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Tom Cardoso

Estive algumas vezes com o Yuka. A primeira em 1997, durante a cobertura do Abril Pro Rock, no Recife. Jornalistas, músicos e produtores ficavam todos hospedados no mesmo lugar, uma pousada deliciosa, com direito a uma piscina de onde era possível pular da varanda de um quarto próximo, que não foi ocupado só para servir de trampolim para as atrações do festival.

Quem chegava à pousada, sendo hóspede ou não, tinha que, obrigatoriamente, dar um pulo da varanda. Todos – Chico Science, Marcelo D2, Fred Zero Quatro, Yuka, Otto, Jorge Du Peixe, Cannibal, Siba – encararam o batismo numa boa. Só Fernanda Takai, como boa mineira, se recusou. Herbert Vianna, que se achava, também: “Eu uso óculos”. Lembro-me até hoje do comentário do Yuka, ao meu lado. “Ah, não me diga”.

Yuka era o mais sarcástico e inteligente da turma. Não por acaso, o responsável por todas as letras do Rappa, mesmo sendo o baterista. Não consigo lembrar aqui de um só batera capaz de construir uma frase.

A última vez que estive com ele foi em 2014. Um papo para a seção “À Mesa com o Valor”. Ele escolheu um boteco na Tijuca – a primeira vez que fui entrevistar um artista fora da Zona Sul. E Yuka considerava a Tijuca um bairro nobre perto de Campo Grande, região dominada por milícias, com altos índices de criminalidade, onde morava toda a sua família.

Da mensagem, por whatssap, avisando que tinha chegado, até sentar ao meu lado, com a cadeira de rodas, Yuka demorou 40 minutos para entrar no boteco. Exausto e deprimido, mal falou durante a primeira meia hora. A dor da alma se juntava à dor física – o alto poderia destrutivo dos dois tipos de munição (dum-dum e hollow point) que o atingiram em várias partes do corpo fez com que ele convivesse com uma rotina de privações.

Mas nada o incomodava mais do que ser chamado de “mártir da luta contra a violência urbana do Rio”. Ele convivia há ano com a versão – jamais sustentada por ele próprio – de que levara nove tiros após salvar uma moça de um assalto, quando, na verdade, também estava tentando escapar.

Os bolinhos de feijoada do boteco, considerados os melhores do Rio, começaram a melhorar o seu humor. Depois de comer uma dúzia,ele contou, às gargalhadas, que na semana anterior, em São Paulo, ele havia sido chamado por uma organizador de uma palestra de “O Mano Brown Erudito”:

“O cara conseguiu ofender o Mano Brown, que pra mim não perde, em qualidade, para nenhum compositor supostamente erudito, e a mim, que sempre cultivei um humor suburbano, totalmente deseducado”.

Acho que foi o primeiro caso da história de embriaguez por bolinho de feijoada (durante toda a conversa, só bebemos água e comemos), pois, no fim da noite, já cúmplices, estávamos os dois com os joelhos grudados um no outro, parecendo um casal de cadeirantes.

Quem chegou pra fechar a noite foi o outro casal, amigo de Yuka e também filiado ao PSOL: Marielle Franco e Mônica Benício.

Que a alma de Yuka esteja, enfim, apontada para a cara do sossego.

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Bolsonaro recebe Macri em Brasília: mexida no Mercosul e abalo em Maduro..
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e Batistti, preso na Bolívia com ajuda brasileira e mandado para presídio na Sicília.

ARTIGO DA SEMANA

Batistti na Itália, armas, Trump e Davos: Talento à moda Bolsonaro

Vitor Hugo Soares

É inevitável reconhecer, frente ao recente episódio e as repercussões da prisão de Cesare Battisti –  o condenado fugitivo precariamente disfarçado, apanhado durante prosaico passeio de fim de tarde na cidade boliviana de Santa Cruz de la Sierra: Bolsonaro e seu governo, à moda e seu jeito próprios, têm demonstrado Talento (com maiúscula mesmo) e senso de direção, em seguida à largada mambembe e o bate-cabeça inicial dos novos donos do poder. Destaques exemplares, além do caso Batistti: a assinatura do decreto da posse de armas e o encontro com o colega argentino, Maurício Macri, de forte impacto político continental, que balançou o inerte Mercosul e fez tocar o alarme no regime de Maduro, na Venezuela.

