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09
 
 
 
São Paulo

 

O incontrolável avanço do populismo de extrema direita está prestes a incluir um novo sócio no poder. O claro triunfo de Jair Bolsonaro (PSL) no primeiro turno das eleições brasileiras, com 46% dos votos, contra 29,2% de Fernando Haddad (PT), exigirá uma reviravolta inesperada nas próximas três semanas para evitar que o maior país da América Latina, o quinto mais populoso do mundo, seja governado por um político autoritário e retrógrado. Uma espiral que parece não ter freio e que, apesar das peculiaridades de cada país, guarda muitas semelhanças entre si.

Eduardo Bolsonaro e o ex-estrategista de Trump, Steve Bannon.
Eduardo Bolsonaro e o ex-estrategista de Trump, Steve Bannon.

A história de Bolsonaro é a história da vitória de Donald Trump; do Brexit; da rejeição ao processo de paz da Colômbia; do triunfo do ultradireitista Matteo Salvini e do populista Movimento 5 Estrelas na Itália; da consolidação de Marine Le Pen na França. A história de que as emoções, especialmente o medo e o ódio, mobilizam mais que qualquer programa político. A do difundido cansaço com as classes dirigentes, que, no caso da Europa, são consideradas responsáveis pela crise econômica e pela deterioração da qualidade de vida de amplos setores da sociedade, e, no caso da América Latina, acusadas de corroer as instituições, aproveitando-se delas para corromper. A tal ponto que a mera promessa de combatê-las pesa mais que o fato de o responsável por esse combate ser um partidário da ditadura militar, machista, racista e homofóbico.

Infalível de novo, a estratégia que o radical brasileiro seguiu se assemelha muito a dos casos anteriores: um uso da linguagem tosca a custo zero; contínuas críticas aos meios de comunicação tradicionais, enquanto constrói os seus próprios e faz um uso incomparável das redes sociais para obter seus fins. Em todos os casos, prima um componente nacionalista e um culto à personalidade que supera o de seus rivais. Como Trump na campanha, Bolsonaro também se valeu de seus filhos como porta-vozes. Um deles, no começo da corrida presidencial, manteve um encontro com Steve Bannon, ex-estrategista de Trump. Não há provas de que haja um plano coordenado em nível mundial, mas sim de que eles se retroalimentam e se aproveitam da onda ultraconservadora. “Brasil também muda! Esquerda derrota e ar fresco!”, escreveu Salvini, vice-presidente do Governo italiano, no Twitter para comemorar os resultados do primeiro turno.

O mais que provável triunfo de Bolsonaro não terá uma repercussão apenas no Brasil. Coloca a América Latina, onde o autoritarismo campeia na Venezuela e Nicarágua e caminha pela Guatemala, para citar o exemplo mais recente, à beira dos dias mais incertos de sua história recente. Além disso, insufla uma dose de adrenalina ao avanço da ultradireita mundial, uma vitória das elites mais conservadoras – os mercados brasileiros receberam com confete e serpentina os resultados de domingo –, que optam por esconder o perigo de personagens como Bolsonaro sob o guarda-chuva de que é preciso levá-los a sério, mas nem tanto. Que, definitivamente, o que ele diz são bravatas, e que não governará desse jeito.

O país encara agora três semanas decisivas, mergulhado numa polarização que obrigará os dois aspirantes a convencerem os eleitores a optarem pelo que rejeitaram até agora. No caso de Bolsonaro, é a pergunta do milhão: como vai se deslocar para o centro se o fato de ser um radical de extrema direita o levou aonde teoricamente não deveria ter chegado? Compensa para ele esse esforço, quando é rejeitado por 44% do eleitorado? Enquanto isso, Haddad, previsivelmente, atirará contra ele tudo o que tiver à mão, todas as armas da velha política, que o PT tão bem domina, ou dominava. A tradicional agremiação da esquerda brasileira aprofundará os ataques ao militar reformado, a quem esgrime seu histórico de declarações contra os direitos humanos e a quem acusa de querer fazer o país retroceder 40 anos.

O desgaste do PT

Mas Bolsonaro tem a seu favor que nada disto é novidade, nem o freou até agora. Ele parece protegido de qualquer ataque. E, ao mesmo tempo, o antipetismo, um sentimento que se sabia grande, mas não a esse ponto, serve-lhe como um combustível inextinguível. Se há 10 dias mais de 59% dos eleitores do militar eram antipetistas declarados, resta-lhe agora seduzir o desencantado centro, que acaba de ficar órfão: ele talvez não seja o candidato perfeito, mas, para parte desse setor, “pelo menos não é o PT”.

Consideravelmente maior é o desafio que espera Haddad. Agora mais do que nunca, deve ganhar os votos reservados a Lula, mas ao mesmo tempo se livrar da longa sombra de seu mentor para conquistar pelo menos parte do eleitorado não petista. Sua única esperança de derrotar Bolsonaro é unificar esses dois lados, confrontados há anos, e se tornar o candidato do centro, justamente onde reina o antipetismo e onde é maior a tentação de passar para o lado de Bolsonaro. Para isso, tem a cartada de se apresentar neste segundo turno como um democrata maior que seu rival. E que as pessoas, desta vez, acreditem nisso.

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