Do  Jornal do Brasil

O atual governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, foi preso na manhã desta quinta-feira (29) no Palácio Laranjeiras, residência oficial do chefe do estado. A operação é baseada na delação premiada de Carlos Miranda, operador financeiro do ex-governador Sérgio Cabral, que está preso. A ordem de prisão preventiva foi expedida pelo ministro Felix Fischer, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde governadores têm foro.

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Prisão do Governador aconteceu no Palácio Laranjeiras (Foto: Reprodução / TV Globo)

Ação da PF

A Polícia Federal realiza ações no prédio do governador e também há agentes no Palácio Guanabara, sede do governo fluminense, e no Palácio Laranjeiras, residência oficial. Os policiais estão também na casa de Pezão em Piraí, no Vale do Paraíba, na região sul fluminense. 

Há ainda mandados contra o ex-secretário de Obras do estado do Rio, Hudson Braga, e dois homens apontados como operadores de um complexo esquema de segurança.

As operações começaram por volta das 6h da manhã envolvendo pelo menos três viaturas e helicópteros que sobrevoam a região.

Quarto governador do Rio preso

Pezão é o quarto governador do Rio de Janeiro preso e o primeiro em cumprimento do mandato. Os ex-governadores Anthony Garotinho, Rosinha Matheus e Sergio Cabral também foram presos. Anteriormente, o presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Jorge Picciani (MDB) e vários parlamentares da Casa também foram presos.

Além da prisão de Pezão, a ação tem como alvo o atual secretário estadual de Obras do Rio, José Iran Peixoto. Há buscas e apreensão na casa de Hudson Braga, que foi secretário de Obras durante o governo de Sérgio Cabral.

Carlos Miranda detalhou o pagamento de mesada de R$ 150 mil para Pezão na época em que ele era vice do então governador Sérgio Cabral. Também houve pagamento de 13º de propina e ainda dois pagamentos de R$ 1 milhão como prêmio. A ação é mais uma etapa da Lava Jato no Rio de Janeiro.

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O governador Luiz Fernando Pezão que foi preso na manhã desta quinta-feira (Foto: Severino Silva/AE)

A ação ocorre três semanas depois de prenderem dez deputados estaduais acusados de corrupção e os agentes e procuradores da República voltaram às ruas na manhã desta quinta-feira (29) para cumprir ao menos nove mandados de prisão, cujo principal alvo é o atual governador do Rio. 

Opinião
O presidente eleito, Jair Bolsonaro, em evento comemorativo da Brigada de Infantaria Paraquedista no Rio de Janeiro.
O presidente eleito, Jair Bolsonaro, em evento comemorativo da Brigada de Infantaria Paraquedista no Rio de Janeiro. MARCELO SAYÃO EFE

O filósofo francês Bernard Henri Lévy, em uma entrevista a este jornal feita por meu colega Tom Avendaño, faz a seguinte afirmação: “Bolsonaro derrotou mais a direita que a esquerda”. Talvez seria mais justo afirmar que o capitão de ultradireita desbaratou e devorou tanto a direita como a esquerda e até o centro político. Embora seja verdade que, enquanto à esquerda resta o importante papel da oposição, à direita nem esse consolo lhe sobra. Acabará em seus braços ou ficará sem espaço

Para entender esse fenômeno é necessário recordar que há muito tempo, no Brasil, a direita política e econômica, a liberal, viveu escondida, quase envergonhada, ou se entregou às mãos da esquerda nos governos do PT de Lula. Tanto é assim não há um só partido, dos 35 com presença no Congresso, que leve em seu nome a palavra direita ou liberal. Ou melhor, só o pequeno partido que acabou acolhendo Bolsonaro como candidato presidencial, já que os outros não acreditavam em sua força eleitoral, chama-se “Partido Social Liberal”. E mesmo esse partido destaca o social em seu nome. Nenhum outro aparece como liberal, enquanto há quase 20 partidos que levam em seu nome referências explícitas à esquerda, ao socialismo, ao comunismo ou ao progressismo em geral. Ninguém queria parecer de direita. Até partidos claramente conservadores, como o PP, com maior número de deputados indiciados por corrupção, chama-se Partido Progressista.