E a cereja do bolo pode estar ainda à espera do mandatário brasileiro, semana que vem, na distante e fria Suíça. Neste domingo, Bolsonaro embarca para participar do Fórum Econômico Mundial de Davos, onde fará sua estréia internacional. Na comitiva leva estrelas de primeira grandeza: os superministros Paulo Guedes, da Economia;  Sérgio Moro, da Justiça e Segurança; e o agitador chanceler Ernesto Araújo, de polêmicas garantidas com “as esquerdas” .

Sem as presenças dos presidentes Donald Trump, dos Estados Unidos (declarado fã do capitão) e da França, Emmanuel Macron, a expectativa é que o mandatário do Brasil se transforme em uma das principais atrações de Davos 2019.  

Sei que muita gente – principalmente a turma ligada aos donos do poder nos últimos quase 15 anos, ou deles beneficiária em seus interesses, mamatas e falcatruas – vai torcer o nariz, mas  cito fatos jornalísticos. Faço também um esclarecimento de ordem política, conceitual e de princípios, retirado do livro “Rompendo o Cerco”, cujo exemplar recebi pessoalmente das mãos de Ulysses Guimarães – com honrosa e inestimável dedicatória -,  depois da cobertura pelo Jornal do Brasil (cuja redação da sucursal eu chefiava então em Salvador), na “noite dos cães selvagens” açulados pelas tropas de elite da PM contra o presidente do MDB, em dramático e insano 1º de Maio, na Bahia, nos Anos 70 de embates contra a ditadura e de quase todas as loucuras.

Talento é o terceiro mandamento do Estatuto do Estadista, cujo enunciado diz: “Não há estadista burro. Há de ser talentoso, embora possa não ter cultura. Tiradentes e Juarez não tiveram cultura, mas foram estadistas porque tiveram talento político. Talento é o dom de acertar”… 

Fatos. É disso que se trata aqui e agora. Goste-se ou não do que pensa, diz e faz o capitão da reserva do Exército, eleito com mais de 57 milhões votos para mandar no Palácio do Planalto, nos próximos quatro anos (pelo menos). O caso Batistti é exemplo cabal de visão em perspectiva política e histórica, atributo em falta na maioria dos políticos e governantes do País.
Com negociações diplomáticas ágeis e objetivas dos três governos diretamente envolvidos no caso, desde a prisão, no sábado, até o embarque do criminoso, em vôo direto, Santa Cruz de La Sierra/Roma, patrocinado pelo governo italiano, para – depois de 37 anos de fugas e estranhos benefícios, – o condenado pela justiça da Itália começar efetivamente a cumprir pena de prisão perpétua, em penitenciária de máxima segurança, numa ilha na Sicília, de onde ninguém até agora conseguiu fugir.

É isto, por enquanto, e não é pouco. Agora esperemos o que virá em Davos, e depois. A conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista, editor do site blog Bahia em Pauta. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

“Obi”, Rosa Passos: musica e letra absolutamente geniais do alagoano Djavan sob medida para a notável interpretação de Rosa, a baiana cantora do mundo. Com direito a letra para cantar a plenos pulmões  sem errar nem perder o tom. Viva!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares) 

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jan
19
Posted on 19-01-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 19-01-2019

Cidade será em 2020 o centro do debate mundial sobre urbanismo e sustentabilidade

Paris
Detalhe do Palácio Capanema, no Rio de Janeiro.
Detalhe do Palácio Capanema, no Rio de Janeiro. Tomaz Silva/Agência Brasil

O Rio de Janeiro tem um novo desafio diante de si. Em 2020, a cidade se tornará a primeira Capital Mundial da Arquitetura, um projeto conjunto da Unesco e da União Internacional de Arquitetos (UIA), que procura levar ao nível das comunidades o necessário diálogo entre sustentabilidade e urbanismo.

