ARTIGO

Forma e conteúdo

Joaci Góes

Ao querido amigo e talentoso deputado Arthur Maia!

Remonta a Aristóteles, o mais antigo empenho intelectual conhecido para distinguir forma de substância, de tal modo, desde sempre, estas duas dimensões da realidade são confundidas como se compusessem um todo homogêneo. Os bons chefs sabem que a boa aparência do prato interfere no apetite dos comensais, ainda quando se trate de acepipes da mesma cepa substantiva. A atividade publicitária, mais do que outra qualquer, sabe do impacto da forma na percepção e aprovação do conteúdo. E o que dizer do papel da maquiagem e de sua receptividade por homens e mulheres?

A reflexão vem a propósito do aparente contraste entre o desempenho do Governo Bolsonaro, bem avaliado pelo conjunto das ações praticadas, no interregno de sua curta existência, em rigorosa sintonia com as promessas de campanha, e pequenos episódios burlescos com poder de confundir a percepção popular, num país em que parcela ponderável da população se situa num patamar de lamentável indigência intelectual. Não obstante, eleva-se o nível de confiança da população brasileira e da comunidade internacional no futuro imediato do País, a partir das saneadoras medidas econômicas e de combate à corrupção, já encaminhadas pelo Executivo ao Congresso Nacional. A recentíssima eleição do Presidente Bolsonaro como o Homem do Ano, pela Câmara de Comércio Brasil-Estados Unidos, anunciada pela Forbes (em Nova Iorque), coroa esse início auspicioso, apesar de algumas tragédias nascidas de nossa proverbial e histórica imprevidência.

Na política, como na vida em geral, a competência, sem ocorrências do tipo a que denominamos sorte, pode sucumbir. Para proveito do povo brasileiro, o novo Presidente aparece como um homem de sorte, como se evidencia no momentoso episódio de demissão do Ministro Gustavo Bebianno, apresentado, por parte da mídia, como assunto de grande relevância, capaz de levar ao naufrágio o novo governo, pela perda da base parlamentar mínima indispensável à aprovação das reformas em curso, sobretudo a da Previdência e a Penal. A oposição, que ainda não se conformou com a perda da boca livre do poder, viu no episódio um meio de sabotar as evidentes possibilidades transformadoras proporcionadas pela melhor equipe ministerial de nossa história.

Tentativa inútil. Quem viu e ouviu a reiterada repetição dos diálogos entre o Presidente Bolsonaro e o seu ministro, só identificou razões enaltecedoras da disposição moral do novo governo. O que ali se pode observar é o excesso de escrúpulos que levou à demissão de um Ministro pelo pecado menor de haver considerado como diálogos mensagens trocadas pelo WhatsApp. O Presidente da República cedeu ao velho e bom princípio que ensina que “A mulher de César, além de honesta, deve parecer honesta”, e optou por sacrificar um bom companheiro, em nome da preservação da boa imagem do poder que encarna. De imediato, o Ministro Sérgio Moro autorizou rigorosa apuração dos fatos, pela Polícia Federal, certamente acompanhada pelo Ministério Público, entidades usufrutuárias do respeito e admiração populares. A única ocorrência criticável, no episódio, veio da despropositada manifestação do filho do Presidente ao qualificar como mentiroso o ministro demissionário. Ao Presidente já basta a truculência de uma oposição raivosa.

Para desgosto do cassandrismo de plantão, que é uma marca das sociedades subdesenvolvidas, as propostas de reforma de nossa Lei Previdenciária e de nossa Lei Penal, para ficarmos com as mais importantes, serão aprovadas, sim, e com larga margem, em face do sentimento nacional dominante a respeito de sua imprescindibilidade. Não há mais espaço para o exercício da chantagem parlamentar que tem caracterizado parcela de nossa representação legislativa, em que o congressista vende o seu voto ao Executivo, independentemente da qualidade do projeto de lei em discussão. Já deu pra ver, que o novo governo assoalhará o nome do parlamentar que se mantiver nessa postura de moralidade latrinária. A verdade é que o Brasil está inserido no novo ciclo mundial de busca da eficiência e da elevação dos padrões médios de moralidade coletiva. E já não é sem tempo.
Quem viver verá.

Joaci Góes é escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia, deputado na Constituinte de 1988, relator projeto histórico que estabeleceu a Lei de Defesa do Consumidor no Brasil.