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bolsonaro esfaqueado
Apoiador de Bolsonaro prepara inflável do deputado em frente ao hosputal Albert Einstein, onde o deputado está i. NACHO DOCE REUTERS
  

O Brasil contempla nesta sexta-feira, após o atentado a faca contra o deputado Jair Bolsonaro (PSL-RJ), a paralisação de uma campanha presidencial pela segunda vez consecutiva. A exemplo do que ocorreu por conta da morte do ex-governador Eduardo Campos no pleito de 2014, os pleiteantes ao Palácio do Planalto interromperam suas atividades em respeito ao líder das pesquisas de intenção de voto, que deve seguir impossibilitado de tocar sua própria campanha por ao menos sete dias, o período mínimo de internação previsto. Enquanto isso, todos tentam entender os impactos do incidente para a dinâmica eleitoral. Pelo menos momentaneamente, Bolsonaro deixa de ser o alvo preferencial das críticas e passa a ocupar um espaço midiático muito maior do que aquele que lhe estava destinado – oito segundos de propaganda eleitoral, contra cinco minutos e meio de Geraldo Alckmin, por exemplo —, com potencial até para superar o protagonismo que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), apesar de preso, tentava sustentar.

Todos os cálculos e previsões precisam ser refeitos a partir deste imponderável. Em 2014, por exemplo, o acidente de avião que vitimou Eduardo Campos no dia 13 de agosto daquele ano, então terceiro colocado nas pesquisas de intenção de voto, catapultou, num primeiro momento, Marina Silva, sua vice de chapa do PSB, para o segundo lugar na disputa quando ela assumiu a cabeça da chapa. A comoção com a tragédia a ajudou a ultrapassar o senador Aécio Neves (PSDB-MG). Faltavam então 52 dias para o primeiro turno da eleição. Tudo parecia líquido e certo no caminho de Marina ao Planalto. Mas o candidato tucano garantiu sua ida ao segundo turno na reta final da disputa, com ajuda da propaganda negativa da campanha de Dilma Rousseff contra Marina.

O efeito do ataque contra Bolsonaro para a corrida eleitoral ainda é incerto, mas seu nome ganhou a expressão máxima neste momento. Se a campanha do deputado do PSL tinha no pouco tempo de propaganda de televisão um de seus maiores limites, a atenção dirigida a ele em função do atentado tem o potencial de eliminar essa fraqueza. Além disso, Bolsonaro dificilmente deve conseguir participar dos próximos debates, já que os médicos preveem cerca de dois meses para sua recuperação total. Assim, ele não irá se expor a embates como aquele com a ex-ministra Marina Silva (Rede) no debate da RedeTV!, que escancarou a fragilidade do candidato entre o público feminino. Na campanha de Marina, inclusive, a avaliação é que o atentado contra o Bolsonaro jogou a disputa “num terreno imprevisível”.

A candidata da Rede vinha apostando, desde o debate da RedeTV!, em antagonizar com Bolsonaro e criticá-lo por suas opiniões em relação aos direitos das mulheres. O momento em que ela e o candidato do PSL se enfrentaram diretamente no debate era, inclusive, considerado o ponto alto da campanha da Rede até aqui. Isso terá de mudar. “Atacar o Bolsonaro não faz sentido, porque desta vez ele é a vítima”, disse um integrante da campanha de Marina ao EL PAÍS. Uma ideia é usar o episódio do esfaqueamento para reforçar a oposição da candidata às políticas que facilitem o armamento da população — uma das bandeiras do capitão reformado do Exército. Algo na linha de que a tragédia poderia ter sido muito maior se tanto o agressor quanto seus apoiadores na passeata tivessem amplo acesso a armas de fogo. Mas o tema ainda gera discussões no comitê de campanha. Se optarem por esse discurso, há uma preocupação de que as mensagens sejam construídas com cuidado. “Sem jamais culpar o Bolsonaro pelo ataque”, diz um aliado de Marina. A candidata anunciou uma “caminhada pela paz” para este sábado em São Paulo.

