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OPINIÃO POLÍTICA

Previsibilidade confiável

Joaci Goes

 

Para o velho amigo Lauro Assunção, que deixou a Bahia pelo Maranhão.

Peter Drucker, o grande guru da administração, cunhou a conhecida expressão “o futuro que já aconteceu ou o futuro presente”, para designar a segura previsibilidade das decorrências de uma determinada conjuntura, de tal modo emergem da concreta realidade contemporânea. Algo parecido com a segurança da hora de chegada dos voos, levando-se, em conta, a distância a percorrer e a velocidade das aeronaves.
A boa técnica do planejamento das ações dos indivíduos, das organizações públicas e privadas e, sobretudo, do governo dos povos, baseia-se no grau de confiabilidade das premissas ou bases de apoio consideradas.

Um mês depois das eleições, o apoio da sociedade brasileira às primeiras decisões do Presidente eleito atingiu 63%, percentual que, traduzido em votos, elevaria de dez para vinte e seis milhões de eleitores a dimensão da vitória de Jair Bolsonaro sobre o candidato petista, resultado de sua fidelidade operacional, até agora, às promessas de campanha.

Quando em março de 2003, três meses decorridos da primeira posse de Lula, o então chefe da Casa Civil, José Dirceu, declarou haverem recebido de Fernando Henrique Cardoso uma herança maldita, o ex-guerrilheiro deu a senha para tudo que viria acontecer: um conjunto de ações orquestradas para a manutenção do poder a qualquer preço. O resultado é o que vimos: o mais completo aparelhamento do Estado para fazer do território nacional e da sociedade brasileira instrumentos de satisfação dos apetites inferiores e ferozes do Partido dos Trabalhadores. O impeachment de Dilma Rousseff e a Operação Lava Jato iniciaram o processo de reversão desse curso suicida, consolidado pela reação histórica do povo brasileiro nas urnas de 2018.

O que se percebe do mar de lama em que chafurdaram as administrações petistas é que tudo que até agora se apurou é pouco mais do que a ponta do gigantesco iceberg da corrupção que levou à lona o longo processo de crescimento da economia brasileira, conduzindo-nos a uma recessão que tanto sofrimento tem causado aos segmentos mais carentes de nossa população, do qual começamos a emergir no bom governo que vem fazendo o Presidente Temer, apesar da elevada impopularidade que sofre, provocada por causas anteriores ao seu mandato presidencial.

Com as atenções voltadas para o segundo turno das eleições presidenciais, a sociedade brasileira mal tomou conhecimento da gravidade do depoimento de Antônio Palocci, o mais poderoso ministro dos governos Lula-Dilma. Basta mencionar os 52 bilhões de dólares que, segundo ele, os ex-presidentes petistas teriam transferido para paraísos fiscais, em nome de “cumpanheiros” laranjas, brasileiros ou não, distribuídos em países bolivarianos, como reserva de caixa dos signatários do Fórum de São Paulo. Estamos falando em algo da ordem de cento e oitenta bilhões de Reais, dinheiro suficiente para implantar o saneamento básico, cuja falta diminui a longevidade e compromete a qualidade de vida dos cem milhões de brasileiros que ainda carecem desse imprescindível componente da infraestrutura física dos povos modernos.

Como se vê, é enorme a tarefa que aguarda Sérgio Moro, cuja decisão de assumir o Ministério da Justiça coroa a confiança geral de que o combate ao crime do colarinho branco não sofrerá a interrupção que certamente ocorreria numa impensável e trágica vitória petista.

A publicidade que terão os contratos de financiamento, a fundo perdido, com recursos do BNDES, de projetos em países bolivarianos, a cargo das Empresas Campeãs, as mesmas que encheram as burras dos quadrilheiros que assaltaram o País, evidenciará como os recursos do contribuinte foram utilizados para os fins mais odientos, sem qualquer relação com os interesses da patuleia ignara, ingênua, descarada e impiedosamente explorada pelos “pais dos Pobres”.

A auditoria no Bolsa-Família evidenciará o brutal desvio de finalidade de parte dos recursos, favorecendo a “cumpanheirada” que não se enquadra nos critérios para receber a ajuda, aí incluídos vereadores, prefeitos, empresários e profissionais liberais. Esta gente, uma vez identificada, além da devolução, em dobro ou no triplo dos recursos criminosamente recebidos, tem que responder, também, penalmente.
A monstruosa ação criminosa do MST se exprime, acima de qualquer dúvida, pela identificação pelo Tribunal de Contas da União de nada menos de 594.000 títulos de terra concedidos a pessoas destituídas dos requisitos legais, como ocorre com o Bolsa-Família. Se considerarmos uma média de dez hectares por título irregular, temos uma concessão ilegal de 60.000km², área maior do que os 27.700km² do Estado de Alagoas; 46.000km² do Espírito Santo; 56.600km² da Paraíba; 44.000km² do Rio de Janeiro; 53.000km² do Rio Grande do Norte; 22.000km² de Sergipe. E os bandidos que se aproveitam de um programa de origem legítima, estimulados pela impunidade, passaram a invadir áreas urbanas e a vender segurança aos proprietários, no velho estilo da máfia. Na Bahia, essa criminalidade é agravada pela reiterada resistência do governo estadual em cumprir ordens judiciais de desocupação. Advogados que integraram as chapas que vieram de concorrer às eleições da OAB, seccional da Bahia, já cogitam de entrar com um pedido de intervenção federal no Estado.

Sem dúvida, suspense é o que não nos faltará no futuro próximo.

Joaci Góes, escritor, presidente leito da Academia de Letras da Bahia, ex-diretor da Tribuna da Bahia.