DO JORNAL DO BRASIL

Coisas da Política

Tereza Cruvinel

Desafio de pacificar

Nos dias que precederam o impeachment da ex-presidente Dilma, justificando a medida que lhe presentearia com o governo, a pretexto de punir corriqueiras pedaladas fiscais, o presidente Temer fez pregação correta que não teria capacidade de cumprir. “Alguém precisar ser capaz de pacificar e reunificar o país”. Se ela não foi, ele, muito menos. Mas já não importa, porque será de todos, e sobretudo do futuro presidente, o desafio de pacificar um pais que, tal como indicado pelo atentado contra o candidato Bolsonaro, segue marchando para a radicalização e a cisão, vizinhas da barbárie.
O tom moderador prevaleceu nas últimas horas mas ainda que a fervura da campana baixe, as brasas continuarão ardendo sob as cinzas, a divisão que os candidatos expressam continuará existindo no interior da sociedade, os rios de ódio continuarão correndo, se não forem contidos na fonte. Para o próximo presidente, pacificar o país será uma tarefa tão importante como a superação da crise fiscal e da estagnação da economia, com todas as suas consequências, como o desemprego, a queda na renda e a precarização de serviços públicos essenciais, como saúde e educação.
Do hospital, Bolsonaro recomendou moderação aos dirigentes da campanha e que transmitam seu pedido à militância. Pediu um tom mais ameno nos comentários sobre o próprio ataque. Seu vice, general Mourão, na primeira hora declarou não ter dúvidas de que o PT era o autor do atentado. Ontem, ele foi um dos encarregados de transmitir o pedido de moderação, que não garante a reação dos seguidores de quem chamam “mito”. A temperatura é alta nas redes sociais. Eles acusam o PT enquanto ativistas de esquerda questionam a autenticidade do atentado. Praticado por um esquizofrênico, eleitoralmente ele favorece a vítima e mais prejudica Alckmin (concorrente no campo da direita) e o PT, que mesmo sem Lula tem grandes chances de levar Fernando Haddad ao segundo turno.
Os concorrentes já estão ajustando seus discursos e agendas ao ambiente traumático, que infunde temor e exige cuidado. E quem mais teve que se adequar foi Alckmin, que vinha movendo campanha negativa contra o ex-capitão. Agora, vai apenas questionar o preparo dele para governar. Uma campanha mais suave, entretanto, não significará a pacificação.
A divisão, a intolerância e o sectarismo já existiam antes, mas se acentuaram depois da eleição de 2014, quando o senador Aécio Neves não aceitou a vitória de Dilma. Presidindo o PSDB, contetou o resultado no TSE e estimulou a pregação do impeachment antes mesmo da segunda posse dela. A pacificação, agora, começará pela aceitação do resultado. Ainda mais se o segundo turno for entre as forças mais antagônicas, vale dizer, entre Bolsonaro e o petista Fernando Haddad. Se não formos um país capaz de respeitar a regra da alternância no poder, não estaremos preparados para a democracia. E se conciliação foi impossível quando a polarização era entre PT e PSDB, mais difícil será agora, com o espectro ideológico mais fragmentado e o surgimento de uma extrema-direita raivosa. O desafio será de todos, não só do futuro presidente. Este será, por sinal, tema do discurso de posse do ministro Dias Toffoli na presidência do STF, no dia 13. O Judiciário, assim como o MPF, têm parte da culpa. Deixaram a Lava Jato virar inquisição e ajudaram a demonizar a política.
A herança de Temer tudo dificultará. A briga sempre aumenta quando falta pão. Além do déficit primário de R$ 139 bilhões, o orçamento proposto para 2019 traz buracos enormes na área social; os recursos da Previdência são suficientes para bancar aposentadorias apenas até agosto. Faltam R$ 200 bilhões, além de outros R$ 30 bilhões para o BPC, o benefício continuado para idosos sem renda e deficientes. E dos R$ 30 bilhões necessários à continuidade da Bolsa-Família, só estão garantidos R$ 15 bilhões. Pacificar um pais quebrado, empobrecido e disposto à guerra é um grande desafio. É preciso pensar nisso.

