Do G1

Por Marília Marques, G1 DF

Brasil, São Paulo, SP. 04/09/1990. Funcionários da prefeitura colocam em sacos plásticos cerca de 1.500 ossadas encontradas em uma vala do cemitério Dom Bosco em Perus, zona oeste da capital — Foto: Itamar Miranda/Estadão Conteúdo/Arquivo Brasil, São Paulo, SP. 04/09/1990. Funcionários da prefeitura colocam em sacos plásticos cerca de 1.500 ossadas encontradas em uma vala do cemitério Dom Bosco em Perus, zona oeste da capital — Foto: Itamar Miranda/Estadão Conteúdo/Arquivo

Brasil, São Paulo, SP. 04/09/1990. Funcionários da prefeitura colocam em sacos plásticos cerca de 1.500 ossadas encontradas em uma vala do cemitério Dom Bosco em Perus, zona oeste da capital — Foto: Itamar Miranda/Estadão Conteúdo/Arquivo

Os restos mortais do sindicalista Aluizio Palhano, sequestrado e morto em 1971 durante a Ditadura Militar, foram identificados 47 anos depois do seu desaparecimento. A confirmação veio a partir de um cruzamento genético e foi anunciada nesta segunda-feira (3) durante o I Encontro Nacional de Familiares de Desaparecidos Políticos, em Brasília.

 Ossada de desaparecido político durante a ditadura militar é identificada

Ossada de desaparecido político durante a ditadura militar é identificada

A ossada estava entre mais de mil restos mortais descobertos em 1990, na vala clandestina de Perus, no cemitério Dom Bosco, em São Paulo. Esta é a segunda confirmação obtida, desde 2014, pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos (Cemdp), do governo federal.

 

Aluizio Palhano, sindicalista desaparecido em São Paulo, durante ditadura militar, em 1971 — Foto: Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos /Reprodução Aluizio Palhano, sindicalista desaparecido em São Paulo, durante ditadura militar, em 1971 — Foto: Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos /Reprodução

Aluizio Palhano, sindicalista desaparecido em São Paulo, durante ditadura militar, em 1971 — Foto: Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos /Reprodução

A primeira ossada identificada foi a do paulista Dimas Antônio Casemiro, em fevereiro deste ano. A vala clandestina de Perus foi descoberta em 1990. As ossadas foram enviadas à Bósnia.

A equipe científica que chegou à identificação do restos mortais do sindicalista Aluizio Palhano foi coordenada pelo perito Samuel Ferreira. Ao G1, o pesquisador explicou que o perfil genético foi identificado por meio do cruzamento do DNA da filha do sindicalista com segmentos ósseos dele – um pedaço do fêmur e um dente.

“Examinando os restos mortais, pelas características físicas, soubemos dizer a estimativa da altura da pessoa, sexo, faixa etária e o tipo de lesão que ele teve”.

 

Equipe de peritos da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos faz análise de material genético — Foto: Arquivo pessoal Equipe de peritos da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos faz análise de material genético — Foto: Arquivo pessoal

Equipe de peritos da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos faz análise de material genético — Foto: Arquivo pessoal

Com as informações coletadas com a família, as características foram comparadas com os restos mortais e, só então, veio a confirmação de que a ossada era de Palhano, que desapareceu aos 49 anos. “Todo o procedimento é extremamente cuidadoso e científico, sob princípios éticos, legais e humanitários”.

“A identificação prova, mais uma vez, o uso do cemitério de Perus para desaparecimento de corpos.”

Novas identificações

 

José Dalmo, que procura irmão desaparecido há 45 anos, colhe material genético para banco de dados — Foto: Marília Marques/G1 José Dalmo, que procura irmão desaparecido há 45 anos, colhe material genético para banco de dados — Foto: Marília Marques/G1

José Dalmo, que procura irmão desaparecido há 45 anos, colhe material genético para banco de dados — Foto: Marília Marques/G1

Durante a tarde desta segunda-feira, familiares de desaparecidos políticos coletaram amostras de material genético, em Brasília. O material vai compor o banco de dados da comissão e, depois, será levado para um laboratório em Haia, na Holanda.

