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Postado em 04-11-2018
Arquivado em (Artigos) por vitor em 04-11-2018 00:29
Jair Bolsonaro acena para apoiadores em uma praia no Rio, no dia 31 de outubro.
Jair Bolsonaro acena para apoiadores em uma praia no Rio, no dia 31 de outubro. Leo Correa AP

Há quatro anos, Dilma Rousseff recém havia sido reeleita. Na Argentina, Cristina Kirchner governava. O Brasil havia realizado a Copa de 2014, uma festa que acabou quando a seleção alemã desclassificou a local por um humilhante 7 a 1. Nessa época, a torcida argentina viajou maciçamente ao Brasil. Em cada estádio, podiam ser vistas milhares de camisetas alvicelestes. E em algum momento, todos os infiltrados cantavam juntos: “Brasil, me diga o que você sente, ter seu pai em casa…”, com música do Creedence. Esse refrão, depois da catástrofe da seleção de Neymar, machucava muito. Por isso os brasileiros comemoraram o título conquistado pela Alemanha, seu algoz. Qualquer coisa era melhor que uma vitória argentina.

Para falar a verdade, em poucas coisas a Argentina tem o direito de sentir que tem o Brasil como filho. No futebolístico, o Brasil tem cinco Copas do Mundo contra duas da Argentina. No econômico, o Brasil há tempos deixou a Argentina para trás, que há um século estava entre uma das potências do planeta. As praias brasileiras são mais quentes e belas e por isso, quando o dólar está barato, lá se fala mais espanhol do que português. Nos anos noventa a Argentina teve um neoliberalismo dogmático e destrutivo. O Brasil desses anos foi mais pragmático e moderado. Quando a direção do vento mudou, o Brasil escolheu Lula como líder, um operário irrepreensível. A Argentina, por sua vez, elegeu os Kirchner, um casal de milionários que havia sido cúmplice em desmandos anteriores.

Mas algo mudou.

Nos últimos tempos, o PIB brasileiro caiu 8%, a crise da insegurança aumentou como nunca. O processo político se perverteu, uma ex-presidenta foi derrubada, o político mais popular foi preso e, por fim, se tornou vitorioso um candidato de ultradireita pródigo em agressões contra homossexuais, dissidentes, mulheres, negros, jornalistas, que chegou a sugerir que fecharia o Congresso. A vitória de Bolsonaro deixou a Argentina perplexa: é como se o irmão mais velho enlouquecesse. A pergunta central é: o irmão mais novo será contaminado?

A preocupação é legítima por várias razões. A primeira é o surgimento em áreas centrais do debate público de discursos que eram marginais. Já existem políticos que postulam a expulsão de imigrantes e se queixam porque “os heterossexuais são discriminados”. No domingo passado, milhares de pessoas se manifestaram contra a inclusão da educação sexual nas escolas. Várias delas levavam cartazes antissemitas, algo que não se via há décadas em Buenos Aires. O ódio ao jornalismo independente, manifestado por Bolsonaro, também encontra terra fértil pelo discurso kirchnerista.

A segunda razão para se preocupar é econômica. Bolsonaro anunciou um plano de ajuste muito severo ao Brasil, com o objetivo de eliminar o déficit fiscal. Em curto prazo, os efeitos desses planos são profundamente recessivos. O Brasil é um destino vital às exportações industriais argentinas, que serão afetadas seriamente. E a Argentina precisa desesperadamente dos dólares dessas exportações. Como se não fosse o bastante, o ministro designado, Paulo Guedes, anunciou que o Mercosul deixará de ser prioridade, uma aliança alfandegária que permitia à Argentina o acesso privilegiado ao enorme mercado vizinho.

Mas o mais preocupante é que a Argentina, como o Brasil, vive um processo econômico de muita incerteza e empobrecimento. Os líderes locais se odeiam entre si e há anos falam cobras e lagartos uns dos outros. Como nenhum deles resolveu os problemas dos argentinos, é lógico que gerem muito mais repúdio do que aprovação. Dessa forma, o país pode embarcar em qualquer aventura.

O mundo se surpreendeu com fenômenos tão diversos como o triunfo de Donald Trump, o Brexit, a chegada ao poder da ultradireita italiana, o crescimento de partidos da mesma vertente na França, Alemanha e Suécia e, agora, a irrupção de Bolsonaro. Ninguém está vacinado contra tudo isso, muito menos um país tão instável como a Argentina.

Por agora, o mapa da América Latina mudou. Os Governos de direita moderada e ultradireita dominam os países mais poderosos. A exceção é a Venezuela, uma ditadura clássica com retórica de esquerda que gerou uma crise política e social inédita.

Os melhores sonhos se despedaçaram, em grande parte, por culpa dos que os encarnaram…

Os piores pesadelos surgem.

Talvez seja melhor falar de futebol. Apesar de tudo, Messi continua sendo melhor do que Neymar. Ou algum brasileiro discorda?

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