 

 

ESCONJURO
( Guinga – Aldir Blanc )A ZONZA DA CIGARRA NO ÔCO DO CAJUEIRO E RÊ
BÓTUM BEMOL NA CLAVE DO VERÃO
QUEM DIZ UMA PALAVRA COM SENTIDO VERDADEIRO E RÊ
QUE TRAGA UM SOM PAISAGEM PRÁ CANÇÃOFALEI ALARIDO PALAVRA DE VIDRO
QUEBRADA NA VOZ Ô Ô
PALAVRA RAIADA MAIS ESTILHAÇADA
QUE O CASO ENTRE NÓS

O AMOR QUANDO JURA A GENTE ESCONJURA
POIS NÃO VAI RENDER Ô Ô
JÁ FIZ UMA FIGA TALVEZ EU CONSIGA
PARAR DE SOFRER PARAR DE SOFRER

DIABO DE VIGÁRIO URUBÚ NO CAMPANÁRIO
SÓ FALA DE PECADO NO SERMÃO
QUEM DIZ UMA PALAVRA COM SENTIDO DE MISTÉRIO E RÊ
QUE PONHA UM SORTILÉGIO NA CANÇÃO

FALEI PROSTITUTA PALAVRA DE FRUTA
MANCHANDO LENÇÓIS Ô Ô
PALAVRA ENCARNADA E MAIS MACHUCADA
QUE O CASO ENTRE NÓS

O AMOR QUANDO JURA A GENTE ESCONJURA
POIS NÃO VAI RENDER Ô Ô
UM GALHO DE ARRUDA MADRINHA ME AJUDA A
PARAR DE SOFRER PARAR DE SOFRER Ô Ô Ô

 

TERNURA E PIRRAÇA DESGRAÇA E VENTURA
A GENTE COSTURA DOIS A DOIS
É FEITO ESSE RISO QUE ESCORRE EM MEU CHORO
GOZANDO DEPOIS Ô Ô

CABLOCA SEM VESTIDO NO CHICOTE DO MARIDO E RÊ
MOÍDA DE PANCADA SEM RAZÃO
QUEM DIZ UMA PALAVRA DE SENTIDO MILAGREIRO E RÊ
QUE MUDE ESSA INJUSTIÇA NA CANÇÃO

FALEI LIBERDADE PALAVRA DE MUITOS
QUE SE APRENDE A SÓS Ô Ô
QUE CUSTA TÃO CARO QUE EU NEM COMPARO
AO CASO ENTRE NÓS

O AMOR QUANDO JURA A GENTE ESCONJURA
POIS NÃO VAI RENDER Ô Ô
UM PÉ DE COELHO PRÁ MIM BOM CENSELHO
É PARAR DE SOFRER PARAR DE SOFRER

O CORPO DA PRINCESA NA RAIZ DA MANDIOCA E RÊ
COLOCA REALEZA RENTE AO CHÃO
A MODA SERTANEJA NA VIOLA CARIOCA E RÊ
TRAZ O BRASIL DE VOLTA PRÁ CANÇÃO
TRAZ O BRASIL DE VOLTA PRÁ CANÇÃO
TRAZ O BRASIL DE VOLTA PRÁ CANÇÃO

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“Esconjuro”, Guinga e Aldir: depois de ouvir, nada a acrescentar. Só aplaudir. De pé.
BOM DIA!!!
(Vitor Hugo Soares)

Ciro Gomes (13%), Marina Silva (11%), Geraldo Alckmin (10%) e Haddad (9%) tecnicamente empatados

 eleições 2018 datafolhaO boneco inflável de Bolsonaro entre pedestres na avenida Paulista no domingo. Sebastião Moreira EFE

 

A primeira pesquisa Datafolha divulgada após o atentado ao deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ), na última quinta-feira, mostra uma pequena oscilação positiva para o candidato do PSL à presidência da República, de 22% para 24%, dentro da margem de erro, de 2 pontos para mais ou para menos. Quem apresentou maior oscilação positiva foi o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT), que tinha 4% e, agora, aparece com 9% — a expectativa é de que sua candidatura seja oficializada em substituição à do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta terça-feira.

O ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT) teve o segundo melhor desempenho: saiu de 10% para 13%. Já o ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin (PSDB) teve oscilação modesta, de 9% para 10%. O pior cenário é o da ex-ministra Marina Silva (Rede), que tinha 16% na última pesquisa e agora aparece com 11%. A queda de Marina foi mais acentuada entre as mulheres, passando de 19% para 12%. Já Bolsonaro aumentou sua popularidade entre o público feminino, com oscilação de 14% para 17%.