O laboratório na Holanda é o mesmo que analisou as amostras enviadas para a Bósnia em 2014. Ele agora tem sede em Haia.

O resultado do procedimento vai servir para a identificação de mais de 40 desaparecidos políticos no Brasil. Ainda não há prazo para novos resultados.

A análise antropológica, de montagem dos restos mortais é feita na UNIFESP, em SP.

Atestados de óbito

 

Sala para coleta de material genético e entrega de atestados de óbito de desaparecidos durante a ditadura militar — Foto: Marília Marques/G1 Sala para coleta de material genético e entrega de atestados de óbito de desaparecidos durante a ditadura militar — Foto: Marília Marques/G1

Sala para coleta de material genético e entrega de atestados de óbito de desaparecidos durante a ditadura militar — Foto: Marília Marques/G1

Além do anúncio da identificação do sindicalista morto, a Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos começou a entregar os relatórios de morte anexados aos atestados de óbito de alguns desaparecidos políticos.

O primeiro documento, com detalhes das circunstâncias, foi entregue nesta segunda. Os demais serão distribuídos ao longo do encontro, até terça (4).

Os atestados de óbito foram entregues em 1995. No ano passado, uma resolução do Ministério dos Direitos Humanos abriu a possibilidade dos familiares reivindicarem uma retificação neste documento. Desde então, parentes de 60 vítimas da ditadura militar, em todo país, solicitaram a alteração.

Marcelo de Santa Cruz, é irmão de um dos mortos, o pernambucano Fernando Santa Cruz, desaparecido em 1974. Segundo ele, o irmão não era ligado à luta armada, mas era membro da Ação Popular Marxista-Lenista.

A família já tinha recebido o atestado de reconhecimento da morte do estudante, mas veio até Brasília para pedir mais detalhes da situação. “O atestado de reconhecimento de que ele foi morto pela repressão não é suficiente para nós”, afirma Marcelo.

“O importante é saber as circunstâncias em que ele foi morto, onde estão os restos mortais e que sejam apontados os executores.”

Veja linha do tempo desde a descoberta da vala clandestina em Perus:

  • 1990: Local é descoberto em 4 de setembro, e Prefeitura de São Paulo exuma mais de 1.000 sacos plásticos contendo as ossadas;
  • 1990: Trabalho de identificação é iniciado no departamento de Medicina Legal da Unicamp;
  • 1991: Duas ossadas são identificadas, uma delas é de Dênis Casemiro;
  • 1994: Análises são interrompidas;
  • 1998: Verifica-se a má conservação dos ossos, que ficaram armazenados em péssimo estado de conservação, empilhados em uma sala, com carteiras escolares em cima dos sacos, além de estarem molhados devido a uma inundação ocorrida no local;
  • 1999: Ministério Público Federal (MPF) interveio e, em setembro, foi instaurado na Procuradoria da República em São Paulo o Inquérito Civil Público nº 06/99, para apurar o lento andamento dos trabalhos na identificação das ossadas;
  • 2001: Com a intervenção do MPF, a Secretaria de Segurança Pública providenciou a transferência das ossadas da Unicamp para o Instituto Médico-Legal, para prosseguimento dos trabalhos sob a responsabilidade da Universidade de São Paulo (USP);
  • 2002: Ossadas são transferidas para o cemitério do Araçá;
  • 2005: Terceira ossada é identificada;
  • 2006: Trabalhos da USP são paralisados;
  • 2009: Paralisação levou ao ajuizamento de ação civil pública pelo MPF em São Paulo;
  • 2014: Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF), da Unifesp, recebe as 1.047 caixas, e análise é assumida pelo Grupo de Trabalho Perus;
  • 2017: Mais da metade das caixas tiveram seu conteúdo limpo e analisado, e amostras de ossadas são enviadas para laboratório na Bósnia;
  • 2018: Ossada de Dimas Antônio Casemiro é identificada;
  • 2018: Ossada do sindicalista Aluizio Palhano é identificada;
  • 2018: Familiares de desaparecidos coletam amostras genéticas em Brasília.

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