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CRÔNICA

                                                                 Depois dos trios

 

                                                                Janio Ferreira Soares

 

A chuva alaga São Paulo e Datena mostra carros boiando na tela da Band. Bolsonaro tuíta factoides direcionados aos “olavistas” e aos evangélicos que juram seguir a Bíblia no quesito “sejam férteis e multipliquem-se!” – mas, na real, seguem os ensinamentos dos catecismos de São Carlos Zéfiro. Marielle manda sinais. Carcarás rondam ninhos e são tangidos por bem-te-vis em fúria. Uma nuvem em forma de van passa, mas se desfigura antes da primeira curva. Repórteres despreparados enchem linguiça nos noticiários locais entrevistando pessoas esperando o ônibus – que demora; esperando o médico – que não chega; ou esperando na fila da lotérica uma vida – que não vem.

A inesgotável Damares, também conhecida como “a ministra da chuva de merda”, diz que o governo ensinará meninos a abrir portas para meninas. Nem aí, Edgar bota pra correr uma cadela que tenta comer sua ração, enquanto o pervertido do Júlio, cheio de futuras intenções com a novata Amora (uma linda golden), se lambuza em cima de um inocente xixi dourado que ela fez na grama.

Carcarás retornam e comem restos de um rato que as suindaras esqueceram. Entro no carro e sonho ser Clint Eastwood ouvindo jazz numa estrada americana, mas no rádio é Roberto que canta O Show Já Terminou. Uma moto passa levando uma senhora na garupa com um saco de pão nas mãos e buzina. Assoviando o resto da canção, abro a porteira, coloco o cinto e acredito que a felicidade, ao contrário do que diz o Rei, não começa num adeus.

As águas de março fecham verões distantes e dois imbecis armados matam inocentes numa escola brasileira. Baronesas passam e se assentam nas bordas de um rio em drama. Lembro-me da promessa que fiz ao meu amigo Navarro de lhe mandar um novo texto, mas a cabeça anda voando mais do que as arribaçãs que ora cortam o mundo. Falando no velho e vasto, Drummond que me perdoe, mas se eu me chamasse Raimundo seria a rima perfeita para o moreno de olhar triste e profundo que, lá no seu rancho fundo, espera a lua no sereno.

Fumaças de aviões formam um xis acima de um velho umbuzeiro e o silêncio é interrompido por rezas não identificadas vindas de uma igreja na margem oposta. Lagartixas passam por um buraco de metalon atrás de borboletas recém-nascidas e maribondos descansam sobre folhas mortas boiando no verde-musgo da piscina.

Na noite sem nuvens, Orion pisca no equador celeste, morcegos chupam o sangue das seriguelas amarelas e o filho da puta do Clima Tempo me engana de novo. Com uma garrafa d’água nas mãos, subo as escadas contando os passos que me levarão para mais uma noite de anjos e demônios rondando meu travesseiro. Na trigésima passada, tiro a sandália e me deito. No primeiro pardal, calço-as de volta e amanheço. Isto é a vida, baby!

 

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beira baiana do Rio São Francisco.

“Toalha no Chão”, Walter Queiroz: Waltinho Queiroz !!! Toda a Bahia no sangue azul turquesa desse baiano retado !!! Na melhor para fechar um dos verões mais quentes da Cidade da Bahia!!!

BOM DOMINGO!!!

(Gilson Nogueira)

mar
17

“Nunca houve tanta pressão sobre a Lava Jato”

 

Na coletiva realizada pela ANPR neste sábado, Deltan Dallagnol criticou a decisão do STF sobre o envio de casos de caixa 2 ligados a outros crimes para a Justiça Eleitoral e disse que é preciso reconhecer que o trabalho contra a corrupção não vai ser o mesmo.

“Faremos de tudo, usaremos os melhores argumentos para defender o nosso trabalho, mas temos que admitir que muito saiu do nosso controle, colocando uma nuvem sombria de insegurança jurídica sobre as investigações e os resultados”, afirmou.

“Nunca houve tanta pressão sobre a Lava Jato como na última semana”.

Do Jornal do Brasil

 

Governadores dos Estados das regiões Sul e Sudeste se reuniram na tarde deste sábado em Belo Horizonte e declararam apoio a reforma da previdência de Jair Bolsonaro. “Todos os Estados, incluindo o Espírito Santo, com algumas ressalvas do governador do Estado, Renato Casagrande, todos os demais apoiando a reforma da Previdência no País, compreendendo a sua importância estratégica na dimensão econômica e social para mudar o Brasil”, afirmou o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), em vídeo postado após o encontro. Além do apoio à reforma, os governadores anunciaram a criação do Consórcio de Integração Sul e Sudeste (Cosud).

Sobre as ressalvas do governador do Espírito Santos à reforma da Previdência mencionadas por Doria, Renato Casagrande (PSB) declarou após a reunião ser favorável à reforma, mas afirmou que tem pontos das medidas que alteram o sistema previdenciário brasileiro que gostaria de discutir mais, como as mudanças na aposentadoria rural, nos benefícios de prestação continuada (chamados de LOAS/BPC) e na criação do regime de capitalização.

