Do Jornal do Brasil

Laranjeiras é bairro sui generis da Zona Sul. É lá que fica o sofisticado Palácio Laranjeiras, adquirido da família Guinle, em 1947, pela União e, desde 1975, residência oficial do governador do Estado do Rio — cujo futuro ocupante do cargo, Wilson Witzel, ainda hesita em assumir como sua. Sedia o tradicional Fluminense Football Club, além do Palácio Guanabara, antiga residência da princesa Isabel; o Batalhão de Operações Especiais (Bope); e a comunidade do Pereirão. Tanto ecletismo, porém, redunda em um fato incontestável: o caráter libertário do bairro, que votou maciçamente em Fernando Haddad (PT), com preferência de 51,13% dos eleitores. Se dependesse de Laranjeiras, tinha dado Eduardo Paes (DEM) na cabeça, com 70,87% dos eleitores, contra 29,13% para Witzel (PSL). E, no primeiro turno, o governadordo Rio seria Tarcísio Motta (PSOL), o campeão de votos no bairro.

Essas características vieram à tona no domingo passado, quando saiu o resultado do segundo turno das eleições 2018. O professor de história Felipe Velloso, 32 anos, também assessor parlamentar de Tarcísio Motta, passou sua vida em Laranjeiras e mudou-se há um ano para a Tijuca. “Fui para uma casa, que me permitiu ter cachorro. Mas minha porta é cheia de adesivos e lá as pessoas arrancam. Já penso em voltar para Laranjeiras, é mais acolhedor”, diz. Desde 2012, ele tem acompanhado os resultados das eleições na Praça São Salvador e esse ano não foi diferente. “É um reduto da esquerda, devia ter mais de mil pessoas esperando o resultado, com bandeiras, chorinho e samba. Havia também uns 15 eleitores de Bolsonaro tirando onda com camisas amarelas. Após as 19h, eles começaram a soltar fogos e um deles veio cair na praça”, lembra.

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A Praça “Vermelha”, São Salvador, palco de rodas de choro e reduto das esquerdas no Rio, que ficou lotada no domingo passado, durante a apuração de votos das eleições (Foto: Marcos Tristão)

Velloso admite que pode ter sido mera coincidência. “Não há como controlar fogos, e logo começou uma confusão, com gritaria e garrafas voando. Me aproximei para tentar apartar e uma garrafa veio parar na minha cara e me feriu”, conta ele, que acabou hospitalizado e levou três pontos. O professor tenta explicar o perfil do bairro, lembra que o PSOL sempre foi muito ativo por lá e lutou pela construção da ciclovia, entre outras batalhas. “Outra explicação é que a maior parte das escolas progressistas da cidade estão no bairro, como, por exemplo, o São Vicente e a Éden”, cita.

O professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (Irid), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Pedro Claudio Bocayuva, mais conhecido como Cunca, lotado no Núcleo de Estudos de Direitos Humanos, não apenas morou no bairro na juventude, como estudou no São Vicente, onde foi professor de história de 1975 a 1979, em plena ditadura. “Entrei no São Vicente com um grupo em busca de um ‘colégio diferente’. Entre eles, o cineasta Bruno Barreto. Era um ambiente favorável, que tinha um lado progressista e uma boa aprovação no vestibular. Não usávamos uniforme e podíamos tomar lanche na padaria na hora do recreio”, recorda.

Em 1973, o então aluno Cunca atuou com o método Paulo Freire de educação popular nas favelas, organizou um festival de cinema, onde passou filmes de Glauber Rocha e Joaquim Pedro de Andrade, e tinha 21 anos ao ser chamado para substituir o professor de história Marçal Versiani. “Não era só uma questão de esquerda entre os professores, Marçal era mais laico; Moacyr Góes, mais ligado à esquerda cristã; e Clóvis Dottori tinha o rigor da geografia. Não havia, entretanto, qualquer tipo de recrutamento, era um ambiente de qualidade, que reunia pessoas bem diferentes, todos naquele mesmo ethos. Carter [Jimmy Carter, presidente democrata dos Estados Unidos] entrava em cena, houve a Revolução do Cravos, em Portugal, em 1974, a anistia, em 1979”, lembra.

