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PARA ALÉM DA DIALÉTICA DA MESMICE

Antonio Risério

“Temos hoje um novo quadro – um novo campo de jogo e de forças – no horizonte da vida política brasileira.

Não tenho maiores dúvidas de que vamos caminhar (e já começam a aparecer os primeiros sinais disso) para uma acomodação geral nos amplos espaços da democracia. Os mais extremistas e incendiários – sectarismos infantis à esquerda e à direita – irão espernear. Tudo bem, desde que jamais ultrapassem signos e marcos da constitucionalidade.

Como sublinha o cientista político Paulo Fábio Dantas Neto,vamos respeitar sem meias palavras a vontade da maioria – para poder dizer, a esta mesma maioria, que ela decidiu sobre os poderes Executivo e Legislativo, igualmente legítimos. Mas que nem ela, maioria, nem os poderes do governo são soberanos. O soberano somos nós. Todos nós. Juntos: na diversidade, no dissenso, no respeito às regras do jogo.

É aqui que se desenha um novo projeto. Temos de construir uma oposição real e profunda ao futuro governo, sem a cretinice da negação de tudo a qualquer custo. E deixando para trás os extremos que polarizaram tão agressiva e rasteiramente o processo eleitoral. Deixar para trás esses extremos que, na verdade, são o espelho um do outro. Vale dizer, segundo a expressão do sociólogo José de Souza Martins: temos de entrar em campo para superar a “dialética da mesmice”.

E não temos tempo a perder. Tudo terá de ser antecipado. Não haverá hora do recreio, tempo para férias ou feriados. Reformas constitucionais estão aí à nossa frente. É preciso começar já. Uma nova oposição terá de dar sinal de vida logo. E terá de dizer – com clareza – a que veio. Vamos então colocar nossas fichas. Mobilizar nossas melhores e mais fortes energias.

O que se coloca para nós agora, portanto, é a construção imediata – a tessitura cuidadosa, mas rápida – de um movimento (quem sabe, um partido) de centro-esquerda novo e contemporâneo. Um movimento verdadeiramente centrado no campo da socialdemocracia. Um movimento democrático ecossocial: no Congresso, na mídia, nas redes, no dia a dia de todos.

Ou, para falar em termos ainda bem gerais, um movimento de oposição essencial e convictamente democrático, que defenda ideias liberais em economia (mas apontando para uma reinvenção do mercado), que se mostre firme na defesa dos direitos civis, com empenho total na dimensão ecológica de nossa existência e consciente da necessidade de reduzir a desigualdade social através principalmente do ensino básico gratuito de qualidade (a única forma de assegurar igualdade de oportunidades a todos) e de uma rede de proteção aos miseráveis e idosos.

A fusão de PPS, Rede e PV (na linha do que tem falado um Eduardo Jorge) pode vir a ser um passo primeiro e fundamental. Mas é preciso trazer para este campo magnético os focos genuínos da socialdemocracia que ainda resistem (minoritários) no PSB e no PSDB. Tentar trazer também, para este processo construtivo, os raros verdadeiros democratas que insistem em tentar sobreviver no MDB. E em outros movimentos e instâncias da sociedade.

O que significa que estamos prontos para o diálogo fecundo com – e estendemos as mãos ao – centro político, espaço fundamental da práxis política brasileira onde, como bem lembrou Luiz Werneck Vianna, vicejaram as figuras de Juscelino Kubitschek e João Goulart, personalidades hoje históricas de nossa peripécia democrática.

Ou seja: devemos nos sentir nacionalmente convocados, sem demora, para a instauração de um “modus vivendi” convivial, contribuindo para pacificar o ambiente político nacional – e para apagar de uma vez por todas a perversão maniqueísta do “nós x eles”, verdadeira “herança maldita” do lulopetismo.

Por isso mesmo, a exceção aqui é o PT. Sabemos que o partido caminha progressivamente para sua falência final, mas não somos dos que pregam o seu fim. Longe disso. O que afirmamos é que um partido autoritário, corrupto e destrutivo, prostrado aos pés de um autoungido “salvador da pátria”, tem de ser destronado – derrotado em sua arrogância, em sua pretensão hegemônica no campo democrático, mesmo porque, muitas vezes, PT e democracia são uma contradição em termos.

Além disso, historicamente, o PT nunca foi partido de aceitar projetos conjuntos, capazes de aglutinar uma oposição responsável. Hoje, derrotado nas urnas, ressentido, virá ainda mais raivoso e sectário. Logo, não há como ter, entre nós, um partido que só pensa em subjugar todos aos seus desígnios tantas vezes desastrosos. Um partido que agora, com sua sede patológica de poder, vai procurar briga o tempo todo, num confronto sistemático desde o primeiro dia do novo governo. Um partido que quer a desgraça do Brasil nos próximos quatro anos, numa luta desesperada para tentar conseguir voltar ao Planalto em 2022. E isso, decididamente, é de uma insensatez absoluta.

O que desejamos – e começamos a batalhar desde já para trazer da luz do sonho para a luz do sol – é uma nova disposição política, um novo ânimo democrático. É que passos, gestos e discursos, configurando um movimento de oposição, talvez também prefigure uma nova agremiação partidária, que aceite natural e tranquilamente a diversidade e a divergência.

Com isso, podemos visar uma estrela de três pontas. Numa delas, a configuração de uma oposição clara e consistente (vale dizer, privilegiando ideias/projetos e não vociferações populistas) ao governo recém-eleito. Em outra, a quebra da guia (como se diz no candomblé) do PT, detonando seu projeto de ser o centro hegemônico/ditatorial da esquerda. E ainda em outra, “last but not least”, a construção de uma alternativa de poder, no caminho do aprofundamento da democracia política e social no Brasil.”

Tudo isso chega a ser demasiado óbvio. Novo, em nossa atual conjuntura ou momento histórico-político, será dar esse passo urgente e necessário ao viver democrático nacional brasileiro.

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Comentários

Vanderlei on 31 outubro, 2018 at 15:44 #

Muito bom artigo. Gostei do cenário mostrado pelo articulista quanto ao futuro, bem como salientando a atuação do PT. O partido que é contra o Brasil e a favor só dele, o partido, e mais ainda do dono, o prisioneiro Lula.


Daniel on 31 outubro, 2018 at 18:24 #

Recomendo artigo de deputado federal eleito pelo estado de São Paulo, Luiz Philippe de Orleans e Bragança. Tenho certeza de que trata-se de uma das mentes mais lúcidas do Brasil atual. E sua presença no Congresso só tem a engrandecer aquele espaço.

http://lpbraganca.com.br/o-presidencialismo-e-a-centralizacao-do-poder-da-democracia-de-massa/


Lucia Jacobina on 2 novembro, 2018 at 9:41 #

Um brinde, Risério, ao discernimento e ao estilo!


Lucas Ribeiro on 5 novembro, 2018 at 16:04 #

Análise precisa do senhor Risério : o PT acabou !!! Teve 44% dos votos , elegeu a maior bancada na câmara, o maior número de governadores e ganhou na maioria dos municípios do país!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!Um brinde, Risério, ao discernimento e ao estilo!


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