Essa espécie de pudor de não parecer de direita ou liberal foi notado nestes anos também no âmbito intelectual e cultural. Com pequenas exceções, no campo universitário, por exemplo, a direita liberal nunca teve espaço nem prestígio. Tudo o que não fosse relacionado com a esquerda era considerado de segunda categoria.

O fato é que o Brasil sempre foi, e continua sendo, um povo conservador, em boa parte de sua classe média e sobretudo em seus estratos mais pobres e populares cativados pelas igrejas evangélicas que pregam um cristianismo de direita. A esquerda sempre soube que, se tivesse levado a plebiscito temas como a pena de morte, o aborto ou o casamento homossexual, provavelmente teria perdido. Tanto assim que, para conseguirem se eleger, tanto Lula como Dilma tiveram que prometer aos evangélicos não tocar, por exemplo, no tema da liberação do aborto. E assim fizeram.

Bolsonaro foi capaz, num mundo político onde só a esquerda tinha prestígio, com uma direita encolhida, de apresentar sem pudor toda a fúria da ultradireita, inclusive com tintas fascistas. Não teve escrúpulos em exaltar a violência como panaceia e de praticar o politicamente incorreto, bem como menosprezar as minorias. E, para surpresa de muitos, arrastou com sua candidatura sem meios-tons, nem concessões, ameaçando inclusive prender a oposição de esquerda, a 57 milhões de votantes que lhe deram de presente a presidência.

Lembro-me de quando começou sua candidatura a crescer, e tantos colegas e amigos meus, jornalistas brasileiros e espanhóis, me diziam que era impossível que o ex-militar sem biografia nem experiência de governo e com suas tiradas extremistas e extravagantes pudesse conquistar a presidência num país com a envergadura do Brasil. Temos que reconhecer que nos equivocamos. E hoje poderíamos nos equivocar de novo, quando se supõe que sua presidência não aguentará nem dois anos, e que logo a esquerda voltará a governar. Talvez o mais grave de tudo, para quem vê em Bolsonaro um perigo para a democracia, é que o Brasil, como demonstrou a surpresa das eleições, tenha entrado num círculo político difícil de frear e que muito provavelmente continuaria vivo inclusive com a saída do capitão. A direita, assimilada pelo fenômeno de Bolsonaro, acabará pondo-se a seus pés. E até o centro, que parece perdido. E inclusive parte da social-democracia do PSDB que já tinha votado nele.

Daí a importância de uma reunificação da esquerda e das forças progressistas se desejarem criar uma frente de oposição séria. Uma oposição que seja ao mesmo tempo uma tomada de consciência para entender e confessar onde se equivocou e como poderia recuperar a confiança nela depositada até agora pela maioria dos brasileiros.

Permanecer numa postura de mera abominação da presidência bolsonarista ou do excesso de confiança de que logo o tsunami de extrema direita amainará, deixando novamente o campo livre para os progressistas, seria na verdade um suicídio.

A nova onda ultraconservadora que ameaça incorporar tanto a direita liberal como o centro poderia acabar monopolizando o poder e encurralando cada vez mais as forças progressistas. Para não desaparecer, estas precisam reconhecer que seu fracasso maior foi não ter nem imaginado, talvez por um pecado de autossuficiência, que o Brasil poderia castigar seus pecados de corrupção entregando-se às mãos da direita, apesar dos escândalos de corrupção. Mais ainda neste momento em que os ventos da ultradireita sopram de uma ponta a outra do Atlântico e contagiaram uma parte da Europa a partir dos Estados Unidos.

Se a esquerda precisa se purificar e fazer um exame de consciência para entender onde se equivocou, também a direita liberal, a democrática, junto com as forças do centro, deverão repensar e ocupar o papel que lhes competia, como pluralismo político. Neste momento, essa direita ou centro-direita, que em outros países mais desenvolvidos que o Brasil foi capaz de criar prosperidade e defender a democracia, deverá recuperar sua identidade para frear a possibilidade de que se amplie ainda mais o campo extremista do bolsonarismo. Ou pelo menos lhe servir como dique de contenção democrática. Ou a direita política e econômica se mudará de mala e cuia para o novo e imprevisível condomínio bolsonarista?