Para o arquiteto e urbanista Carlos Fernando Andrade, as migrações que ocorreram na cidade podem ajudar na compreensão do que se passa em Laranjeiras. “As famílias mais libertárias moravam em Ipanema e Leblon, e muitas delas, das classes mais altas, foram expulsas pelos altos preços para a Barra da Tijuca. Os mais pobres optaram por outros bairros da Zona Oeste. Já os casais mais jovens, de menor poder aquisitivo, com filhos pequenos, buscaram lugares como Laranjeiras, onde também há casas disponíveis. A alta burguesia do próprio bairro participou da Marcha por Deus, pela Família e pela Liberdade, em 1964, enquanto seus filhos foram para a universidade e se engajaram à esquerda e na reação à ditadura”, descreve.

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O Palácio Guanabara, adquirido pela Princesa Isabel e o Conde D’Eu, adquirido dos filhos de Domingo Rozo, que loteraram a chácara do pai no Segundo Império (Foto: Marcos Tristão)

A também arquiteta Patrícia Monteiro, da UFRJ, estudiosa do espaço público, define o bairro como um lugar com qualidade de vida, acesso à infraestrutura, aos transportes, à vida cultural e às mazelas que assolam o resto da cidade. “Os moradores são habituados a conviver com as diferenças de forma pacífica. Há muitos artistas e pessoas de nível superior que se encontram no espaço público, sobretudo na engarrafada Rua das Laranjeiras e no comércio efervescente do Largo do Machado”, observa.

Não custa lembrar que o bairro sediou uma primeira reação comunitária nos tempos sombrios da ditadura, com o nascimento de uma das primeiras associações de moradores da cidade em torno das Casas Casadas, exemplar único de residência unifamiliar do século 19, tombado em 1979, em resposta à luta para que não fosse abaixo. A prefeitura acaba de anunciar, por sinal, a abertura de uma licitação para instalar ali cinemas, livraria e um restaurante.

Explicações históricas

O melhor diagnóstico para compreender o perfil do bairro, contudo, vem do historiador Nireu Cavalcanti, desde de 1974, também morador de Laranjeiras. A explicação para o presente começa pelo passado. Nos tempos do império, os nobres e a classe rica possuíam três tipos de propriedade: os grandes sobrados do Centro; as chácaras como casas de campo;e a casa rural, onde ficava a produção agrícola e ocorriam as grandes festas e as caçadas. Laranjeiras ficava nessa segunda categoria.

“A Câmara dos Vereadores praticamente doava essas grandes chácaras aos ricos, para promover a ocupação da cidade, conforme lei da época. Um deles foi Domingo Rozo. Durante o Segundo Império, os príncipes recebiam mesada, suspensa quando se casavam. No caso da princesa Isabel, essa suspensão tornou-se o dote quando se casou com o Conde D’Eu. A essas alturas, os filhos de Rozo lotearam a propriedade do pai, onde, com o tal dote, o casal adquiriu o Palácio Guanabara. Com a chegada dos nobres, a Câmara correu para pavimentar caminhos até o imóvel, alvo também da primeira linha de bondes da cidade, que saía do Centro, fazia escala em Laranjeiras e seguia até o Cosme Velho”, relata.

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As Casas Casadas, tombadas após mobilização de moradores (Foto: Marcos Tristão)

Uma das celebridades que escolheram o bairro para morar foi Machado de Assis (1839-1908), primeiro na rua de mesmo nome, depois no Cosme Velho, que, assim como o Catete, só se tornou um bairro separado de Laranjeiras no século 19. Laranjeiras protagonizou o início da especulação imobiliária na cidade, a partir dos proprietários e herdeiros das chácaras, únicas terras passíveis de ser comercializadas e vendidas por eles a preços de ouro, apesar de terem obtido a posse das mesmas por valores irrisórios.