Já o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), declarou que os governadores reunidos hoje na capital mineira “apoiam incondicionalmente o presidente Bolsonaro nessa missão de reformar a previdência”. A reunião com os governadores durou uma hora e, segundo postagens dos representantes de cada Estado nas redes sociais, foi discutido, além da reforma da Previdência, temas como a lei anticorrupção, segurança nas fronteiras interestaduais e desburocratização. O único governador que não compareceu foi o do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), por conta de uma incompatibilidade de agenda.

Consórcio

“Os governadores se reuniram para formar o Cosud, uma iniciativa extremamente importante que a gente possa compartilhar ideias e recursos e criar um fundo de investimento próprio para a infraestrutura”, afirmou o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC), em vídeo postado depois do encontro. “Tenho certeza que o Brasil vai avançar muito e atrair investimentos estrangeiros, para gerar emprego, renda e tornar nosso país mais competitivo”, completou.

Também ao falar sobre o Cosud, o governador de São Paulo afirmou que o consórcio terá programa de atuação em dez setores: segurança pública, combate ao contrabando, saúde, sistema prisional, desburocratização, turismo, desenvolvimento econômico, educação, inovação e tecnologia, logística e transporte.

Do Jornal do Brasil

 

Procuradores da República promoveram nesta sábado (16), em Curitiba (Paraná), um ato de desagravo à força-tarefa da Operação Lava Jato. A manifestação é uma reação às críticas feitas ao Ministério Público Federal e também à Procuradoria-Geral da República, que é contra o acordo para reverter a maior parte da multa paga pela Petrobras nos Estados Unidos para uma fundação no Brasil.

O protesto ocorreu na véspera de a Operação Lava Jato completar cinco anos e no dia seguinte à decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que define que ações relativas a crimes comuns, como corrupção e lavagem de dinheiro, e que tiverem relação também com crime eleitoral de caixa 2 devem ser remetidos à Justiça Eleitoral.

“Com a suspensão do acordo, existe um risco de que esse dinheiro tenha que ser pago, pela Petrobras, aos Estados Unidos. Se não houver um acordo que legitime a permanência desse dinheiro no Brasil, ele terá que ser entregue às autoridades norte-americanas”, disse o procurador da República Deltan Dallagnol. “Faremos todos os esforços para que os recursos permaneçam no Brasil.”

Segundo Dallagnol, a negociação foi comunicada à procuradora-geral da República, Raquel Dodge, que é contrária à proposta de criação de uma fundação para administrar os recursos.

“O dinheiro não precisa ir para a fundação”, afirmou. “Nossa preocupação não é para onde o dinheiro será destinado. Estamos abertos a negociações. Respeitamos a decisão do STF, mas acreditamos que as informações não chegaram completas à Corte.”

Dallagnol reiterou as pressões contra a Lava Jato nos últimos dias. “Nunca houve tanta pressão exercida sobre a Lava Jato e às nossas atividades quanto na última semana. Quem nos pressionou pode ter acreditado que isso nos desestimularia, mas, pelo contrário, isso nos uniu.”

mar
17
Posted on 17-03-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 17-03-2019


 

Lute, no jornal

 

 
 Magdalena Martínez
 
Detalhe do arquivo sobre a desaparecida ítalo-argentina Rafaella Filipazzi, identificada na Argentina em agosto de 2016, quase 30 anos depois de seu assassinato.

 Detalhe do arquivo sobre a desaparecida ítalo-argentina Rafaella Filipazzi, identificada na Argentina em agosto de 2016, quase 30 anos de

O esclarecimento de um caso de desaparecimento forçado durante a ditadura uruguaia (1973-1985) e um plano de reforma do Exército estão lançando novos elementos em uma inesperada crise provocada pela destituição do comandante da instituição, Guido Manini Ríos, pelo presidente Tabaré Vázquez. Em pleno ano eleitoral, o caso serve também para revelar alguns detalhes complexos da relação entre civis e militares na democracia e, particularmente, durante os Governos da esquerdista Frente Ampla (FA).

Pouco depois do afastamento do número um do Exército uruguaio por criticar a Justiça, a imprensa local revelou que Vázquez tinha enviado uma carta pedindo perdão às famílias de dois desaparecidos argentinos que foram levados do Uruguai para o Paraguai, onde foram finalmente encontrados seus restos mortais. O pedido oficial de perdão às famílias do casal formado por Rafaella Filipazzi e Agustín Potenza (militantes socialistas) foi fruto de uma iniciativa do presidente que, por meio de um grupo de trabalho, busca esclarecer crimes, recuperar arquivos e digitalizá-los.

