Artigo de Joaci Goes publicado na Tribuna da Bahia, quarta-feira, 29/11. O Bahia em Pauta reproduz o texto neste domingo, 2, e recomenda a seus leitores e ouvintes. (Vitor Hugo Soares, editor).
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Patrulhamento ideológico

Joaci Goes

Aos queridos compadres Constança e Paulo Sales.

Patrulhamento ideológico significa intolerância com ideias diferentes, sobretudo contrárias às nossas. No Século XX, representou o coroamento das ideias do pensador italiano Antônio Gramsci (1891-1937), como instrumento de facilitação do avanço do socialismo.
Da prisão, onde se encontrava cumprindo pena por crimes políticos, Gramsci tomou conhecimento do genocídio que Stalin praticava na Rússia para impor o socialismo, e produziu a teoria que recomendava fazer a cabeça das pessoas, particularmente dos jovens, no sentido de assegurar, por via pacífica, a aceitação do pensamento marxista. A escola e as igrejas seriam os ambientes ideais para condicionar o pensamento dos futuros dirigentes da nação, nas diferentes esferas de poder. Stalin, personalidade de rudeza olímpica, segundo maior assassino da história (Mao Tse Tung foi o primeiro e Hitler o terceiro), não tomou conhecimento dos conselhos de Gramsci e o resultado se estima entre vinte e quarenta milhões de vítimas fatais.

Na formulação dessa lavagem cerebral, todas as virtudes humanas estariam associadas a uma postura de esquerda, do mesmo modo que todas as deformações espirituais, morais e estéticas estariam presentes no pensamento liberal, que se orienta por critérios meritocráticos, sem prejuízo de um piso mínimo assecuratório da dignidade dos escalões mais pobres da sociedade. É por isso que o gramscismo apregoa que ser de esquerda é ser inteligente, progressista, avançado, consequente, socialmente justo e solidário, enquanto ser liberal significaria o atraso, o egoísmo, a injustiça, a desonestidade, ausência de piedade e defesa do direito à exploração dos pobres pelos ricos e poderosos. O setor produtivo seria, inapelavelmente, associado à ideia do capitalismo selvagem, daí nascendo a percepção do Estado como provedor e protetor das grandes massas exploradas pela impiedade dos empresários.
O resultado desse ideário, como todos sabem, foi o colapso da União Soviética e o fracasso de regimes como o cubano e o coreano do Norte. A China, depois de ser palco do maior genocídio da História, apagou o nome de Mao, que liquidou entre sessenta e cem milhões de vidas, e aderiu a uma orientação fascista, consistente na ampliação gradual de práticas de mercado, hoje abrigando cerca de um terço de sua população, enquanto mantém dois terços em regime de escravidão, produzindo bens a custos tão baixos que desempregam centenas de milhões de pessoas nas diferentes partes do Globo, inclusive no Brasil.

Esse patrulhamento ideológico – que perdeu a força que tinha na Europa, com a implosão do Império Soviético-, culminou no maniqueísmo da esquerda como o bem supremo e a direita como a síntese de todos os males; alcançou, porém, na atrasada América Latina o ápice, tendo a Universidade Pública como seu lócus absoluto, onde se produziu uma colossal quantidade de mestres e doutores, semiletrados, com as exceções que não infirmam a regra geral. A ponto de dois terços do magistério do ensino fundamental e básico, no Brasil, haver reconhecido, consoante pesquisa realizada conjuntamente pelo IBOPE e a Fundação Montenegro, que não se sentiam preparados para o satisfatório cumprimento de sua missão, porque ao longo do curso preparatório valorizava-se, mais, para efeito da obtenção de notas, a assunção de uma posição de esquerda do que o rendimento acadêmico. É por isso que nunca se viu tanto analfabeto posando de intelectual. A mídia brasileira foi também, grandemente, cooptada pelo canto de sereia da pregação gramsciana. Só as Forças Armadas se mantiveram imunes ao patrulhamento ideológico, graças à firme reação dos seus líderes às tentativas de transferir para a Casa Civil dos governos petistas o poder de promover e de transferir o oficialato. Foi isso que impediu que o Brasil seguisse o trágico destino da Venezuela.

A surpreendente vitória de Trump nos Estados Unidos deixou claro que o mundo estava em curso de reagir a esse já duradouro patrulhamento, também presente no Colosso do Norte, ainda que com intensidade bem menor do que a observada nos países bolivarianos do Sul do Continente.
Como a comprovar a regra da Física, segundo a qual “a toda ação corresponde uma reação igual de sentido diametralmente oposto”, Jair Messias Bolsonaro venceu as eleições presidenciais no Brasil, de um modo inédito na História dos povos, sem dinheiro, sem um partido forte, contra os grandes veículos de comunicação, sem tempo de televisão. A palavra de ordem de sua campanha que empolgou a Nação foi um sonoro NÃO ao PT.

O governo harmônico que Bolsonaro está organizando, com nomes acima de qualquer suspeita, aponta para resultados alvissareiros na vida nacional. Torcer e colaborar para que o seu governo dê certo é imperativo de inteligência, patriotismo e decência em doses mínimas.
Foi uma pena que o judiciário brasileiro tivesse perdido a histórica oportunidade de demonstrar sensibilidade com a grande crise que vivemos, adiando, por algum tempo, um aumento salarial que compromete, ainda mais, as contas públicas.

Joaci Góes, escritor, ex-diretor da Tribuna da Bahia,  é membro da Academia de Letras da Bahia.