Outra mudança definitiva foi a chegada da maior fábrica de tecidos do país, a Aliança, em 1880, instalada na Rua General Glicério. “Em torno da fábrica havia mais de 250 casas, muitas delas habitadas por italianos e portugueses, sobretudo da região dos Açores. Vem daí o núcleo de açorianos na Rua Cardoso Júnior”, conta Cavalcanti. Com o fechamento da fábrica, em 1939, chegaram à bucólica e silenciosa Laranjeiras professores, intelectuais, artistas e profissionais liberais, atraídos pela proximidade com o Centro. E houve o boom imobiliário do século 20, com destaque para o grande loteamento da Rua Pires de Almeida.

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O grafite de Cássia Eller, que morreu em um hospital do bairro, em 29 de dezembro de 2001 (Foto: Marcos Tristão)

Nesse contexto, a tradição política começou a surgir com o comitê suprapartidário Mário Covas, em oposição a Luiz Inácio Lula da Silva e Leonel Brizola, nas eleições de 1989, o qual era presidido por Nireu Cavalcanti. “Nascia ali uma esquerda que se desinteressava do PCB, por conta da invasão de Praga, e não se vinculou ao discurso raivoso do PT ou ao PDT. Grande parte foi para o PSB”, informa. E com o racha do PT, em junho de 2017, após o impeachment de Dilma Roussef e o fracassonas eleições municipais, as esquerdas tomaram outro rumo. “Foram para o PSOL e a Rede”, aponta o historiador.

Outro reduto progressista do bairro fica na Rua General Glicério, no chorinho e na feira livre dos sábados, cheia de artesãos. Entre eles, o grupo de mulheres do Linhas do Rio, liderado pela designer Maria Eugênia de Castro Barros, que começou com seis participantes e, hoje, soma mais de 60. Elas tecem bordados com símbolos da resistência democrática, oferecidos gratuitamente em sua barraca. “Um movimento desse tipo só poderia dar frutos num bairro como Laranjeiras”, pondera Maria Eugênia.“O bairro desenvolveu uma profunda cultura política de discussões e debates”, resume a arquiteta Cárin D’Ornellas, ativa participante da Associação de Moradores de Laranjeiras (AMAL).

“Es tan dificil”, Bola de Nieve: um mago do piano, da voz e da interpretação da música cubana em uma de suas mais raras gravações. Um presente do BP aos seus ouvintes e leitores para começar a semana.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

Do Jornal do Brasil

 

Bolsonaro participa de culto evangélico na manhã deste domingo

 

  O presidente eleito Jair Bolsonaro participou, neste domingo (4), de um culto na Igreja Batista Atitude, no Recreio, zona oeste do Rio. Bolsonaro estava acompanhado da mulher Michele.

O presidente eleito deixou sua residência, na Barra da Tijuca pouco antes das 11h e seguiu em um comboio com escolta de policiais federais e de batedores da Polícia Militar.

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Jair Bolsonaro participa de culto na Igreja Batista Atitude (Foto: José Lucena/AE)

Ao sair do condomínio onde mora, na Avenida Lúcio Costa, Bolsonaro foi aplaudido e ovacionado com gritos de pessoas que o chamavam de mito.

Durante o culto, o presidente eleito escolheu os provérbios 4 de 25 a 26 para definir a escolha da sua equipe de governo.” Ninguém faz nada sozinho como tenho dito. Olhe o que Israel não tem e veja o que eles são. Olhe o que Brasil tem e veja o que nós não somos. O problema foi identificado, lá atrás, há 4 anos, quando decidi disputar a Presidência, sem recursos, sem partidos, sem tempo de televisão, com parte da mídia contrária às nossas propostas, mas< se isso aconteceu no último domingo 28), só tem uma explicação: foi Deus que decidiu.”

“Presidente de todos”

Jair Bolsonaro acrescentou que a possibilidade de sua vitória não foi identificada na campanha. “Nenhum cientista político conseguiu fazer explicar que aquele velho garoto que tinha o apelido de palmito teria chegado onde chegou.”

