitas de salgadinhos, nunca houve no mundo cozinheira mais fantástica que Wanda Guerra, a dona de Juazeiro. O telefone chamou três vezes e a voz de Wanda na secretária eletrônica mandou:

_ Você ligou para Guerra à procura de paz! Deixe o seu recado!

Desliguei, incrédula.

Morávamos todos no São Francisco Country Clube, bairro afastado do centro da cidade de Juazeiro, onde Mammy e Wanda, amigas de longa data, reinavam felizes e festeiras com suas filharadas. Wanda era vaidosa, gostava de vestidos longos, de dançar, era apaixonada pelo marido e pelos filhos, e conhecida largamente pela produção de coxinhas e balas puxa-puxa, as deliciosas iguarias que viraram sua marca registrada.

Não lembro claramente o ano, era muito menina nessa época, mas o caso é que Wanda Guerra convidou Mammy pro chá de noiva que ela preparava em casa pra sua cunhada, de casamento marcado pra dali a alguns dias.

Acompanhei Mammy nessa festa, evento só para mulheres, não seria permitida a entrada de homens, haveria brincadeiras e jogos femininos, strip tease e o escambau, ia ser bem animado o encontro.

Sim, muitas brincadeiras engraçadas, adivinhação de presentes, música, salgadinhos e doces feitos por ela, e num dado momento, a grande surpresa: um desfile apoteótico de lindas camisolas de renda, longas e glamourosas, tendo como top model quem?

A própria Wanda, encarnando uma diva hollywodiana e mandando ver nas caras e bocas, nos trejeitos, nos sorrisos, nas gargalhadas, enquanto exibia pra nós sua inacreditável coleção de peignoirs, babydolls, lingeries de seda pura, além de pantoufles de saltos e plumas, um deslumbre!

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Verdade seja dita, Wanda e Dedê fizeram filhos lindos! Uma mistura explosiva, de sangue quente, de gente que sorri com os olhos, um povo dengoso e acolhedor, uma característica que se conservou também entre os netos.

Uma novela de TV, não lembro qual, lançou o uso de botas longas entre as personagens, a novela era gravada no sul, durante o inverno, botas eram muito bem-vindas e o patrocinador agradecia, penhoradamente.

Wanda Guerra, que amava loucamente os filhos e a moda, não pestanejou: presenteou suas pequenas Alice e Karina com botinhas na altura dos joelhos. Mais que isso, fez com que as meninas envergassem as botas por muito tempo em tudo o que era ocasião. Eu via pelo basculante as duas, no ponto do ônibus, uma da tarde, sol a pino _ e estamos falando do sol do sertão brabo _ impávidas, de botas, indo pro curso de inglês. Quando perguntei se as meninas gostavam desse inverno escaldante, sabe o que me respondeu?

_ Puxaram a mim, fazem qualquer sacrifício pela beleza!

No enterro de meu pai, Wanda Guerra conduziu o serviço fúnebre, competente e emocionada, ele decerto não gostaria de ter um padre fazendo esse ritual e deve ter ficado satisfeito com a preleção da amiga de tantos anos.

Lembro bem que Jesús, meu irmão, comprou um caixão muito simples, caixãozinho furreca, o mar não estava pra peixe, a grana tava curta e assim foi feito. Meu pai era um homem grande e pesado. Wanda, entre outras coisas, fez parte do comitê que convenceu tia Angelita a desistir da idéia de carregar o defunto na mão, usando o forte argumento de que ele era gordo e o fundo do ataúde podia ceder pelo peso. Como se vê, eram muitas as suas habilidades.

A última vez que a vi foi em sua casa, em Juazeiro, onde passei rapidamente para uma delícia de cuscuz com café, carne do sol acebolada e uma conversa maravilhosa. Wanda Guerra nos deixou hoje e eu estou triste demais com isso. Com ela vai uma parte bacana da nossa história de família, de Juazeiro, de um tempo leve e feliz, que não vai morrer nunca em minha memória.

P. S. Espero que tenha deixado em testamento sua bala puxa e sua receita imbatível de coxinhas.

(Mônica Sangalo)

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