“O Rio é uma fusão admirável entre natureza e cultura, sua arquitetura antiga e moderna, o resultado de uma criação inovadora desde meados do século XIX, o que a torna um lugar de beleza excepcional que conquistou a admiração de muitos autores, intelectuais e viajantes de todo o mundo”, declarou o subdiretor-geral para a Cultura da UNESCO, Ernesto Ottone, em uma cerimônia na sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, em Paris. Além disso, “é um exemplo bem-sucedido de revitalização do centro histórico urbano, de um espaço público aberto a todos”, disse ele sobre a escolha da cidade brasileira, a terceira maior da América Latina.

“O Rio tem todos os atributos para ser uma maravilhosa primeira capital mundial da arquitetura”, concordou o presidente da UIA, Thomas Vonier. “Que melhor cidade do que o Rio para destacar os desafios que enfrentamos em nossa sociedade e em nossas cidades com uma população crescente, jovem, que tem muitas necessidades, e com muita gente vivendo em condições difíceis? A arquitetura e o design urbano podem atender a esses desafios ao mesmo tempo em que protege o maravilhoso legado e o meio ambiente?”, ponderou.

O projeto das capitais mundiais de arquitetura foi consolidado em novembro do ano passado mediante um acordo entre a Unesco e a UIA. “A ambição desta iniciativa é favorecer novas sinergias entre cultura e arquitetura para que se convertam em um polo de ideias sobre cultura, ciência, meio ambiente e desenvolvimento em geral”, disse Ottone nesta sexta-feira. “É uma oportunidade para unir nossos esforços e deixar, especialmente para as gerações futuras, cidades que sejam uma realização humana e cultural capazes de construir um futuro”, acrescentou.

De acordo com Vonier, a arquitetura tem muito a dizer neste repensar dos espaços urbanos do futuro: “Nós vemos este programa como uma forma de demonstrar o poder da arquitetura para enfrentar os graves problemas do mundo, em particular as cidades. Queremos demonstrar como os arquitetos e a arquitetura podem nos ajudar a lutar com os sérios problemas do meio ambiente e das necessidades humanas em todo o mundo.”

A designação como Capital Mundial da Arquitetura implica muitas responsabilidades. Durante um ano inteiro, o Rio de Janeiro será o ponto de encontro de arquitetos, planejadores e formuladores de políticas, mas também de artistas e escritores que irão refletir sobre “os prementes desafios globais da perspectiva da cultura, do patrimônio cultural, do planejamento urbano e da arquitetura”.

O Rio também deverá realizar vários eventos sob o lema proposto pela cidade: “Todos os mundos. Um só mundo”. Todos estarão ligados ao Objetivo número 11 da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da ONU: “Fazer com que as cidades e os assentamentos humanos sejam inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.” E a cidade também sediará o Congresso Mundial da UIA, que é realizado a cada três anos.

Em uma mensagem de vídeo, já que não pôde viajar para Paris, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, confirmou o compromisso de toda a cidade e suas autoridades de “de transformar o ano de 2020 em um marco na história cultural da cidade”. Além da visibilidade internacional, teremos a oportunidade de ampliar a relação de pertencimento dos moradores da nossa cidade com o seu patrimônio histórico e arquitetônico, difundindo e preservando esse acervo”

jan
19

DO BLOG O ANTAGONISTA

Bolsonaro recebe sócios da futura CNN Brasil

 

Jair Bolsonaro recebeu hoje à tarde, fora de sua agenda oficial, o empresário Rubens Menin, da construtora MRV, e o jornalista Douglas Tavolaro.

Menin e Tavolaro vão lançar no Brasil uma franquia da CNN americana. A audiência foi acompanhada por Eduardo Bolsonaro.

Leia a reportagem de Igor Gadelha em Crusoé:

Do Jornal do Brasil

 

O presidente Jair Bolsonaro assinou, nesta sexta-feira, 18, a medida provisória que visa a combater fraudes no INSS. O texto, que deve ser publicado ainda nesta sexta em edição extra do Diário Oficial da União, altera regras de concessão de benefícios, como auxílio-reclusão, e promove revisão de benefícios com suspeitas de irregularidades na Previdência Social.

De acordo com o governo, a nova MP deverá gerar economia de R$ 9,8 bilhões no primeiro ano de vigência. O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, citou que foram identificadas diversas irregularidades pelo Tribunal de Contas da União e pela Controladoria Geral da União em benefícios concedidos. “Uma das metas estabelecidas pelo governo é no sentido de criar mecanismos que nos permitam combater essas fraudes e dar eficiência ao sistema”, disse Onyx. Serão redirecionados do Orçamento R$ 300 milhões para esse “combate” às fraudes, anunciou o ministro.