O presidente eleito agradeceu a maioria dos presentes pelo apoio, a consideração, as orações e a confiança que recebeu. Concordando com o pastor Josué Valandro Jr, afirmou que, a partir de janeiro, será o presidente de todos no Brasil.

“Queremos sim, e, usando agora meu lado militar, seguir os passos de Caxias, o Pacificador. Mas, com a alma livre, tendo Deus acima tudo, buscarmos atender a todos que necessitam. Tenho certeza que, dessa forma, atingiremos o objetivo que não é meu, mas de todos nós.”

Bolsonaro voltou a citar o salmo “ E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” e foi aplaudido. “Muito obrigado a todos e que as orações continuem. Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”, concluiu.

Depois da mensagem no palco do salão de orações, o presidente eleito e a mulher Michele voltaram para uma cadeira na plateia, de onde acompanharam a mensagem do pastor que está à frente da Igreja há 15 anos.

nov
05
Onyx Lorenzoni (D),futuro ministro da Casa Civil, se encontra com Eliseu Padilha, o atual titular da pasta, na última quarta-feira.
Onyx Lorenzoni (D),futuro ministro da Casa Civil, se encontra com Eliseu Padilha, o atual titular da pasta, na última quarta-feira. Evaristo Sá AFP

Tudo indicava que Onyx Lorenzoni (Porto Alegre, 1954) seria escolhido o líder do Democratas na Câmara dos Deputados para o ano de 2015. Havia uma regra informal de rodízio entre os líderes e o gaúcho, com a experiência de quem então iniciava o seu quarto mandato consecutivo, considerava que tinha o posto garantido para si. Acabou derrotado depois de uma articulação de bastidores do então líder Mendonça Filho, que conseguiu vencer o correligionário e ser reeleito com 16 dos 21 votos. Foi uma traição para Lorenzoni, que à época acusou seu colega de quebrar o acordo de revezamento.

Começava ali um distanciamento entre o deputado e o seu partido que o deixaria escanteado na Câmara pelo restante do seu mandato. Mas isso não quer dizer que ele tenha ficado imóvel nesse tempo. Pelo contrário. Lorenzoni foi um dos primeiros a perceber a força das redes sociais como canal de comunicação direto com o eleitor e diagnosticou que os protestos de rua pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff pavimentavam o caminho para uma candidatura ao Palácio do Planalto de direita, sintonizada com esses movimentos. Isso fez com que, a partir de 2017, ele entrasse de cabeça no projeto presidencial de outro deputado que literalmente “falava sozinho” pelos corredores do Congresso Nacional. Era Jair Bolsonaro, eleito presidente da República com 55% dos votos válidos nas eleições de 28 de outubro. Terminado o pleito, Lorenzoni foi indicado como o futuro titular da Casa Civil, o órgão responsável por coordenar o trabalho dos demais ministérios e que também deve acumular as negociações do Executivo com o Legislativos. Os tempos de isolamento ficaram para trás: não há hoje em Brasília um deputado tão procurado quanto ele.

Lorenzoni viajou à capital federal nesta semana para se encontrar com o atual ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, e dar início à transição de governo. Na quinta-feira, passou a manhã no seu pequeno gabinete no oitavo andar de um dos anexos da Câmara, onde recebeu uma verdadeira romaria de parlamentares. Passaram por ali a presidenta da Frente Parlamentar Agropecuária, Tereza Cristina, e o senador eleito Luis Carlos Heinze, ambos expoentes da bancada ruralista. Também foram cumprimentar o novo todo poderoso da Esplanada os deputados Leonardo Quintão (MDB), Osmar Serraglio (PP) e Danilo Forte (PSDB), que não conseguiram se reeleger. Ao saírem, tanto Heinze quanto Forte disseram que esperam que seus partidos apoiem o governo Bolsonaro no Congresso.

