Do Jornal do Brasil

Laranjeiras é bairro sui generis da Zona Sul. É lá que fica o sofisticado Palácio Laranjeiras, adquirido da família Guinle, em 1947, pela União e, desde 1975, residência oficial do governador do Estado do Rio — cujo futuro ocupante do cargo, Wilson Witzel, ainda hesita em assumir como sua. Sedia o tradicional Fluminense Football Club, além do Palácio Guanabara, antiga residência da princesa Isabel; o Batalhão de Operações Especiais (Bope); e a comunidade do Pereirão. Tanto ecletismo, porém, redunda em um fato incontestável: o caráter libertário do bairro, que votou maciçamente em Fernando Haddad (PT), com preferência de 51,13% dos eleitores. Se dependesse de Laranjeiras, tinha dado Eduardo Paes (DEM) na cabeça, com 70,87% dos eleitores, contra 29,13% para Witzel (PSL). E, no primeiro turno, o governadordo Rio seria Tarcísio Motta (PSOL), o campeão de votos no bairro.

Essas características vieram à tona no domingo passado, quando saiu o resultado do segundo turno das eleições 2018. O professor de história Felipe Velloso, 32 anos, também assessor parlamentar de Tarcísio Motta, passou sua vida em Laranjeiras e mudou-se há um ano para a Tijuca. “Fui para uma casa, que me permitiu ter cachorro. Mas minha porta é cheia de adesivos e lá as pessoas arrancam. Já penso em voltar para Laranjeiras, é mais acolhedor”, diz. Desde 2012, ele tem acompanhado os resultados das eleições na Praça São Salvador e esse ano não foi diferente. “É um reduto da esquerda, devia ter mais de mil pessoas esperando o resultado, com bandeiras, chorinho e samba. Havia também uns 15 eleitores de Bolsonaro tirando onda com camisas amarelas. Após as 19h, eles começaram a soltar fogos e um deles veio cair na praça”, lembra.

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A Praça “Vermelha”, São Salvador, palco de rodas de choro e reduto das esquerdas no Rio, que ficou lotada no domingo passado, durante a apuração de votos das eleições (Foto: Marcos Tristão)

Velloso admite que pode ter sido mera coincidência. “Não há como controlar fogos, e logo começou uma confusão, com gritaria e garrafas voando. Me aproximei para tentar apartar e uma garrafa veio parar na minha cara e me feriu”, conta ele, que acabou hospitalizado e levou três pontos. O professor tenta explicar o perfil do bairro, lembra que o PSOL sempre foi muito ativo por lá e lutou pela construção da ciclovia, entre outras batalhas. “Outra explicação é que a maior parte das escolas progressistas da cidade estão no bairro, como, por exemplo, o São Vicente e a Éden”, cita.

O professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (Irid), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Pedro Claudio Bocayuva, mais conhecido como Cunca, lotado no Núcleo de Estudos de Direitos Humanos, não apenas morou no bairro na juventude, como estudou no São Vicente, onde foi professor de história de 1975 a 1979, em plena ditadura. “Entrei no São Vicente com um grupo em busca de um ‘colégio diferente’. Entre eles, o cineasta Bruno Barreto. Era um ambiente favorável, que tinha um lado progressista e uma boa aprovação no vestibular. Não usávamos uniforme e podíamos tomar lanche na padaria na hora do recreio”, recorda.

Em 1973, o então aluno Cunca atuou com o método Paulo Freire de educação popular nas favelas, organizou um festival de cinema, onde passou filmes de Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade, e tinha 21 anos ao ser chamado para substituir o professor de história Marçal Versiani. “Não era só uma questão de esquerda entre os professores, Marçal era mais laico; Moacyr Góes, mais ligado à esquerda cristã; e Clóvis Dottori tinha o rigor da geografia. Não havia, entretanto, qualquer tipo de recrutamento, era um ambiente de qualidade, que reunia pessoas bem diferentes, todos naquele mesmo ethos. Carter [Jimmy Carter, presidente democrata dos Estados Unidos] entrava em cena, houve a Revolução do Cravos, em Portugal, em 1974, a anistia, em 1979”, lembra.

Para o arquiteto e urbanista Carlos Fernando Andrade, as migrações que ocorreram na cidade podem ajudar na compreensão do que se passa em Laranjeiras. “As famílias mais libertárias moravam em Ipanema e Leblon, e muitas delas, das classes mais altas, foram expulsas pelos altos preços para a Barra da Tijuca. Os mais pobres optaram por outros bairros da Zona Oeste. Já os casais mais jovens, de menor poder aquisitivo, com filhos pequenos, buscaram lugares como Laranjeiras, onde também há casas disponíveis. A alta burguesia do próprio bairro participou da Marcha por Deus, pela Família e pela Liberdade, em 1964, enquanto seus filhos foram para a universidade e se engajaram à esquerda e na reação à ditadura”, descreve.

