A nova presidente da CDU se torna, assim, a favorita para suceder a chanceler no cargo, em 2021

 
A chanceler alemã, Angela Merkel, no espaço de congressos de Hamburgo onde se realiza o encontro da União Democrata Cristã.

 A chanceler alemã, Angela Merkel, no espaço de congressos de Hamburgo onde se realiza o encontro da União Democrata Cristã. JOHN MACDOUGALL AFP

Annegret Kramp-Karrenbauer foi escolhida como sucessora de Angela Merkel como chefe da centro-direita alemã. Em uma votação apertada, 1.001 delegados da União Democrata Cristã (CDU) optaram pela continuidade do legado centrista de Merkel contra o candidato da ruptura, Friedrich Merz, que propôs uma mudança para a direita. O voto apertado, em que a vencedora obteve 517 votos, ante 482 de seu rival, evidenciou a profunda divisão de um partido em baixa, diminuído pelo avanço da extrema direita.

A vencedora está agora na linha de frente para se tornar a próxima chanceler alemã. Kramp-Karrenbauer, também conhecida como AKK, era a candidata preferido de Merkel, que planeja continuar liderando o governo alemão até 2021. O triunfo do AKK remove o espectro de eleições antecipadas; um cenário muito mais provável se tivesse vencido Merz. A coexistência política com ele teria sido complicada, por ser um rival histórico do chanceler, que o relegou em 2002, quando ele era chefe do grupo parlamentar.

Faltando apenas algumas horas para a eleição, o resultado ainda era incerto e os barões do partido romperam o silêncio para expressar seu apoio à continuidade centrista ou pela renovação e um giro à direita . Se há algo claro é que o novo chefe da CDU terá de remendar a divisão do partido em um momento de baixa. O congresso da CDU marca o fim de uma era que começou 18 anos atrás, quando Merkel tomou as rédeas do partido no poder na Alemanha, em uma grande coalizão com os social-democratas.

No final de outubro, a chanceler Merkel anunciou que iria deixar a presidência da legenda. Ela fez isso pressionada pelo crescente descontentamento no partido pela perda de votos em eleições recentes e a ascensão dos populistas (o Alternativa para a Alemanha), que encontraram um espaço cada vez maior à direita da CDU. O anúncio de Merkel tornou este congresso de Hamburgo crucial. Dele surgiu uma vencedora que enfrentará o desafio de unir um partido dividido sobre o legado de uma chanceler em seu quarto mandato e recuperar o terreno eleitoral perdido em um contexto de instabilidade e crescente fragmentação política, também na Alemanha.

Havia três candidatos: Annegret Kramp-Karrenbauer, conhecida como AKK e miniMerkel por representar o centro e, portanto, a opção de continuidade. Em oposição a ela, Friedrich Merz, um empresário bem-sucedido, que retorna à política após ter sido defenestrado pela chanceler há 14 anos e que propõe a volta à essência de um partido que ele considera que se desviou muito em direção ao centro. E, por último, com menos possibilidades do que os dois anteriores, Jens Spahn, atual ministro da Saúde, pertencente à ala mais conservadora da CDU.

Durante duas semanas, os candidatos percorreram o país em oito conferências regionais, nas quais tentaram convencer os filiados e especialmente os mil delegados chamados a votar. As intervenções não serviram para deixar antever um claro favorito. Mas causaram alguma euforia em um partido que não realizava uma eleição semelhante fazia quase meio século. Pesquisas entre os eleitores da CDU mostravam vantagem para AKK, mas quem vota são os 1.001 delegados, e não os simpatizantes, o que aumentou a incerteza sobre o resultado.

Até meados desta semana, os pesos pesados do partido vinham evitando revelar suas preferências, mas o anúncio de Wolfgang Schäuble, o presidente do Bundestag e sumo sacerdote da política alemã, rompeu abruptamente a trégua. Schäuble deixou claro em uma entrevista que apoiava seu amigo Merz. “Seria o melhor para o país”, disse o homem, que, de acordo com a imprensa alemã, urdiu em surdina um plano para pressionar Merkel a deixar a liderança do partido.