“Conseguiu-se entrar nos arquivos do Centro de Fuzileiros Navais [uruguaios] e, comparando documentos, foi possível reconstituir o percurso dos desaparecidos desde sua detenção no Uruguai até sua transferência para o Paraguai, onde foram mortos”, explica Felipe Michelini, integrante do Grupo para a Verdade e Justiça. “Assim, pudemos demonstrar a existência do Plano Condor”, que serviu para coordenar os Exércitos dos países latino-americanos com ditadura nos anos setenta e oitenta.

Vázquez criou em 2015 o grupo de trabalho, composto por 40 pessoas (entre historiadores, forenses e arquivistas), que tem tido resultados tímidos e lentos. “Faltam recursos humanos, encontrar informações sobre os 196 desaparecidos uruguaios é, às vezes, como procurar uma agulha em um palheiro. Mas nosso principal problema é a passagem do tempo, durante vinte anos de democracia não se fez nada e muitos dados se perderam”, explica Michelini. Embora Michelini (filho do congressista Zelmar Michelini, assassinado na Argentina em 1976) afirme que está tendo acesso a todos os arquivos existentes, Ignacio Errandonea, membro da organização Mães e Familiares de Desaparecidos, denuncia que os militares continuam obstruindo o trabalho de investigação e que muitos arquivos foram escondidos ou destruídos.

Uma ambiciosa reforma do Exército

A Frente Ampla se prepara agora para intensificar o trabalho de busca da verdade sobre as violações dos direitos humanos e, ao mesmo tempo, para promover uma profunda reestruturação do Exército, a fim de mudar sua doutrina. A proposta faz parte do debate interno que a complexa coalizão de esquerda está fazendo sobre seu programa para disputar as eleições presidenciais de outubro. Em dois plebiscitos, a esquerda e a FA fracassaram em sua tentativa de eliminar as leis que protegiam os militares da ditadura, o que não impediu que vários casos chegassem à Justiça (e terminassem em pesadas penas), mas falta esclarecer os 196 ou 200 casos de desaparecidos (a quantidade varia conforme as fontes).

A essa questão pendente se somou a significativa carga financeira que o Exército representa, como ficou evidente em 2018 durante a reforma das aposentadorias militares, e a atitude desafiante dos oficiais. A mensagem de vídeo de despedida de Manini Ríos, publicada esta semana nas redes sociais, mostrou um desafio frontal ao poder civil e à Justiça, em meio a uma retórica típica dos anos setenta, com uma estética do caudilhismo do século XIX. O militar, apoiado por outros membros da instituição, poderia disputar as eleições presidenciais deste ano à frente de um partido já registrado no Tribunal Eleitoral.

Assim, o programa da Frente Ampla, favorita para as eleições, incluiria a redução do número de oficiais, a mudança de seu sistema de formação, a limitação da participação do Exército em tarefas civis e a feminização das Forças Armadas. Segundo o jornal uruguaio El País, também se estuda uma composição do Exército que leve em conta a falta de ameaças militares para o Uruguai neste período da história.

Dentro da FA não há um consenso total sobre como abordar o papel das Forças Armadas na democracia. O Movimento de Participação Popular (MPP), liderado pelo ex-presidente José Mujica, busca amenizar todas essas medidas. Nestes dias de tensões com os militares, o analista político Julián González Guyer, especialista no assunto, recordou em um programa de rádio que o falecido Eleuterio Fernández Huidobro, que foi duas vezes ministro da Defesa e integrante do MPP, freou todas as reformas do Exército, permitindo que os oficiais continuem sendo formados pelos próprios oficiais, reproduzindo “um velho discurso”.

Outro destacado acadêmico, o analista político Oscar Bottinelli, afirmou que as pressões do MPP, em particular da vice-presidenta Lucia Topolansky, tinham evitado que Manini Ríos fosse destituído muito antes. Bottinelli, diretor da instituto de pesquisas Factum, considera difícil que a candidatura de Manini Ríos prospere e ressalta que é grande o número de membros do Exército, principalmente na tropa, que votam no MPP de Mujica.

Governo e oposição cerram fileiras

Apesar do clima eleitoral, todos os líderes de oposição apoiaram a decisão do presidente Tabaré Vázquez de destituir o chefe do Exército. Manini Ríos tinha criticado a Justiça, acusando-a de parcialidade na condenação de vários repressores. O pré-candidato da principal sigla da oposição, o Partido Nacional (centro-direita), Luis Lacalle Pou, assinalou que “a destituição do comandante em chefe é uma atribuição institucional do presidente”, sem fazer mais comentários.

Jorge Larrañaga, também pré-candidato do Partido Nacional, declarou que “Manini Ríos cruzou uma linha que não devia”, embora tenha criticado o Governo pela forma como lidou com suas divergências com o militar. O ex-presidente Julio María Sanguinetti, pré-candidato do Partido Colorado, assinalou: “O comandante Manini anunciou que levaria certas colocações ao presidente. Evidentemente, eles não se entenderam e o presidente, no exercício de suas capacidades, substituiu-o. O caso é esse, sem mais nem menos. É de interesse que sejam conhecidos os termos de sua discrepância”.

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