Essa é a primeira pesquisa Datafolha que não inclui o nome do ex-presidente Lula, cuja candidatura foi barrada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O levantamento divulgado nesta segunda-feira — e pesquisado também nesta segunda-feira, com perguntas a 2.804 pessoas — chegou a ser adiado por conta das dúvidas em relação às formalidades decorrentes da decisão do TSE em relação Lula. Boa parte da expectativa em relação a essa pesquisa estava depositada no efeito da comoção causada pelo ataque a faca a Bolsonaro. O deputado não apenas oscilou pouco positivamente como sua rejeição subiu de 39% para 43%.

A segunda candidata mais rejeitada da pesquisa é Marina Silva, com 29% — antes era 25%. Outra rejeição que oscilou para cima foi a de Haddad, de 21% para 22%. Alckmin teve queda na rejeição, de 26% para 24%, assim como Ciro, que deixou o patamar de 23% para o de 20%. A pesquisa também mostra uma queda na taxa de indecisos, de 22% para 15%. O segundo pelotão tem o senador Alvaro Dias (Podemos-PR), o ex-ministro Henrique Meirelles (MDB) e João Amoêdo (Novo) com 3%. O restante dos deputados não soma mais de 1% cada.

Nos cenários de segundo turno, Bolsonaro não tem vida fácil contra nenhum adversário, e teria chance de vitória apenas contra Haddad. Os dois aparecem tecnicamente empatados: 39% para o petista e 38% para o deputado do PSL. Bolsonaro perderia para Marina (por 43% a 37%), Alckmin (43% a 34%) e Ciro (45% a 35%). Ciro ganharia em todos os outros cenários pesquisados: de Alckmin (39% a 35%) e Marina (41% a 35%).

Os principais números da pesquisa

Intenção de voto

(Entre parênteses o índice de cada candidato na pesquisa anterior, aplicada entre os dias 20 e 21/08)

Jair Bolsonaro (PSL): 24% (22%)

Ciro Gomes (PDT): 13% (10%)

Marina Silva (Rede): 11% (16%)

Geraldo Alckmin (PSDB): 10% (9%)

Fernando Haddad (PT): 9% (4%)

Alvaro Dias (Podemos): 3% (4%)

João Amoêdo (Novo): 3% (2%)

Henrique Meirelles (MDB): 3% (2%)

Guilherme Boulos (PSOL): 1% (1%)

Cabo Daciolo (Patriota): 1% (1%)

Vera (PSTU): 1% (1%)

João Goulart Filho (PPL): 0% (1%)

Eymael (DC): 0% (0%)

Branco/nulos: 15% (22%)

Não sabe: 7% (6%)

Rejeição dos candidatos

Jair Bolsonaro (PSL): 43% (39%)

Marina Silva (Rede): 29% (25%)

Geraldo Alckmin (PSDB): 24% (26%)

Ciro Gomes (PDT): 20% (23%)

Fernando Haddad (PT): 22% (21%)

Rejeita todos/não votaria em nenhum: 5%

Poderia votar em todos: 1%

Não sabe/não respondeu: 10%

set
11

Do Jornal do Brasil

 

O candidato do PDT à Presidência, Ciro Gomes, afirmou na manhã desta segunda-feira, 10, que não crê que vá perder votos para Fernando Haddad, que deve ser oficializado concorrente do PT ao Planalto nos próximos dias. “Eu acho que estou demonstrando ao povo brasileiro que eu interpreto o melhor projeto para o Brasil”, afirmou, evitando citar o nome de Haddad.

Ciro também disse que não deve haver surpresa da população brasileira diante da provável substituição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por Haddad. Ele voltou a criticar o PT. “O povo já está ligado nisso há uns 10, 15 dias. A nossa posição na política é a de encerrar essa crônica de confrontação radicalizada, que infelizmente o PT também colaborou para acontecer”, disse.

Ciro negou dobradinha com a concorrente Marina Silva (Rede) durante a noite deste domingo, 9, no debate do Estadão, TV Gazeta e Jovem Pan. Em diversos momentos no debate, os dois candidatos trocaram afagos em perguntas sobre saúde, educação e economia. Marina até tentou um confronto com Ciro, ao citar dados da segurança pública no Ceará, mas não houve embate.

“Minhas perguntas eram dirigidas ao (Geraldo) Alckmin. Mas pelas regras do debate, não pude perguntar a ele. Então me dirigi àquela que está mais perto de mim, porque gosto de discutir com pessoas que têm o que dizer”, afirmou.