O apoio de Schäuble a um dos candidatos não caiu bem entre os partidários de AKK e especialmente o ministro da Economia, Peter Altmaier. “Eu não tinha tornado pública minha posição por respeito aos delegados. Mas agora que Schäuble abriu as comportas, posso dizer que com Annegret Kramp-Karrenbauer temos a melhor chance de unir a CDU e vencer as eleições”, disse ele ao Rheinische Post. Outro membro proeminente, Daniel Günther, uma jovem estrela do partido, também optou por AKK. Merkel não se pronunciou abertamente, mas era um segredo de polichinelo que sua candidata é Kramp-Karrenbauer.

Seu apoio aberto poderia ser contraproducente. Nenhum candidato quer ser Merkel 2.0. Nem sua protegida AKK, ciente de que Merkel é uma política altamente valorizada dentro do partido, mas cujo legado político, especialmente sua política para os refugiados, provoca divisão. Kramp-Karrenbauer tentou nos últimos dias distanciar-se de sua mentora. E fez isso sobretudo ao endurecer sua retórica sobre a imigração, apesar de representar a ala mais centrista do partido.

KK, 56 anos, é uma eficiente política de província que demonstrou saber governar e ganhar eleições no pequeno Estado de Sarre. Kramp-Karrenbauer conhece bem os meandros do partido, do qual é secretária geral desde fevereiro. “AKK traz sua experiência e convence”, explicou Gabrielle Cocozza, uma afiliada que nesta semana participou do encerramento da campanha dos candidatos em Berlim.

Mas AKK era acima de tudo a candidata que menos polarizava e que muitos consideram capaz de promover a coexistência das diferentes sensibilidades do partido. Era a candidata da máquina partidária e dela não se esperam grandes sobressaltos. Considera-se que Merkel poderia conviver com ela em harmonia como chanceler até 2021, a data que marca o fim do seu quarto mandato.

Falta de sintonia

É quase o oposto do que acontece com Merz, 63 anos. Sua falta de sintonia com a chanceler é evidente e a previsão era que sua convivência com ela, caso fosse eleito, seria espinhosa. Portanto, a eleição de Merz implicaria, segundo muitos analistas, um possível fim da coalizão atual do Governo e a antecipação das eleições parlamentares.

Merz se declara fervorosamente europeu — entre 1989 e 1994 foi eurodeputado de uma UE hoje irreconhecível — e até agora tem sido presidente de vários conselhos, incluindo o do Black Rock na Alemanha, o grande fundo de investimentos dos EUA. Durante a campanha defendeu uma grande reforma tributária e tentou apelar ao cidadão médio, temeroso das dificuldades de integração de um milhão e meio de refugiados que chegaram desde 2015. Mas também se mostrou contraditório, no ritmo das pesquisas de opinião. Se um dia questionava o direito constitucional de asilo, no dia seguinte afirmava que não se pode virar as costas para as pessoas de zonas de guerra.

Mas Merz é um homem muito autoconfiante, que convenceu no corpo a corpo das conferências regionais. “Ele tem ideias claras e sabe aonde quer ir”, avalia Björn Bartnik, consultor financeiro e filiado ao partido em Mainz. Bartnik valoriza o fato de Merz ter passado anos no setor privado, longe da política, porque “isso é muito valioso e uma clara vantagem”. E quer acima de tudo que a CDU reconquiste o terreno perdido para a AfD. Ele acha que Merz é a pessoa certa para isso.

Nos atos de campanha foi ele quem recebe os grandes aplausos, quem criou uma certa magia quando fala numa sala. Spahn, também, mas seu modo e um pouco menos. Ele se movimenta com agilidade de microfone na mão e seu discurso é envolvente, tem presença

Quanto à política externa, pouco se sabe dos três candidatos. Christian Ehler, de 55 anos, é eurodeputado por Brandenburgo e um dos 1.001 chamados a votar. Ehler salientou antes da votação que “nenhum dos candidatos é eurocético e argumenta que “a política europeia não vai mudar com nenhum deles. Os três significam continuidade”, observou, em meio a uma das conferências regionais.

Spahn, o mais novo dos três — tem 38 anos — partia com muito menos chances que seus rivais. O atual ministro da Saúde era o candidato mais conservador e o único que se atreveu a imitar a extrema direira e situar os refugiados no centro de seu discurso, questionando até mesmo o pacto da ONU para a imigração. É também, ao contrário de AKK, defensor do casamento gay. Ele mesmo se casou com seu parceiro logo após a aprovação da união de casais do mesmo sexo na Alemanha no ano passado.

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