Los Mareados”, Adriana Varela:  a “morocha” (morena) da garganta com areia da música argentina em uma de suas mais perfeitas interpretações deste  extraordinário tango portenho sobre boemia e paixão. Além da vóz única de Varela, vale prestar atenção também no magistral acompanamento de violono e bandoneón.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 DO G1

Por Rosanne D’Agostino e Mariana Oliveira, G1 e TV Globo — Brasília

STF retoma julgamento de indulto de Natal editado pelo presidente Temer

STF retoma julgamento de indulto de Natal editado pelo presidente Temer

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), votou nesta quarta-feira (28) pela derrubada de parte do decreto de indulto natalino editado pelo presidente Michel Temer no ano passado.

O decreto reduziu em um quinto o cumprimento de pena em caso de crimes sem violência ou grave ameaça, sem limite máximo de pena para concessão. A Procuradoria Geral da República (PGR) questionou o ato de Temer.

Após o voto de Barroso, o ministro Alexandre de Moraes apresentou voto divergente, afirmando que a edição do decreto é prerrogativa privativa do presidente da República (leia os detalhes mais abaixo).

A decisão do Supremo sobre o tema, contudo, foi adiada. Isso porque a sessão foi suspensa após o voto de Moraes. O julgamento será retomado nesta quinta (29) com os votos dos demais nove ministros.

 

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal — Foto: Carlos Moura/SCO/STF O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal — Foto: Carlos Moura/SCO/STF

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal — Foto: Carlos Moura/SCO/STF

Voto do relator

Pelo voto de Barroso, fica vedada a concessão de indulto aos crimes do colarinho branco, como corrupção e peculato, e só pode ser beneficiado quem cumpriu pelo menos um terço da pena de no máximo oito anos.

“Enquanto o mundo, de uma maneira geral, aboliu a possibilidade do indulto coletivo. No Brasil, nós estamos expandindo”, afirmou Barroso.

Segundo Barroso, o indulto de 2017 “se choca com princípios constitucionais básicos e com parâmetros definidos pelo Congresso”.

“O ato tem graves problemas de legitimidade, no momento em que as instituições e a sociedade brasileira travam uma batalha ingente [enorme] contra a corrupção e crimes correlatos”, afirmou.

Nesta terça-feira (27), a Força Tarefa da Lava Jato informou que, se o presidente Michel Temer editar o decreto de indulto natalino neste ano com as mesmas regras do de 2017, 22 presos da Lava Jato serão beneficiados.

“Esse decreto [de 2017] esvazia o esforço da sociedade e das instituições, onde delegados, procuradores, juízes corajosos enfrentam essas diferentes modalidades de crime organizado, inclusive do colarinho branco, e o decreto cria um facilitário sem precedentes para condenados por esses crimes, com direito a indulto, cumprimento de um quinto da pena e sem limite máximo de condenação”, votou Barroso nesta quarta-feira.

Para o relator do caso, a corrupção é um crime “violento”, praticado por gente “perigosa”. Afirmou, ainda, que a corrupção “mata, mata na fila do SUS, mata na falta de leitos, falta de medicamentos, mata nas estradas que não têm manutenção adequada”.

A corrupção, acrescentou, “destrói vidas que não são educadas adequadamente em razão da ausência de escolas, deficiências de estruturas e equipamentos”.

“O fato de um corrupto não ver nos olhos a vítima que ele produz não o torna menos perigoso. A crença de que a corrupção não é um crime grave e violento e de que os corruptos não são perigosos nos trouxe até aqui a esse quadro sombrio em que recessão, corrupção e criminalidade elevadíssimos nos atrasam na história e nos retêm como um país de renda média que não consegue furar o cerco”, disse.

Barroso afirmou ainda que, no caso do mensalão, as penas começaram a ser cumpridas no final 2013 e início de 2014. Segundo ele, foram penas elevadas. Do total de 23 réus condenados, 13 foram beneficiados pelo indulto de 2016.

“A competência do presidente da República para concessão do indulto deve ser interpretada de forma sistemática e em harmonia com provisões legislativas determinadas pelo legislador penal, do contrário haverá usurpação da competência legislativa do Congresso e violação da separação de poderes”, completou.

Como fica o indulto, segundo Barroso

De acordo com o voto de Barroso, terá direito ao indulto quem tiver sido condenado por crimes cometidos sem grave ameaça ou violência, com duas ressalvas:

  • Em vez de 20% da pena, será necessário o cumprimento de ao menos um terço;
  • A condenação não pode ter sido superior a oito anos de prisão (no indulto original, não havia limite de pena para a concessão).