>> O que muda com a MP de combate a fraudes previdenciárias

Macaque in the trees
Jair Bolsonaro (Foto: Marcos Correa/AFP)

jan
19
Posted on 19-01-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 19-01-2019

Do Jornal do Brasil

 

Contrariando a defesa de Flávio Bolsonaro (PSL), que alegou prerrogativa de foro para requerer ao Supremo Tribunal Federal (STF) a suspensão do procedimento que investiga movimentações financeiras atípicas do ex-assessor Fabrício Queiroz, o Ministério Público do Rio informou que, até esta sexta-feira, 18, o senador eleito pelo Rio não é investigado pelo órgão. O MP estadual afirmou, porém, que essa condição não impede que, com o andar as investigações, ele se torne também alvo da investigação.

“O MPRJ esclarece que, até a data de hoje, Flávio Bolsonaro não consta como investigado na portaria que instaurou o procedimento investigatório criminal. No entanto, de acordo com a dinâmica da investigação, é possível o aditamento da portaria para incluir não só ele como outros investigados”, respondeu o MP, por meio de nota.

Macaque in the trees
Flávio Bolsonaro. (Foto: Tânia Rêgo | Agência Brasil)

Até a última segunda-feira, 14, o filho mais velho de Jair Bolsonaro (PSL) havia sustentando que ele não era investigado. O deputado estadual e senador eleito pelo PSL usou esse argumento para faltar ao depoimento marcado no MP para o dia 10.

Desde a quarta-feira, 16, porém, a defesa de Flávio começou a tratá-lo oficialmente como investigado, inclusive no pedido ao STF. Por isso, argumenta que o MP tomou iniciativas que deveriam ter passado pelo Supremo por envolver um senador eleito, com prerrogativa de ser julgado no STF. Nesse raciocínio, as supostas investigações contra Flávio seriam ilegais.

O advogado do parlamentar, Hugo Plutarco, alegou que, após acesso aos autos, a defesa identificou que Flávio Bolsonaro era investigado nos autos “desde a efetiva instauração do procedimento”, “a despeito de não haver informação formalizada a esse respeito na Portaria de Instauração do Procedimento Investigatório Criminal”.

Além disso, a defesa afirmou que as investigações prosseguiram mesmo após a informação da sua eleição e diplomação. “Some-se a isso, que cabe apenas ao STF se pronunciar sobre se é (ou não) competente para conduzir apurações de autoridades que, prima facie, segundo art. 102, inciso I, alínea b, da CF, possuem foro por prerrogativa de função”, alegou.

Nesta sexta-feira, a defesa de Flávio não quis comentar a afirmação do MP de que Flávio não é investigado.

jan
19
Posted on 19-01-2019
Filed Under (Artigos) by vitor on 19-01-2019


 

Gargalo, no portal de humor

 

Entrevista Fernando Haddad

 
Fernando Haddad em sua casa em São Paulo. Lela Beltrão
São Paulo

Indagado se está de férias “desde o fim das eleições”, Fernando Haddad, candidato derrotado por Jair Bolsonaro na disputa pelo Planalto em 2018, se surpreende. “Férias? Você acha que professor tem férias desse jeito? Estou preparando curso”, afirma o petista em entrevista ao EL PAÍS. O ex-prefeito paulistano, professor de administração e gestão pública no Insper, volta ao trabalho em 11 de fevereiro. Com relação à política, seu papel ainda é incerto. Sem mandato e com seu maior padrinho eleitoral —Lula— atrás das grades,  Haddad tem pela frente o desafio de se manter relevante para não sofrer o mesmo destino de Marina Silva, de ver se esvair o capital político dos 47 milhões de votos que obteve nas urnas. O professor rejeita o papel de “líder” da oposição ao Governo de Bolsonaro e diz que vai atuar sem almejar qualquer posto no PT. Em conversa de pouco mais de uma hora em sua casa em São Paulo, em 14 de janeiro, o ex-prefeito falou sobre a Venezuela (“o ambiente lá não é democrático”) e deixou sugerida uma crítica a ida de Gleisi Hoffmann a Caracas para a posse de Nicolás Maduro. “Não sei o que levou Gleisi a Caracas. É preciso cuidar não só do gesto, mas da comunicação.”