Ciro também repreendeu apoiadores que, via Twitter, atacaram a Marina Silva. “Quero pedir aos meus companheiros, a quem estimo muito, que não façam mais isto. Nós somos a turma que propõe, que constrói, e a turma que quer dar a mão no dia seguinte à eleição”, afirmou.

O pedetista também comemorou o fato de ter sido mais mencionado durante o debate no Twitter, segundo dados da própria empresa. “Quero agradecer a esta turma que vai nos levar a ganhar está eleição”, finalizou.

Serena Williams machismo
Serena Williams na final do US Open no último sábado, 8 Danielle Parhizkaran USA Today Sports
 

Naomi Osaka venceu a final do Aberto dos EUA (US Open) no sábado contra Serena Williams, a lenda. No entanto, não foi isso que os meios de comunicação destacaram, tampouco o que foi falado na rua ou nas redes sociais. Foi Serena Williams e uma tripla punição. Ela perdeu a cabeça, destruiu a raquete contra o chão e enfrentou o árbitro Carlos Ramos: “Você é um mentiroso, um ladrão!”. “Eu sou mãe, prefiro perder do que roubar!”. “Você me deve desculpas, me deve desculpas!”. “Nunca mais vai apitar um jogo meu! É porque sou mulher e você sabe disso! Se fosse homem, não faria isso!”. “Você está atacando minha personalidade!”. 

Serena transformou uma resposta ruim à pressão de uma partida em uma bandeira feminista; e as advertências do árbitro, que estavam dentro das regras, segundo os especialistas, em um ataque sexista. Há um duplo debate: sobre sua atitude e sobre o machismo no mundo do tênis. Mas, nessa ocasião, eles transcorrem separadamente.

O feminismo se tornou um imenso manto que cobre tudo, com mais força nos últimos dois anos; empurrado pelas ruas, redes sociais, jornais, rádios, televisões, sites, pelo mundo do cinema e da música, por influencers, youtubers e rostos conhecidos de diferentes áreas, em todos os níveis: cultural, político, econômico e social. Mas essa perspectiva, que já faz parte do debate diário, nem sempre é a resposta, não serve para tudo e não deve ser usada como desculpa, de acordo com muitas feministas e especialistas consultadas. Não é um curinga nem dá carta branca a ninguém, a qualquer momento e para qualquer coisa. Mari Ángeles Cabré, diretora do Observatório Cultural de Gênero da Espanha, questiona se Serena Williams gritou naquele momento porque a estavam ofendendo como mulher. Sua resposta é negativa: “O feminismo não é um escudo para deter todos os golpes que a vida nos dá, exige responsabilidade e bom uso”.

Isso nem sempre se faz e essa manipulação do discurso joga contra; em um movimento que cresce e se expande a uma velocidade vertiginosa, que já é maciço e tem alto-falantes capazes de atingir milhões de pessoas ao mesmo tempo, os disfarces não fazem falta. Que no tênis existe discriminação salarial por gênero, discriminação de tratamento, de cobertura da mídia e de cuidado institucional é um fato. Para a militante feminista Amparo Rubiales, a questão racial também não pode ser desprezada. “Quanto Serena teve de resistir por ser mulher, negra, mãe e continuar competindo? Certamente muito mais que os jogadores homens.” Mas isso não pode ser usado para explicar tudo o que acontece na quadra, como argumenta Lola Pérez, feminista, filósofa e assistente social: “As mulheres empoderadas, com uma personalidade tão forte quanto a que ela tem em quadra, devem saber reconhecer quando estão certas e quando estão erradas.” Zua Méndez, do grupo feminista Towanda Rebels, discorda nesse sentido, acredita que este deveria ser mais um daqueles momentos em que se deve dizer: “Vamos acreditar nas mulheres”. “Porque [Serena Williams] está rompendo estereótipos em um esporte que não é nada amigável com elas.”

