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Postado em 12-11-2018
Arquivado em (Artigos) por vitor em 12-11-2018 00:25
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo
 
 

 

“Segundo Sol” foi a pior novela de João Emanuel Carneiro, autor de “A Favorita”, “Cobras e Lagartos”, “Avenida Brasil” e “A Regra do Jogo”. Poderíamos dizer que em se tratando de João Emanuel, foco de altas expectativas, mesmo o pior pode ser melhor que a melhor novela de outros autores. Mas, ainda assim, há um gosto de decepção ao fim do enredo que a Globo encerrou na noite desta sexta.

Com relação à sua antecessora, “O Outro Lado do Paraíso”, de Walcyr Carrasco, tivemos um claro avanço na construção de diálogos, o que não seria muito difícil – o texto anterior era comezinho, primário, abastecido de lugares comuns. Mas a edificação do enredo da vez se mostrou tão frágil, que o saldo final é de uma história repleta de reviravoltas sem conexão, inverossímeis, tão dignas de um dramalhão mexicano quanto “O Outro Lado do Paraíso”.

Ao fim do primeiro mês e pouco de “Segundo Sol”, vibrei aqui neste espaço com a capacidade de João Emanuel em conduzir sua narrativa adiante, sem rodar em círculos, queimando cartuchos diários em cena. Enganei-me profundamente. Ao cabo da revelação pública de que o ídolo morto estava vivo, tudo começou a girar em looping, tornando a novela enfadonha em seus últimos dois meses.

A fraqueza de Rosa, no momento em que Letícia Colin parecia se tornar a grande protagonista da novela, foi um ato de coragem do autor. Quando toda a plateia via nela a heroína que salvaria Luzia (Giovanna Antonelli) das maldades de Laureta (Adriana Esteves) e Karola (Deborah Secco), a menina se vendeu para o lado mau da força e sua torcida se esvaziou. Naturalmente, era preciso que ela não esgotasse os recursos de uma história que ainda tinha tantos capítulos a honrar, ou então, acabaríamos ali mesmo com a novela.

Desafiar o público, sem entregar-lhe o prato pronto, como pede a preguiça do ser humano, seria o mais fácil a fazer, mas João Emanuel escapou disso no caso de Rosa, e apenas de Rosa. A condução dada à personagem, a partir dali, no entanto, não valorizou essa dualidade na medida aceitável, permitindo que ela usufruísse da boa vida e enganasse o pobre Valentim (Danilo Mesquita) à vontade. Faltou oscilação nessa índole. De um minuto para o outro, a consciência da moça despertou, como se houvesse passado boa parte do folhetim em transe, e retomasse o caráter inicial que conhecemos.

A dualidade, aliás, item que norteou a última novela de João, “A Regra do Jogo”, com nuances geniais nos personagens, está em baixa nas novelas. Todo aquele discurso dos autores do gênero, de que ninguém é completamente bom ou completamente mau o tempo todo, e que isso torna os personagens mais humanos, blá-blá-bá, é balela hoje nos folhetins. Isso vem perdendo força desde que as tramas bíblicas da Record estabeleceram bons patamares de audiência, de “Os Dez Mandamentos” para cá. “A Regra do Jogo” só teve chance de quebrar esses códigos porque já estava em andamento naquele momento, mas é preciso dizer que Glória Perez se saiu muito melhor que Walcyr e João nas tintas emprestadas aos personagens de “A Força do Querer”, com destaque para Eugênio (Dan Stulbach) e Bibi (Juliana Paes), personagens muito bem construídos em seus paradoxos.

De modo geral, a verdade é que o maniqueísmo voltou a dar as caras nas novelas sem vergonha de sua condição e de uma maneira que trabalha com muito mais eficiência a sedução imediata da plateia. Com exceção de fenômenos, assim chamados por aliarem qualidade e quantidade de audiência, isso tem se expressado nos bons índices de audiência das últimas novelas. Mas “Segundo Sol”, com todo o empenho por isso, fecha seu balanço com saldo inferior a “Outro lado” e “A Força do Querer”.

Até por isso, a Globo tem reservado às séries, exibidas mais tarde, com público mais seleto, a arte de fazer o telespectador pensar e se inquietar na poltrona, até descobrir quem de fato presta e quem não presta, quem merece perdão e quem vai para o purgatório, quem é digno ou não de uma segunda chance, o chamado “Segundo Sol”, como prometia o título da produção agora finita.

Do ponto de vista comercial, esse recuo é perfeitamente compreensível. Já no quesito artístico, só resta lamentar ou buscar outras opções de entretenimento.