Pergunta. O PT enviou sua presidenta para a cerimônia de posse de Nicolás Maduro, isolado por quase todos os países da região. Por que o PT apoia Maduro?

Resposta. Eu gostaria de situar essa discussão em um plano um pouco diferente. Se não fosse a mediação pessoal do Lula durante seu Governo, já teria ocorrido uma intervenção dos Estados Unidos na Venezuela.

P. Mas passaram-se anos, muitas coisas aconteceram depois disso…

R. A obsessão da esquerda brasileira tem que ser com a paz, com a não ingerência. Evidentemente a situação na Venezuela se deteriorou. E o ambiente na Venezuela hoje não é democrático. Porque as partes não reconhecem os processos.

P. Mas essa degradação do ambiente democrático, você credita isso só à oposição?

R. Acredito que o Governo Maduro tem uma parte de responsabilidade. É evidente que não há por parte da oposição um enorme compromisso. Seria ingenuidade imaginar que a oposição não tem seus interesses, inclusive de buscar um status quo anterior, que era o da Venezuela como um quintal cheio de petróleo para os americanos. A obsessão do PT é buscar um caminho no qual possamos restabelecer o ambiente democrático na Venezuela. Que está difícil. Não é uma tarefa fácil. Mas pode se tornar mais difícil ainda se houver uma intervenção militar.

 

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P. Você teria ido à posse do Maduro?

R. Não participei da discussão, não sei os argumentos e o que levou a Gleisi (Hoffmann) a ir para Caracas. Existe uma questão que considero importante, que é da mensagem que você passa ao tomar qualquer decisão. É preciso cuidar não só do gesto que você considera mais adequado, mas da comunicação desse gesto para a opinião pública mundial.

P. A justificativa do PT para não comparecer à cerimônia de posse do Bolsonaro é que o processo democrático foi inadequado devido à prisão de Lula. Você acha que a Venezuela tem um processo democrático mais transparente que o Brasil?

“A obsessão do PT é buscar um caminho no qual possamos restabelecer o ambiente democrático na Venezuela”

R. São situações diferentes.

P. Por quê?

R. A questão do Brasil é que o líder das pesquisas foi impedido de participar da eleição.

P. Na Venezuela também. O opositor Leopoldo López está em prisão domiciliar.

R. O que eu digo e repito: a obsessão do PT com a qual eu compartilho é evitar um conflito militar na região. Brasil está há mais de 140 anos sem conflito militar com seus vizinhos. A obsessão da centro-esquerda pacifista é buscar uma solução negociada. Outra questão é comunicar adequadamente o que você quer comunicar com seu gesto [a ida de Gleisi à posse de Maduro].

P. A ida dela não pode ser entendida como uma chancela do PT ao Governo Maduro?

R. O PT nasceu do questionamento de ditaduras de esquerda.

P. Considera o Governo de Maduro uma ditadura?

R. O que eu disse na campanha e eu repeti é que o ambiente na Venezuela não é democrático. As forças políticas venezuelanas hoje não respeitam o resultado de qualquer consulta que você faça. Veja quantas consultas foram feitas nos últimos três anos ao povo venezuelano, nenhum resultado foi considerado legítimo.

P. Em que medida o PT tenta se aproximar da oposição venezuelana?

R. Aí você está perguntado para mim, o que eu penso não é necessário o que o PT pensa. Para saber o que o PT pensa você tem que fazer uma entrevista com a Gleisi. O que eu penso e defendi na campanha foi isso, não mudei de ideia. Considero a situação da Venezuela grave do ponto de vista democrático, porque as partes não se reconhecem.