Médico veterinário de formação, Lorenzoni será um dos três superministros de Bolsonaro —os outros dois são Paulo Guedes, o guru da área econômica, e Sergio Moro, da turbinada pasta da Justiça. Entre as atribuições do deputado, está a montagem de uma base parlamentar para o capitão reformado do Exército no Congresso Nacional, principalmente na Câmara. O presidente eleito sinalizou que pretende buscar esse apoio nas frentes temáticas, principalmente na que fincou conhecida como bancada BBB (Bíblia, boi e bala), numa sinalização aos seus eleitores de que pretende abandonar o característico toma lá, dá cá que marca o modelo de presidencialismo de coalizão no Brasil.

É aí que começam os problemas que Lorenzoni terá de contornar. Embora o Congresso Nacional que emergiu das urnas tenha um perfil eminentemente conservador, são poucos os que acreditam que o novo governante do País conseguirá construi uma base de sustentação no Legislativo apenas pelas tratativas diretas com as frentes temáticas. A bancada BBB pode ter números superlativos, mas, ao contrário dos partidos políticos, não tem como punir eventuais dissidentes. 

“Partidariamente não tem tido nenhum tipo de discussão porque parece que ele [Bolsonaro] não quer fazer escolhas via partidos. É um novo modelo e, se isso vai dar certo, só o tempo vai dizer”, afirma o senador Ciro Nogueira, presidente nacional do PP, que elegeu a terceira maior bancada na Câmara. “Não é fácil, porque quem conduz a bancada é a liderança partidária. Acho muito difícil ele conseguir no varejo um apoio para temas polêmicos, em especial a Previdência.”

Com 16 anos nas costas só na Câmara dos Deputados, Lorenzoni sabe que dificilmente conseguirá escapar dos acordos com as cúpulas dos partidos políticos, que costumam envolver o loteamento da máquina pública em troca da ajuda dos parlamentares para aprovar projetos de interesse do Palácio do Planalto. Um dirigente de uma legenda que deve apoiar Bolsonaro avaliou ao EL PAÍS que, embora a redução do número de ministérios —fala-se em 15 pastas na Esplanada, frente às 29 que existem hoje— possa passar a imagem de uma administração menos política, as demandas dos deputados por espaços nos cargos do chamado segundo escalão devem continuar as mesmas. “Acho que vai compor igual aos outros governos. Pode ser que o partido não fique com o ministério, mas vai contemplar os parlamentares [em estatais e órgãos reguladores]. Tudo igual”, diz.

A força que o capitão reformado do Exército terá no Parlamento também passa pelas eleições, em fevereiro, das presidências da Câmara e do Senado. Na primeira, a disputa promete reacender um velho embate já vivido pelo deputado gaúcho. No início dos anos Michel Temer, o deputado gaúcho e o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, estiveram em lados opostos no debate sobre a adesão ou não do Democratas ao governo do emedebista. Maia, que defendia a entrada do DEM no governo Temer, saiu vitorioso e está no seu segundo mandato à frente da Casa, posto que espera manter. Lorenzoni não esconde de seus interlocutores que, no que depender dele, Maia não terá êxito.

Ainda não está claro se os antigos ressentimentos desencadearão numa disputa aberta entre o novo chefe da Casa Civil e o atual presidente da Câmara. O próprio Bolsonaro sinalizou que, em nome da governabilidade, quer adotar o caminho que lhe garanta uma posição mais confortável na Casa. Disse, por exemplo, que o seu partido, o PSL, não deve pleitear o posto.

Numa transição com vários superministros, também já houve atritos entre Lorenzoni e o futuro titular da Economia, Paulo Guedes. O parlamentar havia afirmado que o projeto de reforma da Previdência de Temer não deveria ser aproveitado, na contramão do que dissera Guedes. O guru econômico de Bolsonaro desautorizou o aliado. “É um político falando de economia. É a mesma coisa do que eu sair falando de política. Não dá certo, né?”, disparou Guedes. Nesta quinta, Lorenzoni tentou minimizar a primeira canelada entre membros do governo eleito. “Está tudo na paz do senhor. Paulo Guedes é meu ídolo”, disse ao jornal O Estado de S. Paulo.

