Resultado de imagem para Marcelo Yuka do Rappa e Tom Cardoso no Rio e Recife
Resultado de imagem para Tom Cardoso cronista e jornalista
Tom Cardoso

Estive algumas vezes com o Yuka. A primeira em 1997, durante a cobertura do Abril Pro Rock, no Recife. Jornalistas, músicos e produtores ficavam todos hospedados no mesmo lugar, uma pousada deliciosa, com direito a uma piscina de onde era possível pular da varanda de um quarto próximo, que não foi ocupado só para servir de trampolim para as atrações do festival.

Quem chegava à pousada, sendo hóspede ou não, tinha que, obrigatoriamente, dar um pulo da varanda. Todos – Chico Science, Marcelo D2, Fred Zero Quatro, Yuka, Otto, Jorge Du Peixe, Cannibal, Siba – encararam o batismo numa boa. Só Fernanda Takai, como boa mineira, se recusou. Herbert Vianna, que se achava, também: “Eu uso óculos”. Lembro-me até hoje do comentário do Yuka, ao meu lado. “Ah, não me diga”.

Yuka era o mais sarcástico e inteligente da turma. Não por acaso, o responsável por todas as letras do Rappa, mesmo sendo o baterista. Não consigo lembrar aqui de um só batera capaz de construir uma frase.

A última vez que estive com ele foi em 2014. Um papo para a seção “À Mesa com o Valor”. Ele escolheu um boteco na Tijuca – a primeira vez que fui entrevistar um artista fora da Zona Sul. E Yuka considerava a Tijuca um bairro nobre perto de Campo Grande, região dominada por milícias, com altos índices de criminalidade, onde morava toda a sua família.

Da mensagem, por whatssap, avisando que tinha chegado, até sentar ao meu lado, com a cadeira de rodas, Yuka demorou 40 minutos para entrar no boteco. Exausto e deprimido, mal falou durante a primeira meia hora. A dor da alma se juntava à dor física – o alto poderia destrutivo dos dois tipos de munição (dum-dum e hollow point) que o atingiram em várias partes do corpo fez com que ele convivesse com uma rotina de privações.

Mas nada o incomodava mais do que ser chamado de “mártir da luta contra a violência urbana do Rio”. Ele convivia há ano com a versão – jamais sustentada por ele próprio – de que levara nove tiros após salvar uma moça de um assalto, quando, na verdade, também estava tentando escapar.

Os bolinhos de feijoada do boteco, considerados os melhores do Rio, começaram a melhorar o seu humor. Depois de comer uma dúzia,ele contou, às gargalhadas, que na semana anterior, em São Paulo, ele havia sido chamado por uma organizador de uma palestra de “O Mano Brown Erudito”:

“O cara conseguiu ofender o Mano Brown, que pra mim não perde, em qualidade, para nenhum compositor supostamente erudito, e a mim, que sempre cultivei um humor suburbano, totalmente deseducado”.

Acho que foi o primeiro caso da história de embriaguez por bolinho de feijoada (durante toda a conversa, só bebemos água e comemos), pois, no fim da noite, já cúmplices, estávamos os dois com os joelhos grudados um no outro, parecendo um casal de cadeirantes.

Quem chegou pra fechar a noite foi o outro casal, amigo de Yuka e também filiado ao PSOL: Marielle Franco e Mônica Benício.

Que a alma de Yuka esteja, enfim, apontada para a cara do sossego.