Não serão beneficiados condenados por peculato (crime cometido por funcionário público), concussão, corrupção passiva, corrupção ativa, tráfico de influência, crimes contra o sistema financeiro nacional, crimes previstos na lei de licitações, lavagem de dinheiro, ocultação de bens, crimes previstos na lei de organizações criminosas e associação criminosa.

Também fica de fora do indulto:

  • Quem tem multa pendente a pagar;
  • Quem tem recurso da acusação pendente de análise;
  • Sentenciados que já se beneficiaram da substituição da pena privativa de liberdade por restritiva de direitos e da suspensão condicional do processo.
 O ministro do STF Alexandre de Moraes — Foto: Carlos Moura/SCO/STF O ministro do STF Alexandre de Moraes — Foto: Carlos Moura/SCO/STF

O ministro do STF Alexandre de Moraes — Foto: Carlos Moura/SCO/STF

Voto de Alexandre de Moraes

Após o voto de Barroso, o ministro Alexandre de Moraes divergiu do relator, afirmando que o indulto é um ato privativo do presidente da República e, nesse caso, não feriu a separação de poderes.

“Da mesma maneira, não entendo que fira política criminal do nosso Legislativo. Até porque, senão, não haveria necessidade de se conceder indulto. Perderia até a finalidade”, afirmou. “Não pode o Supremo reescrever o decreto presidencial”, acrescentou.

O ministro defendeu ainda o respeito às posições diversas, com afastamento de posições autoritárias, e condenou o entendimento de que “posições que discordam são antidemocráticas, antirrepublicanas e a favor da corrupção”.

“Entendo que esse plenário do STF não está julgando se é favor ou contra a corrupção”, afirmou.

Na opinião de Moraes, “todos lutam contra corrupção, todos defendem o fortalecimento das instituições e da República”, mas o fortalecimento só existirá se decisões “fundamentadas” forem respeitadas.

“Se escolha foi feita dentro das legítimas opções constitucionalmente previstas, me parece que não se pode adentrar ao mérito”, afirmou ainda o ministro sobre o decreto de indulto. “Com devido respeito, entendo que não compete ao Judiciário reescrever o decreto de indulto.”

O ministro também afirmou que deve haver alternativas de punição para condenados por crimes não violentos. “Tem que ficar preso quem precisa ficar preso e aqueles que geram risco à sociedade, crimes mais graves, reincidentes, não se inventou nada melhor que a prisão, ou menos pior”, disse.

 
 
STF vai julgar nesta quarta validade de decreto de indulto de Natal editado por Temer

STF vai julgar nesta quarta validade de decreto de indulto de Natal editado por Temer

Entenda o caso

O indulto é um perdão de pena e costuma ser concedido todos os anos em período próximo ao Natal, atribuição do presidente da República.

Em março, Barroso concedeu liminar (decisão provisória) limitando a aplicação do indulto. O ministro aumentou o período de cumprimento para pelo menos um terço da pena, permitindo indulto somente para quem foi condenado a mais de oito anos de prisão. Ele também vetou a concessão para crimes de colarinho branco e para quem tem multa pendente.

Para a Procuradoria Geral da República, que entrou com a ação, o decreto beneficiou presos por crimes de colarinho branco, como corrupção e peculato. O governo entende que Barroso invadiu “competência exclusiva” do presidente da República ao alterar as regras do indulto fixadas por Temer.

O julgamento no STF se limita à validade do decreto editado em 2017. A cada ano, um novo decreto é editado pelo presidente da República, mas a decisão do STF não diz respeito aos anteriores.

Um dos pontos centrais do julgamento é responder se o decreto é prerrogativa “discricionária” do presidente da República, ou seja, se ele tem o poder de definir a extensão do benefício considerando os critérios de conveniência. Para a PGR, o decreto foi editado fora de sua finalidade jurídica, que é humanitária.

Caso seja mantido, o decreto beneficiará quem cumpria os requisitos em 25 de dezembro do ano passado. Condenados por crimes como corrupção que atendessem às regras, por exemplo, poderiam ser liberados.

nov
29

Jornal do Brasil

 

O Tribunal Regional Federal da 4ª Região julgou hoje (28) apelações da defesa do ex-ministro Antônio Palocci em condenação por corrupção. Por maioria, os desembargadores autorizaram a saída da carceragem para ficar em prisão domiciliar. Contudo, no regime definido pelos magistrados, o réu terá que usar tornozeleira eletrônica.

