Artigo publicado na Tribuna da Bahia, nesta quinta-feira, 13/12/18. Bahia em Pauta reproduz nesta edição dominical (16/12) e recomenda aos seus leitores.

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ARTIGO/OPINIÃO POLÍTICA

 

Corrupção – Conceitos e Reflexões

Joaci Goes

 

Para a querida amiga e grande médica Dra. Nancy Silva, que me salvou a vida.

Na última terça-feira, a UNICORP, em parceria com a EMAB – Escola de Magistrados da Bahia, realizou conferência proferida pelo Doutor em Filosofia Alexandre Sérgio da Rocha, sobre o tema que nomeia o presente artigo. O evento foi regido pelo Desembargador Gesivaldo Britto, presidente do Tribunal de Justiça da Bahia, e contou com a presença da cúpula do judiciário baiano e personalidades de relevo de nosso mundo social. Na sequência, o palestrante, que ora reside nos Estados Unidos, autografou o livro de sua autoria que deu título à bem elaborada palestra, em linguagem a um só tempo erudita, convincente e didática.

Falar de corrupção no Brasil de nossos dias, no âmbito dos três poderes, é como acender um fósforo num paiol de pólvora, de tal modo a sociedade brasileira está impregnada do vírus desse mal que corrói o seu corpo e a sua alma, a ponto de haver quem suponha que esse câncro passou a ser um mal endêmico-crônico, um componente inerradicável de nossa vida coletiva.

O expositor saiu-se muito bem de sua incumbência, na medida em que caminhou sem se ferir sobre o fio da navalha, evitando fulanizar a questão, não citando pessoas físicas, partidos políticos, e entidades várias, e imprimindo ao seu discurso um caráter eminentemente teórico, sem prejuízo, no entanto, da aplicação mental, por cada um dos ouvintes, dos princípios expostos aos casos concretos de nossa crítica conjuntura moral.
Na mais apertada das sínteses, a corrupção se inicia quando o agente público, desviando-se de sua condição de servidor dos direitos e necessidades legítimas do cidadão, em função de quem existe, passa a agir fora da bitola do imperioso dever de observar o cumprimento da lei, dos princípios da justiça, de que o reconhecimento do mérito é parcela ponderável.

Desse mínimo desvio inicial, a um segundo e a um terceiro, na satisfação de seus pequenos caprichos e apetites inferiores, o agente público pode avançar para desvios abissais, como os que temos testemunhado em nosso País, que a cada dia mais escandaliza o mundo, com práticas que aberram do que se conhece de mais escabroso no espaço e no tempo.

Por oportuna coincidência, também na última terça, esta Tribuna da Bahia publicou imperdível artigo do festejado jornalista, professor e advogado Luiz Holanda com o título que define o seu conteúdo de O indulto da corrupção, em que vergasta, com argumentos irrespondíveis, o risco de abortamento do papel saneador da Operação Lava Jato derivado do proposto indulto presidencial natalino, ora em apreciação na Suprema Corte. Observe-se que, também nesta Tribuna, o respeitado político gaúcho Pedro Simon, um dos decanos da política nacional, declarou, que a continuidade da Operação Lava Jato constitui, isoladamente, o episódio mais importante na história do Brasil, como fator de aprimoramento de nossa vida social, econômica e política.

Na linha maldita dos eventos que enodoam a imagem do Brasil, mundo afora, o caso do médium-curandeiro João de Deus – na pia batismal de Cachoeira de Goiás, em 1942, João Teixeira de Farias -, surge para fazer dos crimes praticados pelo médico paulista Roger Abdelmassih parecerem traquinagens de adolescentes em piquenique de fim de semana. Com efeito, os desvios morais atribuídos por centenas de mulheres – que podem se tornar milhares – ao suposto demiurgo goiano parecem não encontrar rivais na história ou na geografia. Como agravante, se é que pode haver agravantes para tamanhas barbaridades, o falaz simoníaco ainda agregou a palavra Deus ao próprio nome.
Na mesma linha defensiva de criminosos contumazes de alto coturno, tão conhecidos do povo brasileiro, o denunciado guru de Abadiânia vem declarando inocência. Só falta dizer que foi “um amigo meu” quem praticou as infamantes diabruras a ele injustamente atribuídas, como “acusações seletivas”.

Joaci Góes, escritor, presidente eleito da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia.

 

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