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O Palácio Guanabara, adquirido pela Princesa Isabel e o Conde D’Eu, adquirido dos filhos de Domingo Rozo, que loteraram a chácara do pai no Segundo Império (Foto: Marcos Tristão)

A também arquiteta Patrícia Monteiro, da UFRJ, estudiosa do espaço público, define o bairro como um lugar com qualidade de vida, acesso à infraestrutura, aos transportes, à vida cultural e às mazelas que assolam o resto da cidade. “Os moradores são habituados a conviver com as diferenças de forma pacífica. Há muitos artistas e pessoas de nível superior que se encontram no espaço público, sobretudo na engarrafada Rua das Laranjeiras e no comércio efervescente do Largo do Machado”, observa.

Não custa lembrar que o bairro sediou uma primeira reação comunitária nos tempos sombrios da ditadura, com o nascimento de uma das primeiras associações de moradores da cidade em torno das Casas Casadas, exemplar único de residência unifamiliar do século 19, tombado em 1979, em resposta à luta para que não fosse abaixo. A prefeitura acaba de anunciar, por sinal, a abertura de uma licitação para instalar ali cinemas, livraria e um restaurante.

Explicações históricas

O melhor diagnóstico para compreender o perfil do bairro, contudo, vem do historiador Nireu Cavalcanti, desde de 1974, também morador de Laranjeiras. A explicação para o presente começa pelo passado. Nos tempos do império, os nobres e a classe rica possuíam três tipos de propriedade: os grandes sobrados do Centro; as chácaras como casas de campo;e a casa rural, onde ficava a produção agrícola e ocorriam as grandes festas e as caçadas. Laranjeiras ficava nessa segunda categoria.

“A Câmara dos Vereadores praticamente doava essas grandes chácaras aos ricos, para promover a ocupação da cidade, conforme lei da época. Um deles foi Domingo Rozo. Durante o Segundo Império, os príncipes recebiam mesada, suspensa quando se casavam. No caso da princesa Isabel, essa suspensão tornou-se o dote quando se casou com o Conde D’Eu. A essas alturas, os filhos de Rozo lotearam a propriedade do pai, onde, com o tal dote, o casal adquiriu o Palácio Guanabara. Com a chegada dos nobres, a Câmara correu para pavimentar caminhos até o imóvel, alvo também da primeira linha de bondes da cidade, que saía do Centro, fazia escala em Laranjeiras e seguia até o Cosme Velho”, relata.

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As Casas Casadas, tombadas após mobilização de moradores (Foto: Marcos Tristão)

Uma das celebridades que escolheram o bairro para morar foi Machado de Assis (1839-1908), primeiro na rua de mesmo nome, depois no Cosme Velho, que, assim como o Catete, só se tornou um bairro separado de Laranjeiras no século 19. Laranjeiras protagonizou o início da especulação imobiliária na cidade, a partir dos proprietários e herdeiros das chácaras, únicas terras passíveis de ser comercializadas e vendidas por eles a preços de ouro, apesar de terem obtido a posse das mesmas por valores irrisórios.

Outra mudança definitiva foi a chegada da maior fábrica de tecidos do país, a Aliança, em 1880, instalada na Rua General Glicério. “Em torno da fábrica havia mais de 250 casas, muitas delas habitadas por italianos e portugueses, sobretudo da região dos Açores. Vem daí o núcleo de açorianos na Rua Cardoso Júnior”, conta Cavalcanti. Com o fechamento da fábrica, em 1939, chegaram à bucólica e silenciosa Laranjeiras professores, intelectuais, artistas e profissionais liberais, atraídos pela proximidade com o Centro. E houve o boom imobiliário do século 20, com destaque para o grande loteamento da Rua Pires de Almeida.

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O grafite de Cássia Eller, que morreu em um hospital do bairro, em 29 de dezembro de 2001 (Foto: Marcos Tristão)

Nesse contexto, a tradição política começou a surgir com o comitê suprapartidário Mário Covas, em oposição a Luiz Inácio Lula da Silva e Leonel Brizola, nas eleições de 1989, o qual era presidido por Nireu Cavalcanti. “Nascia ali uma esquerda que se desinteressava do PCB, por conta da invasão de Praga, e não se vinculou ao discurso raivoso do PT ou ao PDT. Grande parte foi para o PSB”, informa. E com o racha do PT, em junho de 2017, após o impeachment de Dilma Roussef e o fracassonas eleições municipais, as esquerdas tomaram outro rumo. “Foram para o PSOL e a Rede”, aponta o historiador.

Outro reduto progressista do bairro fica na Rua General Glicério, no chorinho e na feira livre dos sábados, cheia de artesãos. Entre eles, o grupo de mulheres do Linhas do Rio, liderado pela designer Maria Eugênia de Castro Barros, que começou com seis participantes e, hoje, soma mais de 60. Elas tecem bordados com símbolos da resistência democrática, oferecidos gratuitamente em sua barraca. “Um movimento desse tipo só poderia dar frutos num bairro como Laranjeiras”, pondera Maria Eugênia.“O bairro desenvolveu uma profunda cultura política de discussões e debates”, resume a arquiteta Cárin D’Ornellas, ativa participante da Associação de Moradores de Laranjeiras (AMAL).

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