Imagem relacionada

 

Resultado de imagem para Janio Ferreira Soares no jornal A Tarde

  

ARTIGO

 

                                                                 As Três Marias e o São Francisco

 

                                                                             Janio Ferreira Soares

 

As águas presas na barragem de concreto estão surpreendentemente calmas nestes primeiros meses de um ano que, talvez contaminado pelo ódio que lhe rege, resolveu entrar no jogo rasteiro que domina o país e, depois de embaralhar as cartas, cortá-las ao meio e distribuí-las a si próprio, baixou várias sequências sujas, espalhou os mortos sobre a mesa e postou uma selfie aos milhares de seguidores, dizendo: “tamo junto, milicianos do bem!”.

Mas como eu dizia, apesar da ameaça que avança pelas barrancas dos afluentes que vêm das Gerais, o rio em minha frente segue sua vidinha de sempre, com seus clássicos remansos da tarde contornando a pedra onde dezenas de garças pousam para tomar fôlego antes de voltar aos seus ninhos; com as aragens ligeiras arrepiando sua lâmina como se fossem cabelos de crianças no embalo das primeiras bicicletas; com canoas passando lentas, socós voando raso e lava-cus lavando-os rápidos, ou seja, tudo mais ou menos parecido com aquele suicida otimista que pulou do centésimo andar e, antes de se espatifar no chão, passou gritando pelas janelas: “até aqui tudo bem!”. Mas, sinceramente, tenho uma leve esperança de que esta aparente normalidade continue. Explico.

Mesmo com algumas notícias dando conta de que a lama tóxica que viaja pelo Paraopeba poderá chegar por aqui num futuro próximo, é bom lembrar que para isso acontecer ela terá que ultrapassar as comportas da Usina Três Marias, que, na minha imaginação, deve funcionar não só como uma barragem, mas também como uma espécie de portal sagrado equipado com trombetas celestiais, sempre atentas para alarmar quando qualquer outro líquido que não água ameace cair no leito do nosso São Francisco.

Em sendo assim e apesar de recruta no assunto, parto da premissa de que deve existir algum tipo de poder hierárquico-divino sempre atento quando a questão é mitigar algum mal que possa acontecer a um ser santificado, fato que por si só justifica que uma usina batizada com o nome da mãe de Jesus ao cubo jamais medirá esforços para proteger o rio de um santo que, além de gente boa, dizem que é brother do seu filho. A conferir.

No meu último texto, escrevi que as prováveis vitórias de Rodrigo Maia e de Renan Calheiros para presidir a Câmara e o Senado, mostrariam que Tom Jobim estava certo quando dizia que o Brasil não é para principiantes. Maia levou, mas o Dom Juan das Alagoas dançou legal. Acontece que o moço que o derrotou, de nome Alcolumbre, tem o mesmo jeitão de Jader Barbalho, principalmente na voz, que sai de sua boca como se nela houvesse uma falsa dentadura que transforma o “s” dax palavrax em “x”. Lombroso iria adorar decifrá-lo.

No mais, enquanto Boechat parte, Malafaia fala com Deus e Frota é uma excelência. Tá complicado!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano do vale do Rio São Francisco.

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • Fevereiro 2019
    S T Q Q S S D
    « jan   mar »
     123
    45678910
    11121314151617
    18192021222324
    25262728