“O PT nasceu do questionamento de ditaduras de esquerda”

P. Você já disse que Bolsonaro era uma ameaça à democracia. Ainda enxerga assim?

R. Se você tem um conceito estrito, tanques de guerra na rua, alguém está armado te ameaçando… Nesse conceito de democracia a ameaça pode estar mais distante. Mas se você entende democracia enquanto ambiente onde são cultivados certos valores, inclusive de proteção às minorias, sem dúvida, neste conceito, a democracia está ameaçada. Os indígenas estão se sentindo ameaçados, a comunidade LGBTQ, os professores e líderes de movimentos sociais também, porque podem ser considerados terroristas a qualquer momento pelo presidente. A oposição está se sentindo ameaçada, porque ele anunciou que ela terá dois caminhos, a cadeia ou o exílio. Este conceito que eu acredito de democracia, sim, está ameaçado. As instituições tem que funcionar com um propósito, de fazer as pessoas se sentirem seguras independente do que pensam, de sua orientação sexual.

P. O Congresso e o Supremo Tribunal Federal não estão preparados para exercer um contrapeso a estas medidas?

R. Veremos. Os sinais do Executivo são os piores possíveis, então temos que ver se os contrapesos funcionarão. Veremos como reagem a imprensa, o Judiciário e o Congresso a estas ameaças, que são reais.

P. Qual o papel do PT na oposição?

R. O PT já foi oposição no Brasil. Até 2002 nós éramos um partido de oposição. E o PT fez uma oposição bastante qualificada à época. Tanto é que logrou resultados na campanha de 2002 [quando Lula foi eleito pela primeira vez], e a transição do Fernando Henrique para o Lula foi uma transição muito tranquila e civilizada, o que demonstra de certa forma que as relações entre oposição e situação no Brasil mantinham um padrão adequado. Estamos voltando à oposição desde o impeachment da Dilma, mas tendo a experiência de 13 anos de Governo, o que significa que vamos poder fazer uma oposição muito mais qualificada do que fizemos antes.

P. Qual seria seu papel no PT nos próximos anos?

R. Meu papel é o que exercia antes e passo a exercer agora: não tenho cargo, mas nunca tive antes de o PT chegar ao poder, e nem por isso deixava de exercer na plenitude minha cidadania como professor e articulista. Lembrando que o próprio Lula nunca precisou de cargos para exercer cidadania, para conversar com o país, conversar com outras forças democráticas do continente e da Europa.. Você gostaria de assumir a presidência do PT?

R. Não está nos meus planos. Eu nunca fiz parte da burocracia partidária, nunca participei da vida interna do partido a não ser quando convidado, na condição de professor universitário.

Fernando Haddad em sua casa em São Paulo. ampliar foto
Fernando Haddad em sua casa em São Paulo. Marcela Beltrão

P. Você pretende liderar a oposição no Brasil?

R. Eu não acredito que alguém possa ter essa pretensão. Estamos em um sistema multipartidário, nós ainda temos 30 partidos. Acredito que ninguém possa se arvorar a ser o chefe da oposição.

P. Durante a campanha o rapper Mano Brown fez um discurso forte com relação ao PT, dizendo que o partido tinha perdido contato com suas bases. O que vocês têm feito de diferente para reverter isso?

R. Em primeiro lugar, o PT foi para o segundo turno com 30% dos votos, e chegou ao final da eleição com 45% dos votos. Contra 51% de 2014. Então nós não perdemos [as bases]…

P. Tem uma base ampla, mas não o suficiente para ganhar…

R. Estamos falando de um partido que ganhou quatro eleições consecutivas. E perdeu a quinta tendo disputado em condições competitivas. Eu acredito que, se não fosse a ação das fake news e o dinheiro de empresários para disseminá-las, nós iríamos dar muito mais trabalho.

P. Mas na época da campanha você deu razão ao Brown…

R. Dei.

P. E agora está falando que houve desgaste no Governo, fake news…

“Quando você é Governo durante quatro mandatos existe um processo de distanciamento das bases”

R. Uma coisa não tem a ver com a outra. As duas são verdadeiras. Quando você é Governo durante quatro mandatos existe um processo de distanciamento das bases em função do fato de que a maioria dos quadros são assimilados pela máquina estatal. Isso é um processo muito desagradável, infeliz, mas acontece. O sucesso eleitoral do PT enfraqueceu o próprio partido em sua conexão com as bases. O outro fenômeno é a crise política, ética, e econômica que aconteceu.

