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CRÔNICA

 

As primeiras manhãs de janeiro

Janio Ferreira Soares

 

Terça-feira, um pouco antes do primeiro sol do ano novo chegar. Com o céu meio nublado, infelizmente não posso ver se a barra do amanhecer profetiza fartura ou escassez, como reza a lenda do sertão. Na dúvida, pego um pedaço de carvão e mantenho a tradição escrevendo no muro de casa um “Viva 2019!”, na esperança de que seu noviço coração amoleça e que a chuva, completamente ausente em 2018, em sua gestão ressuscite riachos, verdeje pastagens e transborde barreiros.

Sem mais estampidos de bombas comemorando a virada, lentamente passarinhos insones tornam a trinar e assustados cachorros voltam a balançar os rabos, numa prova de que a vida besta do poema de Drummond retoma sua velha rotina. No embalo, aproveito para recolher copos cheios de insetos boiando sobre os vinhos que o empanzinamento da ceia fez sobrar e volto ao teclado para cumprir minha sina de caçar palavras soltas que, para regozijo de uns e desgosto de outros, continuam escorrendo nas páginas deste centenário jornal, assim como corriam as cachoeiras nas pedras dos cânions de minha aldeia.

Quarta-feira, 2 de janeiro, minutos antes do segundo sol nascer. Entre a grama e a calçada dezenas de sabiás chegam para beliscar a ração dos cachorros, hábito recente que me espanta e me leva a vislumbrar a bizarra possibilidade de, num futuro próximo, ouvi-los emitindo breves latidos intercalando seus admiráveis gorjeios. Na tela vejo as fotos de um sorridente Bolsonaro assumindo o comando desta dividida nave zanzando sem rumo sob o céu da América do Sul e, pela quantidade de militares na cabine de comando, presumo que prestar continência deverá ser a grande moda nos corredores brasilienses.

Em assim sendo – e pra não dizerem que estou por fora e vivo qual um Boko Moko pré-histórico isolado nos cafundós da caatinga -, entro na onda e aproveito estes derradeiros parágrafos para me penitenciar por nunca ter roçado de leve a palma da minha mão nas rugas que me vincam a testa em homenagem às pessoas que me são caras.

Quinta-feira, 3 de janeiro, momentos antes do terceiro – e mais bonito – sol. Confiro quantos caracteres faltam para este texto findar e vejo que estou numa verdadeira sinuca de bico, já que o espaço restante é insuficiente para citar os merecedores da tal reverência. Deste modo, instigado pelos inigualáveis cheiros que as madrugadas provocam e pelos mugidos que o vento traz de um curral vizinho, só me resta prestar uma continência póstuma a minha tia Iaiá, que em manhãs como esta sempre me acordava com um copo de leite morninho e espumando, tirado minutos antes das vacas do seu quintal.

No mais, que tenhamos todos um ano onde as cores do preconceito sejam diferenciadas por olhares daltônicos, viu, ministra?

 

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beira baiana do Rio São Francisco.

 

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