O beijo gay também retrocedeu. Ao longo da trama, Selma (Carol Fazu) e Maura (Nanda Costa) trocaram um ou outro selinho, quase num flash. No último capítulo, o beijo que prometia parecer mais que um tocar de lábios foi bruscamente cortado para outra cena. Após tanta demonstração de afeto quase assexuado entre as duas, a imagem passou longe da libido que tomou Félix (Mateus Solano) e Nicolas (Tiago Fragoso) em “Amor à Vida” (2014).

A direção, sob o comando de Dennis Carvalho como chefe maior, e Maria de Médicis na direção geral, também ficou aquém das novelas que Carneiro fez para a faixa nobre. O vazamento da imagem daquele contrarregras num barco no primeiro capítulo não seria um descuido excepcional.

As sequências de perseguição, de modo geral, foram risíveis. Lembro aqui da cilada em que Manu (Luísa Arraes) caiu, quando foi entregar um carregamento de drogas em local ermo, sem saber que a polícia estava avisada e o delegado do mal, escalado para matá-la. A locação já foi de uma infelicidade latente. A mata era suficientemente aberta para que os algozes da menina a avistassem e a atingissem sem dificuldade. Quando a edição mostrava o plano da perseguição, fugitiva e policiais eram vistos a poucos metros de distância, num plano que nem desenho animado faria de modo tão primário.

Outras cenas de perseguição, a partir da casa de Januária, a curandeira que fez o parto de Luzia, foram pelo mesmo caminho. Num casebre perdido no meio do nada, cercado de mata e água, policiais chegavam pela frente do terreno, enquanto fugitivos corriam pelo outro lado. Se fosse pega pega entre crianças, a brincadeira acabaria em dois minutos.

A malemolência baiana, bem como suas cores, trilha sonora, alegria e alegoria (aliás, deliciosamente bem representados nas vinhetas e na abertura), regado ao bom sotaque local, tudo isso deu a “Segundo Sol” uma moldura altamente sedutora. O elenco endossou esse conjunto, sempre disposto a acreditar, mais que o público, em cada linha de um enredo que após o capítulo 100, ficou a correr atrás do próprio rabo, como cachorro perturbado.

A exceção foi justamente a mocinha-mor, Giovanna Antonelli, que por várias vezes pareceu jogar a cena fora, sem o devido entusiasmo. Chegou uma altura em que Luzia proferia o seu texto já sem surpresa sobre a sucessão de acontecimentos de que fora vítima, como se a atriz tivesse se cansado daquela odisseia bem antes que o texto destinado à personagem a autorizasse.

Emílio Dantas, que se repetiu no elenco central de horário nobre com apenas uma novela de diferença (lembrando de Rubinho, de “A Força do Querer”), sai de “Segundo Sol” maior do que entrou.

Adriana Esteves sagrou de novo sua grandeza, ao se distanciar de Carminha, mesmo sendo má muito má. Seu desfecho, desde a prisão, igualou-a a alguns políticos da vida real, a começar pelas regalias usufruídas no cárcere, bem ao modo Sérgio Cabral, e endossou o destino parlamentar ao livrá-la das grades para se candidatar a cargo eletivo, sob a plataforma do prazer, seu grande negócio.

Letícia Colin, aqui já mencionada, é outra que salta para novo patamar, com merecimento de sobra.

E viva Fabíula Nascimento, que sempre me fazia crer que todos ali estavam de fato em Salvador o tempo todo, e não nos estúdios de Curicica, no Rio, onde a maioria dos capítulos foi gravada. Cacau, é bom que se diga, nos remete ainda a uma salva de palmas à turma do figurino, impecável no bom gosto de quem aposta na simplicidade, com absoluta elegância.

No mais, convém destacar Caco Ciocler, Fabrício Boliveira, Armando Babaiof, Kelzy Ecard (a dona Nice), Roberto Bomfim, Nanda Costa, Cláudia di Mauro (a Zefa) e a própria Deborah Secco, que teve em Karola sua melhor performance como atriz até hoje – embora eu ainda aguarde por um diretor que consiga extrair tudo aquilo dela, sem que seus olhos estejam permanentemente arregalados, quase congelados na expressividade.

Ponto favorável ainda para a trama de dona Nice e Agenor, ao explorar um machismo que vai muito além da questão de costumes e causa mal ao seu redor.

Em suma, “Segundo Sol” valeu por elementos diversos, aqui e ali, mas decepcionou na coesão desses retalhos.

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