Serena Williams , a supervisora do circuito feminino do US Open, Donna Kelso, e o juiz Brian Early
Serena Williams , a supervisora do circuito feminino do US Open, Donna Kelso, e o juiz Brian Early JULIAN FINNEY AFP
 Porém, talvez porque haja argumentos, dados e estatísticas suficientes para denunciar um machismo institucionalizado, não é necessário vestir o feminismo com a vitimização nem tornar o discurso uma deriva. Se deixarmos que tudo, como um sistema, se transforme em machismo, corre-se o risco de o movimento perder força e razão naquilo que é consequência de uma sociedade patriarcal. A esse possível efeito se refere Octavio Salazar, jurista e especialista em igualdade: “O que define um comportamento machista é que existe um exercício de dominação ou supremacia de um homem sobre uma ou mais mulheres, e implica em tratamento violento, degradante ou humilhante. Mas não é uma chamada de atenção por descumprimento das regras”. De acordo com Salazar, a busca por igualdade deve evitar a reprodução de comportamentos culturalmente assumidos como masculinos: “Há mulheres que, para se empoderarem, assumem comportamentos furiosos e violentos como são os habitualmente protagonizados pelos homens. Um dos ensinamentos do feminismo é que as mulheres não precisam fazer as mesmas besteiras que os homens”.

Apesar de partir de uma acusação questionável, a queixa de Serena gerou várias discussões necessárias. A do machismo no mundo do tênis, é claro, que ocupa desde a noite de sábado o noticiário internacional e os círculos relacionados ao feminismo; e também outros que se conectam com a abordagem machista ao julgar comportamento das mulheres. Nuria C. Sopena, jornalista feminista e escritora, reflete nessa direção: “Talvez se permita uma explosão de fúria a um tenista e não a uma tenista. Talvez se permita a um tenista perder a compostura, enquanto ela [Serena Williams] é vista como uma mulher um tanto raivosa.” A infantilização da terminologia com a qual se descrevem os gestos ou o tom de uma mulher continua sendo uma constante: os homens são temperamentais e as mulheres, histéricas; os homens ficam com raiva e as mulheres ficam com birra. “Quando uma mulher demonstra suas emoções, ela é ‘histérica’ e punida por isso. Quando um homem faz o mesmo, é ‘franco’ e não há repercussões. Obrigado, Serena, por denunciar essa dualidade. Mais vozes são necessárias para fazer o mesmo”, escreveu Billie Jean King, lenda do tênis norte-americano e ganhadora de 12 Grand Slams, ao sair em defesa de Serena, levando em conta que atitudes semelhantes à da tenista raramente rendem advertências tão rigorosas quando protagonizadas por homens.

Nem a raiva, nem os trejeitos deles deveriam ser socialmente aceitos, nem os delas tão insultados. Se a igualdade é o objetivo, que o caminho para alcançá-la também seja esse, prega Lola Pérez: “Usar a vitimização para fazer uma falsa denúncia de sexismo é uma armadilha. Uma perversão dos valores de igualdade. Não acredito que isso seja algo que tenha a ver com o movimento feminista”. Entre a imagem de vítima ou vilã no embate com Ramos, o fato é que Serena mais uma vez conseguiu holofotes para sua cruzada pessoal em combate ao preconceito. Se por um lado a Federação Internacional de Tênis, comandada pelo ex-jogador David Haggerty, respaldou a conduta do árbitro no episódio, a multicampeã recebeu o apoio de colegas como Martina Navratilova, Victoria Azarenka e Kristina Mladenovic, além do presidente da Associação de Tênis Feminino (WTA), Steven Simon, que comunicou: “A WTA acredita que não deve haver diferenças nos padrões de tolerância às emoções expressas pelos homens e pelas mulheres e está comprometida em trabalhar com o esporte para garantir que todos os jogadores sejam tratados da mesma maneira. Não acreditamos que isso tenha acontecido [com Serena na final do US Open]”.

O que dizem as especialistas

 

Lola Pérez, feminista, filósofa e assistente social

Serena Williams usa a vitimização de uma maneira bastante perversa; afinal de contas, as mulheres em nossa condição de pessoa podem fazer coisas boas e ruins e o comportamento que estava tendo não era apropriado para as regras do jogo. Árbitro estava no direito de repreendê-la. Acredito que mulheres empoderadas, com uma personalidade tão forte como a que ela tem em quadra, tem de saber reconhecer quando estão certas e quando estão erradas. Não somos Super Woman, embora tenhamos essa visão de Serena, porque é uma grande atleta e é um titã na quadra. Mas uma coisa é ser uma boa atleta e outra é a atitude que pode ter. Roubou todo o protagonismo de sua adversária, que foi quem ganhou – a multa, isso sim, me parece desproporcional [Serena foi multa em aproximadamente 70.000 reais pela organização do US Open]. No campo de jogo, estamos acostumados que os homens façam gestos exagerados, que demonstrem sua agressividade, e não é que nunca aconteça nada, mas parece que os juízes de linha são mais permissivos com eles. Devemos avaliar, por um lado, que ela não teve uma atitude correta e apropriada e ver também como outros homens tampouco a tiveram em outras ocasiões.