E a outra questão é que há novos atores no Brasil. Por exemplo, as igrejas evangélicas tinham um tamanho quando ganhamos em 2002, e têm outro tamanho agora. E nós não aprendemos a dialogar com a base dessa igreja, muito menos com os líderes, que são em geral bastante conservadores.

P. Como recompor o cinturão vermelho, tradicional reduto petista em São Paulo e onde desde as eleições municipais de 2016 vocês perdem terreno?

R. Acho que vai haver um processo natural de migração do partido da máquina do Estado para a base. E nessa reconexão vai haver um aprendizado. Vamos nos deparar com outro país. Muito fruto inclusive do sucesso dos nossos Governos, mas que não necessariamente se identificam com nossos valores. Não está dado que um pobre que deixa a pobreza mantenha seus valores igualitários, por exemplo.

P. Alguns analistas dizem que o PT foi vítima do seu próprio erro, ao tirar pessoas da pobreza, mas não formar cidadãos. Como analisa essa crítica?

R. Eu acho que deveríamos ter trabalhado mais a questão da consciência política. O avanço objetivo tinha que ter sido acompanhado de um avanço subjetivo. O avanço material tem quer vir acompanhado de um avanço espiritual. Essas coisas tem que vir juntas para que o processo se consolide. Espiritual não no sentido religioso, mas no sentido ético, de valores. A ética tem que ser uma obsessão de um partido que transforma a vida material das pessoas. Se você dissocia isso as pessoas atribuem o próprio êxito a questões que… Claro que tudo depende do esforço individual também, mas isso tem que vir acompanhado de um processo de formação política.

P. O pilar da crítica feita ao PT é a corrupção. Como enfrentar isso?

“Cabe a um Governo progressista fortalecer todos os mecanismos estatais de combate à corrupção. E ninguém fez isso melhor do que o PT”

R. O que cabia ao Governo fazer? Fortalecer os mecanismos de combate à corrupção. Cabe a um governo progressista fortalecer todos os mecanismos estatais de combate à corrupção. E ninguém fez isso melhor do que o PT. A Polícia Federal nunca esteve tão bem quanto no Governo do PT. O ministério Público Federal idem. O Tribunal de Contas, o Judiciário, a Controladoria Geral da União…Nunca atuaram tanto. Jamais haveria combate à corrupção sem essas medidas. E nunca houve orientação do Governo para parar investigação. Toda a legislação usada na Lava Jato foi aprovada durante os Governos do PT.

Isso é um ponto. Outro ponto: além de fortalecer os mecanismo de combate, você tem que fortalecer as instituições de maneira a que se evite a corrupção. Nesse ponto acho que nós falhamos em não aprovar a reforma política. Porque nós sabíamos, está no nosso plano de Governo, a defesa do financiamento público de campanha. O PT sabe desde sempre que havia uma vulnerabilidade muito grande no sistema ao permitir, e não fomos nós que inventamos a regra, o financiamento privado, mais do que privado, empresarial, das campanhas eleitorais. E isso afetou todo o sistema político, sem exceção.

Quando você permite o financiamento empresarial você cria um ambiente em que as decisões individuais importam. E quando o comportamento individual fala mais que o institucional, você está com um risco elevadíssimo de alguém estar cometendo um erro em seu nome e te tornando vulnerável. A verdade é que se pedia dinheiro no sistema político sem nenhum protocolo. E isso foi se tornando a regra em todos os partidos. E abriu espaço para crimes pequenos e para crimes enormes.

P. Que peso o Lula terá na coordenação do PT enquanto oposição?

R. O Lula vai ser sempre ouvido.

P. Você considera que o Lula ainda é mais um ativo do que um fardo para o partido?

R. Vamos supor que tivesse acontecido o seguinte cenário: acharam uma conta em dólares do Lula e da Marisa num paraíso fiscal. Se fosse algo assim, “tá aqui”. Se tivessem apresentado uma prova que tivesse convencido o partido de que realmente houve uma falha, um crime, e que sendo ele cidadão brasileiro teria que responder por aquilo, acho que nós teríamos lamentado, mas teríamos seguido adiante. Mas não foi o que aconteceu. Eu me envolvi pessoalmente com o processo do tríplex e lhe asseguro: ele não se sustenta. Não há prova cabal, como aconteceu com os outros que estão presos. Com eles está lá: conta no exterior, dinheiro na mala, diálogo gravado… Então, sim, ele é um ativo.