A Oitava Turma também definiu a redução de pena do ex-ministro. Ele havia sido condenado a 12 anos, dois meses e 20 dias. Mas os desembargadores optaram por diminuir a punição para nove anos e 10 dias. A mudança será comunicada à Vara de Execuções Penais da Justiça Federal em Curitiba para cumprimento.

Palocci foi condenado em 2017 por participação em esquema de corrupção no qual teria beneficiado a Odebrecht em contratos com a Petrobras envolvendo a construção de embarcações. A denúncia que originou o processo foi elaborada no âmbito da Operação Lava Jato. Segundo o Ministério Público Federal, o ex-ministro também teria gerido propinas para o PT, com repasses para outras pessoas, inclusive em contas no exterior.

Palocci foi preso preventivamente ainda em 2016 e ficou detido na carceragem da Polícia Federal em Curitiba. Além dele, o caso envolveu outros 13 réus, entre eles o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, o ex-diretor da Petrobras Renato Duque, os marqueteiros João Santana e Monica Moura e executivos da Odebrecht, entre eles o então presidente, Marcelo Odebrecht.

O julgamento da apelação começou em outubro. Mas o desembargador Leandro Paulsen pediu vistas, e a análise foi retomada hoje.

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Ex-ministro Antonio Palocci (Foto: Agência Brasil)

A decisão levou em consideração a delação premiada celebrada pelo réu com a Polícia Federal e homologada pela Justiça, na qual apresentou informações sobre o caso e esquemas de propina coma Petrobras. O conteúdo da delação foi liberado dias antes da votação do primeiro turno das eleições pelo então juiz da 13ª Vara Federal, Sérgio Moro. Nela, Palocci afirmou que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha conhecimento de corrupção na Petrobras.

 
Cultura

Misto de artes marciais, esporte e dança, a prática deixou de ser ilegal graças a esse baiano, para anos mais tarde ser reconhecida pela Unesco como Patrimônio Imaterial da Humanidade

 Mestre BimbaCrianças jogam capoeira Aris Messinis AFP/Getty Images

Coube a Mestre Bimba preservar os segredos da capoeira, uma atividade considerada ilegal um século atrás por ser associada à marginalidade, e transformá-la numa prática tradicional, com todo o reconhecimento social e cultural do qual hoje desfruta. Não foi fácil para alguém que provinha de uma família humilde e numerosa e que precisou realizar diferentes trabalhos quando jovem para sobreviver, antes de descobrir a capoeira e dedicar toda a sua vida a estudá-la, aperfeiçoá-la recuperando seus valores tradicionais e ensiná-la, fundando a primeira academia do mundo. Desde então é considerado o pai e ícone da capoeira regional. Um Doodle do Google homenageou na sexta-feira, 23, os 119 anos de seu nascimento.

A capoeira, com mais de 500 anos de história, deve a Mestre Bimba que milhões de pessoas em todo o mundo a pratiquem na atualidade, conquistando novos adeptos onde chega, por desenvolver tanto a atividade física como a mental, a coordenação, o ritmo e, obviamente, a disciplina de um código de conduta que ele mesmo implantou.

Desenvolvida por escravos como uma forma de preservar as tradições culturais africanas, a capoeira lhes permitia se manterem ágeis e fortes em meio a um sistema opressor que tratava de anulá-los como indivíduos. A combinação de equilíbrio e flexibilidade com o ritmo e a força da dança, assim como a velocidade e a astúcia da luta, junto com a música, lhe conferem um atrativo que outras atividades não têm.

A palavra capoeira tem diferentes acepções: uma deles provém de uma palavra congolesa que significa dar piruetas e lutar, e que descreve os movimentos de um galo durante uma briga. Apesar de ser censurada e considerada ilegal durante anos, hoje continua viva graças ao impulso de Mestre Bimba, que conseguiu que se tornasse um esporte nacional no Brasil, e ao legado dele que hoje se espalha por todo o mundo.

