Hora de voto

Fernando Henrique Cardoso

Cidadãos fazem fila para votar na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Cidadãos fazem fila para votar na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro. Ricardo Borges AP

A fragmentação partidária, os sentimentos exaltados e o personalismo triunfante não respondem às necessidades do povo e do país. Na vida política não basta ter ou imaginar que se tem razão: é preciso que a mensagem seja sentida pelas pessoas e que elas escutem e queiram avançar na direção proposta. Até agora o caminho das reformas e do equilíbrio não parece ser o preferido pela maioria. O eleitorado decidirá hoje os adversários que se enfrentarão no segundo turno. Ainda é tempo de parar a marcha da insensatez. Uma coisa é certa: o eleito ao final de outubro terá de obedecer à Constituição e tanto os que nele votaram como os que a ele se opuseram, respeitar o resultado das urnas.

O que está em jogo não é o partido tal ou qual, nem se o candidato é bom ou mau ser humano. Mas sim: o que pretende e poderá fazer? Terá capacidade de juntar pessoas e forças políticas para governar? Dará rumo à nação? Concordo com o que ele propõe e avalio que será capaz de fazê-lo? Para responder é preciso analisar o quadro político, social e econômico em que o novo presidente irá operar. Não se trata de escolher o candidato apenas por seus atributos pessoais nem pelo que dizem os partidos (os quais em geral silenciam sobre os verdadeiros problemas), mas principalmente pelo que o candidato já fez e pela sua capacidade política.

Depois de 2013 os governos do PT levaram a economia à recessão. Como disse na carta que escrevi recentemente aos eleitores, há problemas gritantes no país: a desorganização das finanças públicas e o desemprego são sinais deles. A rigidez dos privilégios burocráticos dificulta cortar os gastos com o funcionalismo. As desigualdades gritantes da Previdência, em especial entre alguns servidores públicos e trabalhadores do setor privado, criam castas de beneficiários, muitos do quais se aposentam cedo com proventos muito acima do que seria justo receberem.

Diante destas e de outras despesas obrigatórias o Governo Federal acumulou nos últimos cinco anos déficits de 540 bilhões. O que havia sido um superávit de cerca de 3% do PIB desde 1999, algo maquiado a partir do segundo governo Lula, se tornou um déficit de mais de 2% do PIB a partir de 2015, graças ao descalabro fiscal e ao desastre econômico produzido pelo governo Dilma. Acrescidos das despesas com juros, a sequência de déficits primários fez a dívida pública do governo federal se aproximar de R$ 4 trilhões e a do Estado brasileiro em seu conjunto superar os R$ 5 trilhões este ano. A dívida total, já perto de 80% do PIB, continua a subir, a despeito da queda da taxa básica de juros nos dois últimos anos. No ritmo de crescimento que a dívida vem apresentando —ela se situava pouco acima de 50% do PIB em 2011— chegará um momento em que só com inflação alta, que corrói o valor real da despesa do governo, o Estado brasileiro poderá se financiar. O roteiro desse filme todos os que têm mais de cinquenta anos conhecem muito bem. E ele termina mal, com o empobrecimento do país e, sobretudo, das pessoas socialmente mais vulneráveis. Voltaríamos assim a um passado tenebroso, sobretudo para os mais pobres.

O agravamento da crise seria dramático para uma sociedade desigual e fragilizada por cinco anos de recessão seguida de recuperação econômica anêmica. O desemprego atinge entre 12 e 13% da população ativa, cerca de 13 milhões de pessoas. Sem falar nos que estão ocupados, mas sem carteira de trabalho, cerca de 38 milhões, e afora os chamados “desalentados”, que desistiram de procurar emprego. A soma ultrapassa os 60 milhões de adultos que estão ou correm o risco de cair na pobreza ou na extrema pobreza.

Ao desemprego somam-se o medo da violência crescente, em alguns casos da própria polícia, e a expansão do crime organizado. A sensação de desordem, a insegurança e a agonia do desemprego é a realidade cotidiana de dezenas de milhões de pessoas. Para muitas não resta opção que não seja aderir ou acomodar-se ao crime organizado ou encontrar consolo espiritual e solidariedade nas igrejas.

Como falar de “democracia” nestas circunstâncias, se falta o pão e a segurança é precária? Por trás está um sistema político regado a corrupção e uma cultura de permissão e leniência com quem atua, no andar de cima, à margem das leis. O povo vê nos partidos e nos candidatos mais ligados a eles os responsáveis por tudo isso. Procuradores e juízes, frequentemente com razão, mas não raro sem o zelo e o equilíbrio que se espera dos profissionais do direito, reforçam a sensação de que toda a política é suja e nenhum político escapa à podridão.

Quase todos os candidatos, especialmente os que aparecem à frente, nem sequer abordam com seriedade os problemas reais que estão por trás do mal-estar das pessoas. Estas, no desespero, agarram-se a aparentes soluções polares, mais por identificação simbólica que por adesão racional. Sentem medo, quando não horror, da volta ao lulo-petismo e aderem ao candidato que promete tudo resolver no grito, quando não na bala, ou, no polo oposto, juntam-se em torno da nostalgia de um passado idealizado que, se tentar se repetir, comprometerá gravemente o futuro do país.

Mais do que nunca, é preciso insistir em nossos valores, a democracia entre os principais. Além de valores, quem pede o voto do povo deve ser capaz, no mínimo, de reorganizar as finanças públicas e colocá-las a serviço dos maiores interesses da população e do país. É por isso que votarei em Alckmin: ele não apenas diz, mas fez. Basta comparar os resultados das políticas públicas de seus governos, inclusive na segurança e na oferta de serviços de saúde e educação, com as situações dramáticas de alguns outros estados e do governo federal. Entre os principais candidatos é quem pode juntar forças para dar rumo novo ao governo. É preciso parar a marcha da insensatez. Ainda há tempo. A hora é agora.

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Comentários

rosane santana on 10 outubro, 2018 at 23:34 #

Um cínico, agora apregoando o respeito às regras do jogo, condição básica da democracia, segundo estudiosos da teoria democrática, como Robert Dhal, porque essa discussão ganhou relevo na opinião pública internacional, depois do livro “Como as democrcias morrem”, dos professores Steven Levitsky e Daniel Ziblat, da Universidade de Harvar. Afinal, foi o PSDB que deflagrou a campanha do impeachment de Dilma, com o questionamento dos resultados eleitorais de 2014, no TSE, sob liderança de Aécio Neves, seu pupilo à época. Agora ele quer limpar a biografia pessoal, que ele próprio emporcalhou.


rosane santana on 10 outubro, 2018 at 23:35 #

correção: Universidade de Harvard


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