Fernando Haddad, excandidato del PT a la presidencia de Brasil, en su casa de São Paulo
Fernando Haddad, excandidato del PT a la presidencia de Brasil, en su casa de São Paulo Lela Brandão

P. Qual o campo onde a oposição deve agir?

R. Há dois componentes importantes. Um que é mais amplo, que é o campo da defesa dos direitos civis, que no meu juízo estão ameaçados no Brasil. Estamos vendo aí os direitos indígenas sendo atacados, na contramão do que reza a Constituição Federal. Temos visto questões ambientais muito delicadas sendo questionadas pelo Governo, tratados internacionais assinados pelo Brasil [ameaçados]… As Nações Unidas sendo questionadas em todas suas decisões e orientações, acabamos de sair do pacto de imigração, sendo que somos um país que foi feito por imigrantes. Nós estamos vendo a comunidade LGBTQ sendo ameaçada nas ruas sem que as autoridades emitam nenhum juízo a este respeito. Estamos vendo professores sendo ameaçados de monitoramento. Então são sintomas muito preocupantes.

Há um outro plano de direitos sociais e econômicos. Aí inclui política de valorização do salário mínimo, o destino do nosso patrimônio público, nossas reservas de petróleo, cambiais, nossas estatais, o destino das políticas de promoção da igualdade de renda em um dos países mais desiguais do mundo, direitos trabalhistas, que já passaram por uma primeira onda de reformas liberalizantes e desprotetoras do trabalhador, e se anuncia uma segunda rodada de reformas que colocariam, se aprovadas, o trabalhador em uma situação de maior vulnerabilidade perante o capital. Direitos sociais ligados a serviços públicos, sobretudo saúde e educação, que estão na mira do Governo…

P. O PT é muito cobrado a fazer uma autocrítica com relação aos erros. Você falou da reforma política, há algo mais?

R. Eu faço sempre a mesma consideração. Erramos muito ao não fazer a reforma política, tínhamos que ter tentado fazer, e acho que a condução da política econômica depois de 2012 teve problemas. E a maneira como se pretendeu resolver esses problemas depois da reeleição também foi um equívoco.

“Erramos muito ao não fazer a reforma política, tínhamos que ter tentado fazer, e acho que a condução da política econômica depois de 2012 teve problemas”

P. O PT aparentemente foi surpreendido por uma rede bem estruturada de WhatsApp por parte da campanha de Bolsonaro. Vocês pretendem investir nessa ferramenta de olho em 2022?

R. Fala-se do WhatsApp, mas na verdade essa ferramenta foi acompanhada de três expedientes ilegais [por parte da campanha de Bolsonaro]: o primeiro foi turbinar o aplicativo com caixa 2. O segundo foi usar cadastro de terceiros. E o último foi caluniar os opositores com mentiras. De que eu era dono de Ferrari, tinha relógio de 500.000 reais, que eu era a favor do incesto… Então foram três ilegalidades cometidas.

P. Mas aparentemente a campanha dele tinha uma rede estruturada há mais tempo, e mais experiência no seu uso.

R. Isso sim. Nós poderíamos ter feito. Mas o que de fato alavancou a candidatura dele no final do segundo turno não foi isso. Porque se fosse isso ele já teria avançado previamente. Ele batia sempre no patamar de 18% das intenções de voto. Não passava de 20%. O que fez ele passar este patamar foi, em primeiro lugar, a facada, que levou ele para 26%. E depois disso ele só cresceu com o uso ilegal do WhatsApp.

P. O Ciro Gomes, a quem você chamava de amigo, bateu muito no PT durante a campanha. Retomaram o diálogo?

R. Olha, você retoma o diálogo com quem quer dialogar. As declarações do Ciro têm sido muito duras. Acho que existem episódios que ele descreve que não são dessa maneira. O episódio do PSB, por exemplo. O PSB fez um acordo com o PT, divulgado com transparência: nós apoiávamos o Paulo Câmara em Pernambuco em troca do apoio deles ao Fernando Pimentel em Minas, e da neutralidade no plano nacional. Foi uma construção do PSB. Isso é do jogo democrático.

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