 

Manoel dos Reis Machado nasceu em Salvador, em 23 de novembro de 1899. Seu nome se perdeu assim que nasceu, já que desde então começou a ser chamado de Bimba. Tudo por causa de uma aposta entre sua mãe e a parteira durante o trabalho de parto: sua mãe apostava que seria uma menina, e a parteira previa um menino. Ao ser entregue à mãe com o primeiro grito, a parteira disse: “É um menino, olhe o bimba dele”.

Bimba trabalhou na adolescência e juventude como garimpeiro, carpinteiro, almoxarife, estivador e até como condutor de charretes para poder sobreviver numa família em que era o caçula de 25 irmãos. Mas, quando descobriu a capoeira, ficou tão seduzido por ela que nunca mais a abandonou. Começou a praticar a variedade conhecida como capoeira Angola, aos 12 anos, graças a um africano chamado Bentinho. Essa variedade foi a que depois ensinaria durante uma década, antes de desenvolver seu próprio estilo, conhecido como tradicional.

Nos anos em que Bimba se aproximou da capoeira, no começo do século passado, ainda era perseguida pelas autoridades, que a associavam a marginais, razão pela qual jogá-la em público acarretava até três meses da prisão. Umas décadas antes, o castigo era receber de 300 açoites e inclusive a deportação.

Quando completou 18 anos, Bimba quis se aprofundar na capoeira e percebeu que ela tinha perdido sua eficácia como arte marcial, preservando-se como mera atividade folclórica. Foi então que decidiu restaurar os valores tradicionais e os movimentos da antiga capoeira, acrescentando passos de um extinto estilo de luta africana chamado batuque, que ele tinha aprendido com seu pai, um reconhecido campeão dessa disciplina. Também acrescentou movimentos criados por ele mesmo, tornando-se a primeira pessoa a desenvolver um método de ensino para facilitar o aprendizado, já que até então a capoeira se aprendia só observando e praticando. Foi assim que Bimba começou o desenvolvimento da capoeira regional.

Bimba, que também começou a ser reconhecido com o título de Mestre, observou que a capoeira precisaria de um código de ética para poder recuperar sua reputação e ser aceita, espalhando-se a outros âmbitos além dos ambientes marginais, que eram os únicos a reconhecerem-na como parte do patrimônio do país. Os praticantes da variedade regional do Mestre Bimba deviam estar sempre apresentáveis, usando uniformes brancos e limpos, com lenços coloridos indicando sua gradação. Também incluiu conjuntos coreografados de movimentos e introduziu projeções e varreduras, o que lhe conferia uma característica que a distingue do outro tipo principal de capoeira do Brasil, o Angola.

Esse código de honra também incluía regras como não fumar nem beber álcool; que as habilidades só deviam ser demonstradas dentro da roda, embora permitindo o elemento surpresa no caso de uma briga real; que durante o treino o capoeirista deveria se centrar na tarefa; praticar ao máximo cada movimento; que o jovens capoeiristas tivessem boas notas na escola…

Mestre Bimba também estabeleceu seus princípios da capoeira como parte do método de ensino. Entre eles: gingar sempre, que significa se manter em constante movimento durante o jogo, já que a ginga é o movimento básico da capoeira; esquivar sempre para evadir os ataques do oponente; manter um ponto fixo no chão, porque os saltos acrobáticos deixam o capoeirista vulnerável; jogar de acordo com o ritmo estabelecido pelo berimbau e respeitar o oponente quando este já não puder se defender de um movimento de ataque.

Mestre Bimba foi capaz de criar várias tradições e rituais relacionados à capoeira para alicerçar sua metodologia de ensino: empregava uma cadeira para o treinamento dos principiantes; também a charanga, que é a orquestra da capoeira, composta por um berimbau e dois pandeiros; o canto (quadras e corridos), canções compostas por Bimba para acompanhar o jogo…

Em 1928, Bimba já era suficientemente respeitado para que pudesse questionar o caráter ilegal da capoeira. Era voz corrente que ele a ensinava e que se preocupava em aprofundar em suas raízes e aperfeiçoá-la.

