ARTIGO

Engrenagem meritocrática

Joaci Góes

Ao querido amigo Roberto Oliva!

Com a gravíssima e por todos os títulos lamentável exceção da Tragédia de Brumadinho, fruto de nossa proverbial imprevidência, os ventos, neste ano de 2019, têm enfunado, de modo consistente, as velas do grande barco chamado Brasil.

A começar pela apoteótica festa da posse do novo Governo, antecedida pelo inédito desconvite aos presidentes de fracassados governos bolivarianos – Venezuela e Cuba -, onde o operoso embaixador Antônio Alves Júnior e a inteligente embaixatriz, baiana Ana Paula Cunha, ficaram na maior saia justa de nossa experiência diplomática -, o País assistiu à montagem do mais qualificado Ministério de nossa História, integrado, também, por membros das Forças Armadas que têm merecido crescente admiração por sua reputação ilibada e pelo seu inegável preparo intelectual.

Em seguida, veio o cumprimento das promessas de campanha, iniciando-se pela despetização do governo, cortes de desperdício, flexibilização do porte de armas, ações de abertura da economia, eliminação de posturas preconceituosas contra capitais estrangeiros, medidas destinadas a acabar com o assalto de organizações meliantes, como o MST, e o uso das populações indígenas para dividir o Brasil, encaminhamento ao Congresso Nacional de proposta modernizadora e moralizadora de combate à corrupção. O impacto favorável dessas atitudes na opinião pública elevou, significativamente, o nível de aprovação do novo Presidente, com reflexos favoráveis no câmbio e na Bolsa de Valores, criando um ambiente de otimismo e aumentando a confiança de investidores de todos os tamanhos e origens na recuperação da economia brasileira. Há, até, quem acredite que já no corrente exercício, o Brasil crescerá acima de 4% (Hosana nas alturas). O discurso de seis minutos e meio que o Presidente Bolsonaro fez no encontro do capitalismo, em Davos, na Suíça, foi o de maior ressonância nos meios investidores do mundo, em toda a nossa história.

No plano institucional, a eleição de nomes afinados com o Presidente Bolsonaro, para presidir as duas casas do Congresso Nacional, Rodrigo Maia para a Câmara dos Deputados e David Alcolumbre para o Senado, foi o coroamento dessa euforia geral, pela eliminação das tentativas frustradas das oposições, lideradas pelo Senador Renan Calheiros, de desestabilizar e levar ao naufrágio o governo recém-empossado, além de tudo fazer para abortar as propostas legislativas elaboradas pelo ministro Sérgio Moro, de modo a assegurar que tudo ficasse como antes, no quartel de Abrantes!

Do espetáculo circense, do mais baixo nível, protagonizado por membros da oposição, durante o processo de eleição do presidente do Senado, ainda se ouvirá muito falar. A começar pela falta de compostura da Senadora Kátia Abreu, aliada de Renan, ao arrebatar das mãos do Senador que presidia a sessão preparatória, a pasta contendo as decisões sobre as questões de ordem levantadas pelos senadores, com o que se encerrariam as discussões precedentes à votação. O modo grosseiro e acintoso como a Senadora se comportou tipifica, exaustivamente, a falta de decoro parlamentar, delito passível de perda de mandato. A indicação judicial do senador José Maranhão para presidir a eleição pelo voto secreto foi mais um casuísmo que contou com a diligente e militante participação do presidente do STF, Dias Toffoli, que assinou uma decisão que já lhe entregaram pronta, para, precisamente, abroquelar a armação montada para eleger Renan Calheiros, que nunca seria eleito pelo voto aberto, por vergonha dos senadores de sufragarem, publicamente, o seu nome. O Senador Maranhão vai ter que explicar porque destruiu as provas de um voto fraudado em favor de Renan, conforme captado pelas câmeras, fato que anulou o primeiro escrutínio. A identificação do estúpido e desonesto senador que colocou na urna o voto adicional, com a provável conivência do secretário do processo, é motivo mais que suficiente para sua cassação.

Durante a tumultuada eleição, Renan Calheiros se desentendeu com o Senador Tasso Jereissati quando o ameaçou: “Eu vou te pegar”, ao que Tasso retrucou: “Quem vai te pegar é a polícia. Você vai ser preso”!
Tem muita razão o Senador Cearense: como em Nuremberg, falta muita gente a ser apanhada nas malhas da Operação Lava Jato.

Joaci Góes, escritor, presidente da Academia de Letras da Bahia-ALB, ex-diretor da Tribuna da Bahia.Texto originalmente publicado quinta-feira, 7, na TB.