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CRÔNICA

Vida que segue

 

Janio Ferreira Soares

 

Manhã de quinta-feira, 11 de outubro, três dias após a confirmação de um recorrente pesadelo que me atormentou durante um bom tempo e que agora virou realidade, onde eu me via na antessala do inferno com uma crise de hemorroidas daquelas e tinha como únicas opções escolher entre ser atendido pelo Dr. Belzebu (um médico militar que opera sem anestesia pelo simples prazer de ver seu paciente berrar de dor) ou pelo Dr. Lúcifer (um proctologista que age sob o comando de um esperto mestre mamulengueiro pernambucano, que o usa como se fora uma espécie de fantoche laparoscópico à distância), ambos, diga-se, formados na Faculdade de Medicina do Purgatório.

Mas como eu ia dizendo, manhã nascendo admiravelmente bela quando vejo sobre a barragem há anos sem abrir comportas um enorme caminhão vermelho passando e fico em dúvida se ele é da Coca-Cola, da Budweiser ou do Corpo de Bombeiros indo apagar algum incêndio na velha caatinga ora despida de ramagens e arrogâncias. Para esclarecer, pego a enferrujada luneta cansada de mirar o lado claro da lua e direciono-a até o grosso concreto, mas um ponto amarronzado no meio da água me chama a atenção e me faz mudar o rumo do foco. Não demora e a lente captura dois homens numa pequena canoa se aproximando de uma rede de pesca amarrada em garrafas PET que, na delas, apenas balançam e faíscam os primeiros raios que já chegam sádicos, tipo o saudoso zagueiro tricolor Roberto Rebouças quando se apresentava a desavisados centroavantes mostrando as travas da chuteira, como se dizendo: “o prazer será todo meu!”.

Prevendo um bom passatempo antes da labuta, me ajeito na única cadeira de balanço que dialoga com minha coluna e escolho qual olho me colocará no meio deles e qual permanecerá fechado, alimentando assim a ilusão de tê-los próximos. O mais velho, aparentando uns 60 e poucos é quem comanda o remo, enquanto o mais jovem, com uma lata na mão, puxa a água que penetra por alguma fresta onde o pinche que emenda o casco relaxou e a devolve ao rio. Em seguida, sem trocar palavras ou gestos, eles pegam a ponta da rede e começam a puxá-la pra dentro da canoa e dou um toque no zoom pra ver se identifico alguns tucunarés ou corvinas, mas os fungos e arranhões da lente me impedem de distingui-los de pacus e traíras, ultimamente em grande maioria por aqui.

Serviço concluído, a pseudoproximidade é tanta que dá vontade de puxar assunto sobre o segundo turno, mas eles começam a remar e logo somem por trás da Ilha do Paiol. De volta ao mundo real, bandos de garças passam voando, bodes berram bem longe e sons de lâminas de um arado remoem um terreno vizinho numa prova de que, apesar da ameaça dos endiabrados doutores e do mestre mamulengueiro, a vida segue em frente.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beira baiana do Rio São Francisco

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