Enquanto líder das pesquisas, Bolsonaro também vinha sendo alvo de ataques contundentes da campanha do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB), que disputa o mesmo eleitorado — mais rico e instruído — com o deputado federal. Os assessores da campanha tucana já fizeram circular a informação de que a intensa ofensiva contra o adversário está suspensa. O cientista político Alberto Carlos Almeida destacou, em seu perfil no Twitter, o dano para a campanha de Alckmin, já que é de esperar um efeito de mídia favorável para Bolsonaro após o ataque da quinta-feira. Para ele, o tucano não poderá atacar o deputado federal por pelo menos uma semana. Vice na chapa de Alckmin, a senadora Ana Amélia (PP-RS) publicou um vídeo para dizer “não queremos violência para ninguém”.

Para o cientista político Paulo Kramer, as estratégias de desconstrução de Bolsonaro foram desarmadas e “a facada tirará do armário votos que estavam envergonhados”. Ou seja, Bolsonaro pode ampliar a vantagem nas pesquisas. Algo que deve começar a ser medido pelas próximas pesquisas de intenção de voto, que vinham mostrando sua candidatura como a mais popular depois da do ex-presidente Lula, já barrada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas também a mais rejeitada. Institutos como Ibope e Datafolha farão novos levantamentos ao longo da próxima segunda-feira e as divulgam na noite do mesmo dia.

Ânimos acirrados

As análises mais óbvias e simplistas levam a crer que o atentado teria garantido Bolsonaro no segundo turno, já que ele lidera as pesquisas e, blindado pelo ocorrido, não estaria exposto às tentativas de desconstrução de seus adversários. Mas a dinâmica ainda está por se desenvolver, e depende entre outras coisas, da evolução do quadro clínico do deputado federal e de sua capacidade de mobilizar a atenção política pelos próximos dias — o esperado anúncio de Fernando Haddad como substituto de Lula na chapa do PT, aguardado para o início da semana, já teve seu impacto amortecido no noticiário. Até agora, Bolsonaro era o candidato com as mais expressivas imagens de campanha, praticamente o único a reunir um número considerável de apoiadores pelas ruas do país. Isso não deve mais acontecer, mas, mesmo debilitado, o candidato do PSL gravou vídeos e postou mensagens que circulam com ainda mais intensidade pelas redes sociais por meio das mãos de seus apoiadores.

As estratégias de sua própria campanha e a forma de lidar com o ocorrido podem atrair ou afastar votos de Bolsonaro. Seu vice, General Mourão (PRTB), chegou a acusar o PT de ser o responsável pelo ataque, para em seguida advertir que “se querem violência, os profissionais da violência somos nós”. Nesta sexta-feira, contudo, o tom do vice já veio mais baixo. “As primeiras declarações são sempre na base da emoção, e aí as pessoas dizem coisas que não deveriam dizer. Há um velho ditado que diz: ‘as palavras, quando saem da boca, não voltam mais’. Portanto, vamos manter a calma. O caso está nas mãos da Polícia Federal”, disse. Nas redes sociais, contudo, os ânimos seguem acirrados dos dois lados. Enquanto os opositores de Bolsonaro tentam diminuir a relevância do atentado e criticam o comportamento do deputado em outros incidentes, como o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), seus apoiadores jogam lenha na fogueira com acusações para todos os lados e espalham informações sem confirmação. O pastor Silas Malafaia, por exemplo, disse que o autor do atentado assessora a campanha da ex-presidenta Dilma Rousseff ao Senado. A campanha de Dilma prometeu processá-lo por injúria, calúnia e difamação.

A segurança dos candidatos

Um impacto prático certo para a campanha será a ampliação da segurança de todos os candidatos à presidência da República “que assim o desejarem”, segundo informou a Polícia Federal (PF). Atualmente, apenas cinco dos 13 candidatos se valem dessa escolta diária: Bolsonaro, Alckmin, o senador Álvaro Dias (Podemos-PR), o ex-governador Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva. Conforme a PF, esse reforço na segurança segue um protocolo definido para casos em que um dos concorrentes sofre alguma intercorrência, como o atentado da quinta-feira contra Bolsonaro em Juiz de Fora (MG). Não há informações sobre o número de agentes que passarão a trabalhar nas campanhas. Atualmente, cada um recebe 21 seguranças, número que pode aumentar conforme o evento de que participem.

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Comentários

Daniel on 8 setembro, 2018 at 3:45 #

Como aconteceria caso o atentado fosse contra qualquer outro candidato, o ato acaba alterando algumas coisas na campanha.

Conhecido por ser recebido por grandes multidões, e em eventos bem improvisados, confesso que não sei o que acontecerá com a impossibilidade de Bolsonaro fazer campanha.

Só o tempo dirá!


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