Caixa dois

Entre a sua derrota para a liderança do Democratas em 2015 e a meteórica ascensão de Bolsonaro, Lorenzoni tinha visibilidade em Brasília principalmente por ter sido o relator das Dez medidas contra a corrupção, pacote de medidas encampado pelo Ministério Público para combater malfeitos no setor público. O deputado considerou que o seu relatório foi “desfigurado” por seus colegas na votação final da proposta na Câmara. Essas declarações deixaram-no ainda mais escanteado na Casa.

Sua atuação como paladino contra os crimes de colarinho branco não impediram que ele mesmo se visse envolvido em casos de corrupção. Sua reação às acusações, no entanto, foi incomum: após uma delação, Lorenzoni admitiu ter recebido 100.000 reais do conglomerado JBS como caixa dois para a sua campanha. Pediu desculpas aos eleitores e se colocou à disposição para ser investigado – o caso visto como crime grave por seu futuro colega de gabinete, Moro, acabou arquivado no Supremo Tribunal Federal. Ao menos os eleitores gaúchos parecem ter aceitado o pedido de desculpas: Lorenzoni foi o segundo mais votado do Estado, com 183.518 eleitores.

Ricardo Musse, em seu escritório em São Paulo.
Ricardo Musse, em seu escritório em São Paulo. GUI GOMES

Quando o Partido dos Trabalhadores (PT) foi criado, em fevereiro de 1980, Ricardo Musse (Goiás, 1959), naquela época um estudante, assinou o seu manifesto de fundação, um documento no qual a agremiação prometia se converter na primeira grande legenda de esquerda no Brasil e combater a desigualdade. Desde então, Musse não deixou de seguir, da universidade, a trajetória do PT. Viu como chegaram a governar o Brasil a partir de 2003, durante uma época de bonança espetacular (cuja responsabilidade os petistas arrogam para si), e também assistiu ao período seguinte, de lamentável dacadência e crise econômica (cuja responsabilidade eles negam). Agora, a sigla se encontra no pior annus horribilis da sua história: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi preso por corrupção em abril, seu substituto perdeu as eleições presidenciais deste ano, e o tremendo ódio ao PT contribuiu para o alarmante auge do ultraconservador Jair Bolsonaro. 

Musse, hoje professor de Sociologia na Universidade de São Paulo e especialista no estudo das sociedades capitalistas, recorda o que sobrou daquela agremiação inicial, como ela pode sobreviver ao trauma de 2018 e o que esperar do partido no futuro.

Resposta. A oposição social ao PT sempre foi muito forte e ódio ao partido já era comum a todos os setores da vida política. Bolsonaro soube o capitalizar [isso] muito bem. Deu forma ao sentimento, o vinculou à rejeição ao sistema político, à indignação e à corrupção. Da parte do PT, houve uma dificuldade em agir. Estava desde 2002 bem embrenhado no sistema político e ao mesmo tempo abandonado por seus aliados e por apoios no meio empresarial, sobretudo entre setores industriais do agronegócio e o setor bancário. Viu-se muito isolado.

P. A oposição significa uma oportunidade de se fortalecer novamente?

R. O PT se fortaleceu fazendo oposição ao governo Temer. Quando houve o impeachment da [ex-presidenta] Dilma, o Lula tinha o 16% dos votos nas pesquisas para o presidente. Agora, na última pesquisa, ele tinha 39%. Isso foi o resultado da oposição. Agora, dependendo de quão autoritário seja o governo de Bolsonaro, haverá uma situação similar aos anos 80 e 90: haverá uma oposição política nos modos do que foi feita no governo Temer, mas também haverá uma resistência social. Pode crescer mais.

P. E a onda atual de antipestimo? Onde fica neste contexto?

R. Haverá movimentos não só no sentido de criminalizar o PT como a Lava Jato fez, mas no sentido de excluir o PT do sistema político. De bani-lo. E essa é uma questão que se coloca como central. Supondo a manutenção da normalidade democrática e as eleições em 2022, o que não é muito garantido.

