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ARTIGO

                                 A lama é o sobejo da receita

                                Janio Ferreira Soares

Além da tragédia em si, doeu ver o prefeito de Brumadinho dizer que o ocorrido foi azar, como se o destino construísse barragens. Não, meu caro, o que aconteceu em sua aldeia foi o resultado da velha mistura que há anos é fervida no caldeirão da desfaçatez, cujos ingredientes são aprovados diariamente por nós, idiotas participantes de um Reality Show de horrores sem fim.

Claro que não precisa ser nenhum especialista para saber que uma panela abastecida por toneladas de desigualdades, acrescida de milhares de balas perdidas matando inocentes, mais pitadas de labaredas flambando nosso passado num museu sucateado, finalizando com uma porção de autoridades mais preocupadas em não deixar rastros de metal em suas digitais, daria como resultado um criminoso caldo destruindo centenas de vidas bem na hora do almoço de uma sexta-feira qualquer.

Mais opções de receitas? A lista é longa e variada. De entrada, sugiro um pouco da ‘masturbação sociológica’ de que falava Sérgio Motta, ex-ministro de FHC, diante do blábláblá de dona Ruth Cardoso (coordenadora do Comunidade Solidária), do ministro da Educação (Paulo Renato) e da Saúde (Adib Jatene), que na teoria tinham soluções beirando o sabor do chocolate belga, mas, na prática, serviam gororoba iraquiana.

Como primeiro prato, aconselho uma buchadinha à moda pernambucana, acompanhada da falsa ilusão de uma ascensão social temperada por aeroportos cheios de malas sem grife e de dezenas de obras superfaturadas, que até hoje são defendidas por celebridades esquerdistas com havaianas nos pés e cartões Itaú Uniclass Black nos bolsos, que a vida no Leblon não é fácil.

Para o prato principal, recomendo fortemente uma falsa leitoa mineira vendida pelo garçom da língua presa como uma excelente administradora à pururuca, mas que, à mesa, revelou-se uma anta com sabor de mandioca vencida.

Quanto à sobremesa, o novo menu da caserna está bombando, principalmente as criações da incrível Damares, como o sorvete de araçá azul com calda de tulipas rosas colhidas por crianças holandesas nuas e índias sequestradas que, segundo Caetano, é sonho-segredo. Outras sugestões campeãs são o bolo da sorte do Queiroz – que já vem com envelopes de dois mil reais no recheio – e a tradicional cocada mista Maia-Renan que, a se confirmar, deverá ser comida de joelhos – e em cima do milho -, que é para o eleitor do mito aprender com quantos acordos se faz um MasterChefe.

Antes do cafezinho, coloco na vitrola a canção de Crown, o Magnífico e, de carona no planador de Steve McQueen, derramo uma dose de conhaque em tributo a Michel Legrand e aos mais de 350 mortos violentamente trucidados pela soma do descaso de quem manda, com a mansa leniência dos que ficam. ”Crédito ou débito, senhor?”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco.

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