Depois de uma atuação para o governador Juracy Magalhães no palácio da Aclamação, Mestre Bimba finalmente conseguiu convencer as autoridades sobre o valor cultural da prática, pondo fim à sua proibição oficial na década de 1930. Bimba fundou então, em 1932, a primeira escola de capoeira do mundo, a Academia-Escola de Cultura Regional, em Salvador, embora sem mencionar a palavra capoeira no nome, pois ela continuava sendo vista como uma atividade de marginais. Pouco depois, o ensino da sua capoeira foi reconhecido como educação física pela então Secretaria de Educação, Saúde e Assistência Pública.

A escola virou um lugar onde pessoas de todos os âmbitos da sociedade podiam aprender a arte marcial, o que deu à capoeira um ar de respeitabilidade em todos os estratos sociais do Brasil e mudou sua imagem para sempre. Desde então, milhares de pessoas, de políticos a artistas, passando por empresários e pessoas de todas as idades, se aproximaram da capoeira como uma atividade física e esportiva completa.

Em 1936, Mestre Bimba desafiou os lutadores de qualquer arte marcial a enfrentarem o seu estilo regional. Disputou quatro combates e ganhou todos. Um ano depois, obteve o certificado que o creditava como formador e registrou sua primeira escola. Em 1942 abriu uma segunda academia de capoeira, e em 1946 teve lugar a primeira exibição pública como uma apresentação folclórica brasileira, além de conseguir que a capoeira se tornasse uma atividade econômica rentável, pela qual seus praticantes podiam ganhar dinheiro de forma honesta com sua arte.

Em julho de 1953, Bimba realizou uma demonstração de capoeira para o então presidente Getúlio Vargas, que declarou: “A capoeira é o único esporte verdadeiramente brasileiro”.

Muitas celebridades brasileiras passaram pela escola de Bimba. Depois do chamado batismo, o Mestre começava a ensinar as técnicas mais avançadas, como o floreio e as sequências de defesa pessoal, o que levava a crer que o aprendizado da capoeira era infinito, embora, como ele mesmo dissesse, “os golpes básicos da capoeira são sete, e desses sete se podem realizar outros sete mais, e assim sucessivamente, sendo aceito qualquer movimento do corpo dentro de uma roda, desde que esteja regido pelo som do berimbau e mantenha o ritmo da ginga”.

Apesar do crescimento exponencial da capoeira, nas duas décadas seguintes Bimba se ressentiu da falta de consideração das autoridades baianas e do descumprimento das promessas de manutenção do apoio às suas escolas. Tomou então a decisão, em 1973, de se mudar para Goiânia, aceitando o convite de um antigo aluno. Ali morreu um ano depois, em 15 de fevereiro de 1974, no Hospital das Clínicas, devido a um derrame cerebral após se sentir indisposto, justamente após uma exibição de capoeira. Tinha 74 anos.

Transformado em um dos homens mais significativos na história da capoeira e em uma das pessoas mais influentes na história das artes marciais no Brasil, seu legado se mantém vivo porque conseguiu recuperar os valores originais dessa prática. Para Bimba, a capoeira deveria ser sempre evitada como briga, pois acreditava que era uma luta de cooperação, em que o jogador mais forte era sempre responsável pelo jogador mais fraco.

Depois da sua morte, um de seus filhos, Mestre Nenel (Manoel Nascimento Machado), assumiu, aos 14 anos, a academia de capoeira do seu pai e continua sendo responsável por seu legado cultural e histórico. Atualmente preside a Escola Filhos de Bimba da Capoeira, mas Mestre Bimba é ainda hoje o mestre mais reconhecido de todos, com direito a títulos honoris causa, como o que lhe foi concedido postumamente em 1996 pela Universidade Federal da Bahia.

Em 2014, a Unesco reconheceu a capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, o que a situa de maneira oficial, e em nível mundial, como uma das manifestações populares mais expressivas da cultura brasileira.

nov
29
Posted on 29-11-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 29-11-2018


 

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Deltan Dallagnol: Lava Jato prestes a sofrer maior derrota da história

 

Antevendo a aprovação do indulto de Michel Temer pelo STF, Deltan Dallagnol voltou às redes para alertar: “A Lava Jato está em vias de sofrer a maior derrota de sua história”…

“O presidente Temer ficará livre para indultar quem ele quiser neste ano”, escreveu no Twitter.

Por ora, somente Barroso votou para derrubar o indulto que perdoou corruptos.

Alexandre de Moraes, Celso de Mello, Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski já deram sinais de que vão manter intacto o decreto.

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