Amparo Rubiales, política, advogada e feminista

Eu não assisti ao jogo e nem ao incidente, grave, segundo as crônicas, todas escritas por homens. A multa também é muito severa. Certamente ela se equivocou. No entanto, como escreveu Ana de Miguel, “o patriarcado é manter a ideia de que há tantos feminismos quanto mulheres e que basta que uma mulher diga algo porque ‘ela quer’ para que esse algo seja ‘feminista’ e que todas nós sejamos desqualificadas.” Serena Williams usou sua condição de mulher para se rebelar contra a decisão do árbitro, homem, é claro. Quanto Serena teve de resistir por ser mulher, negra, mãe e continuar competindo? Certamente muito mais que os jogadores homens. E meus sinceros parabéns a Osaka, outra mulher vencedora.

Mari Ángeles Cabré, diretora do Observatório Cultural de Gênero

Que Serena Williams estava de cabeça quente por causa da questão da roupa pós-parto que não a deixaram usar, nós já sabíamos. Também sabemos da longa opressão dos brancos sobre os negros e do ressentimento que ainda existe em muitos deles. Mas que sua relação com as regras do tênis não passe pelos melhores momentos e que o árbitro português seja bem blasé não justifica seu injustificável ataque de fúria, muito menos que se defenda aludindo à sua condição de mulher tratada injustamente. Você grita porque estão te ofendendo como mulher, você grita porque o feminismo lhe dá força para fazê-lo? Não, Serena, o feminismo não é um escudo para deter todos os golpes que a vida nos dá, não é um curinga que serve para toda adversidade. O feminismo exige responsabilidade e bom uso. Como qualquer veículo, ele pode te levar muito longe. Mas, se você o usar mal, você pode se lascar e é isso que aconteceu. Primeiro mandamento: você amará o feminismo acima de todas as coisas. Segundo mandamento: você não pronunciará o nome do feminismo em vão…

Idoya Noain, correspondente nos Estados Unidos do El Periódico

Há vários fatores culturais, muito específicos dos Estados Unidos, que tiveram a ver nesse assunto. Aqui há uma questão racial importante e qualquer coisa pode ser usada como racismo. E Serena é uma lenda, uma das melhores tenistas de todos os tempos. É intocável. Além disso, durante o último ano, a gravidez, o pós-parto e os problemas de saúde que teve e os mais recentes incidentes em relação ao uniforme em Roland Garros elevaram seu status na hora de falar de igualdade. Durante esse tempo, ela deu ênfase aos cuidados de saúde às mulheres negras, algo que, se ela não tivesse feito, nunca teria tido esse impacto. Mas o que aconteceu no sábado não foi sexismo. Ela perdeu a cabeça, é algo humano, mas o transformou no que não era e não recuou, transformou o incidente em um debate de gênero. A discussão hoje nos Estados Unidos é sobre o sexismo no tênis e, sim, isso era necessário e importante, mas não surgiu de uma injustiça real. Naquele momento, Serena Williams talvez estivesse pensando nos direitos, mas, diante dela, estava uma mulher de 20 anos, Naomi Osaka, que a idolatrava e estava enfrentando o seu primeiro Grand Slam no meio de uma quadra cheia de animosidade, que ofuscou seu triunfo.

Resultado de imagem para Naomi Osaka venceu a final do Aberto dos EUA (US Open
Naomi Osaka vencedora da final do Aberto dos EUA (US Open)

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Posted on 11-09-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 11-09-2018



 

Amarildo, na (ES)

 

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Já foram escritas linhas e mais linhas sobre o que será a presidência de Dias Toffoli no STF.

Mas analista nenhum  — nenhum — escreveu nada sobre a mesada de 100 mil reais que o ministro recebe da mulher advogada.

LEIA AQUI

A mesada de Toffoli

O próximo presidente do Supremo Tribunal Federal recebe 100 mil reais todo mês em uma conta mantida no Banco Mercantil. O dinheiro é repassado pela mulher dele. Roberta Rangel é dona de um escritório de advocacia que alcançou o sucesso em Brasília depois que Dias Toffoli ascendeu na carreira. As transações foram consideradas suspeitas por técnicos do próprio banco

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