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Postado em 30-09-2018
Arquivado em (Artigos) por vitor em 30-09-2018 01:16

 

 

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CRÔNICA

 

 Sonhos, juventude e fé

Janio Ferreira Soares

 

Em 15 de janeiro de 1985 eu estava no primeiro Rock in Rio com um copo de Malt 90 nas mãos quando Cazuza, segurando a bandeira brasileira, cantou Pro Dia Nascer Feliz e disse: “que o dia nasça feliz pra todo mundo amanhã!”. Ele se referia, claro, à eleição de Tancredo Neves ocorrida horas antes em Brasília, fato que me encheu de esperança de finalmente conhecer essa tal democracia, que durante 20 anos, coitada, viveu presa e amordaçada nos porões da ditadura, sendo forçada a ouvir Dom e Ravel cantando Obrigado ao Homem do Campo e Eu Te Amo Meu Brasil, cuja introdução é um rufar de tambores seguido de uma voz com timbre militar, ordenando: “escola, marche!” (saravá, pé de pato, mangalô, três vezes!).

Pois bem, findo o festival, me dirigi a um orelhão e liguei pra casa avisando que estava vivo e que iria ficar mais uns dias por aquelas bandas aproveitando uma inigualável sensação de sentar num botequim, pedir um chope e ficar observando uma República novinha em folha balançando os quadris a caminho do mar. Mas aí, faltando um dia pra sua posse, o mineirinho gente boa foi internado às pressas no Hospital de Base de Brasília e o resto da história, que eu pensava conhecer, está contada nos mínimos detalhes no ótimo O Paciente, filme de Sérgio Rezende em cartaz nos cinemas, onde, certamente em homenagem a esse cenário infernal que se apresenta para o segundo turno, também estão sendo exibidos O Predador e Meu Malvado Favorito 2. Ui!

Misturando imagens reais com ficção, é possível ver como o País parou para acompanhar uma espantosa sucessão de erros e mentiras de doutores mais preocupados com suas vaidades do que com a verdade dos fatos, numa época onde as notícias ainda corriam via telex. Eu, por exemplo, dormia com um radinho de pilha ao lado do travesseiro ouvindo repórteres sendo induzidos a dizer que em breve ele estaria bom e tomaria posse, o que me fez ficar mais de um mês acreditando que em pouco tempo teria de volta Minas, Milton e os girassóis da cor de seu cabelo, pra no fim receber nas fuças um Sarney e seus maribondos de fogo voando sobre babaçus da cor da peruca de Alcione.

Falando em Milton, quando no fim do filme sua voz explode nos primeiros versos de Coração de Estudante, dizendo: “quero falar de uma coisa, advinha onde ela anda?”, deu vontade de levantar no cinema quase vazio e dizer que ela estava no peito de cada um dos velhos amigos que andavam comigo num Gurgel Carajás lotado de sonhos, juventude e fé, num tempo em que os dias nasciam mais felizes, sim, e a vida, ah!, a vida era muito mais do que ridículas discussões por um poste ou um desequilibrado mental que, pra sorte de quem o venera e azar de quem o teme, não caiu no bisturi de um discípulo do Dr. Pinotti.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beira do Rio São Francisco

 

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