P. A candidatura de Lula valeu a pena? Não teria sido melhor perder sem ele?

R. A esquerda brasileira mudou pouco nos últimos anos: possui entre 20% e 30% dos votos. Sem Lula, esse seria o limite do PT. Corria o risco de não ir para o segundo turno. O lulismo é mais amplo que a esquerda, é mais amplo que o PT. Então para a esquerda chegar ao poder, a referência ao Lula é imprescindível. O problema é que o Haddad não herdou todos os votos do Lula, mas herdou quase integralmente a rejeição dele, que é muito forte entre a classe média.

P. A presença do Lula se converteu em algo tóxico?

R. O PT sem Lula viraria o PSOL, uma força sólida, mas muito minoritária. Já disse: o lulismo é maior do que o petismo. Agora, o Lula, por continuar preso e incomunicável, poderia parar de ser tão visível. Mas o PT não vai se desvincular do legado do Lula. É o que levou ao Haddad ao segundo turno.

P. Por que o PT manteve os seus velhos discursos enquanto o Bolsonaro chegava mais longe sendo o porta-voz do antipetismo?

R. É voltar ao tamanho do partido. O PT se tornou um partido popular, representante dos setores trabalhadores, certas frações da pequena burguesia, mas sobretudo das massas desorganizadas e dos setores mais pobres da sociedade. Qualquer movimento, tanto um giro à esquerda clássica quanto um giro à centro-esquerda, pode ser fatal. Então a tendência é que o PT faça os dois movimentos simultaneamente. São contraditórios, mas o PT sempre fez.

P. O PT deveria ter respondido às acusações de corrupção?

R. O modo como PT tratou a questão da corrupção foi duplo. Primeiro utilizou como discurso o fato de que todos esses instrumentos que permitiram a combate à corrupção foram implementados pelos governos do PT. Mas esse é um discurso formal que não encampa toda o assunto porque é também uma questão de conteúdo. O discurso que não é assumido explicitamente pelo partido é que o PT praticou o caixa 2 nas eleições, porque é algo inerente ao sistema político brasileiro.

P. O que quer dizer?

R. Todos os partidos se valem de caixa 2 nas eleições. É uma exigência quase estrutural. Sem caixa 2 ninguém consegue ganhar a eleição. A quantidade de recursos que se mobiliza é acima do que é permitido por lei. As leis são muito restritivas em relação às doações. Sempre foram. Isso é um fato que a população não aceita, e que a própria mídia condena e que todos são obrigados a dizer que não usam. Mas a política no Brasil não pode ser feita com estas restrições.

P. Isso encaixa as acusações de corrupção em um contexto?

R. Os partidos populares no Brasil, e o PT é um partido popular, sempre foram combatidos por conta da corrupção. Foi pela acusação de corrupção que Getulio Vargas foi forçado a se suicidar em 1954. O então presidente brasileiro respondeu às tremendas pressões, frutos de uma crise política provocada por seus adversários políticos, com um disparo contra o seu próprio peito. E foi a corrupção que foi usada para justificar o golpe do 1964. É uma política quase circular dos setores representantes das classes dominantes, dos setores que defendem diretamente interesses empresariais. Sempre fez parte do jogo eleitoral.

nov
05
Posted on 05-11-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 05-11-2018


 

Clayton, NO DIÁRIO

 

PT condena plano de Bolsonaro de extinguir ‘TV Lula’

 

Em seu perfil oficial no Twitter, o PT condenou a proposta de Jair Bolsonaro de extinguir a TV Brasil, conhecida também como “TV do Lula”.

“Senadores do PT condenam proposta de Bolsonaro de privatizar ou extinguir a TV Brasil.

Essa é mais uma ação de Bolsonaro inclusa no pacote de entrega do patrimônio do povo brasileiro”.

O PT é traço de bom senso.

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