Visão do hall de entrada do Museu Nacional, na foto do procurador Sergio Suiama.
Visão do hall de entrada do Museu Nacional na foto do procurador Sergio Suiama.
Afonso Benites

 

Um museu relegado ao segundo plano pelo Governo Federal. Desde 2001, a União investe valores ínfimos num dos principais acervos históricos do país. O Museu Nacional, que foi consumido pelas chamas no domingo passado, costumava receber uma verba pública que variava entre 1 milhão e 1,9 milhão de reais anuais. Nos últimos cinco anos, contudo, sofreu seguidos cortes drásticos e a previsão para 2018 era de que apenas 205.821 reais fossem repassados para instituição, que é subordinada à Universidade Federal do Rio de Janeiro. Os dados foram obtidos junto ao Siga Brasil, o projeto do Senado Federal que acompanha par e passo os gastos o orçamento federal (veja mais no infográfico abaixo).

Apenas para efeito de comparação, atualmente, a gestão Michel Temer (MDB) investe menos no Museu Nacional do que a Câmara dos Deputados na lavagem de seus 83 veículos oficiais ou que o próprio Poder Executivo na manutenção do Palácio da Alvorada, a residência presidencial que está desocupada desde o impeachment de Dilma Rousseff. Neste ano, a Mesa Diretora desta casa legislativa e as lideranças preveem gastar 563.000 reais em dinheiro público para deixar seus carros limpos. O valor é 2,7 vezes de fato destinado ao primeiro museu brasileiro. Já o Alvorada, custa cerca de 500.000 reais por mês, o que inclui gastos com energia elétrica e jardinagem. 

Se não bastasse a falta de apoio financeiro direto por parte da União, apenas um dos 49 parlamentares do Rio de Janeiro (somando os 46 deputados federais e os três senadores) demonstrou qualquer preocupação em ajudar com recursos o Museu Nacional. De 2015 para cá, só Alessandro Molon (PSB-RJ) destinou uma de suas emendas parlamentares à instituição. Ele apontou que 300.000 reais deveriam ser repassados ao órgão. Esse valor foi pago em duas vezes. Ao todo, cada congressista pode distribuir 14,8 milhões para a área ou obra que bem entender.

Não surpreende diante da ausência de prestígio político do museu. O último presidente a visitá-lo foi Juscelino Kubitscheck (1902-1976), o mandatário que transferiu a capital federal do Rio para Brasília e governou o país entre 1956 e 1961. Recentemente, nem mesmo os subalternos ao presidente vinham demonstrando qualquer afeição ao órgão. No dia em que se comemorou o bicentenário do Museu Nacional, em 9 de junho passado, o ministro da Cultura de Temer, Sérgio Sá Leitão, estava no Rio (a cidade onde ele se graduou e foi secretário da Cultura), mas não esteve nessas celebrações.

Na segunda-feira, depois da tragédia, Sá Leitão esteve no museu ao lado de seu colega do Ministério da Educação, Rosielli Soares. Ambos anunciaram um plano de recuperação que, em um primeiro momento, vai custar 10 milhões de reais. Além disso, preveem financiar empresas que ajudem na reestruturação do órgão.

Enquanto, isso, no Palácio do Planalto, o ministro da Secretaria de Governo, Carlos Marun, reclamou que, entre os críticos dos baixos investimentos, havia muitas pessoas que pouco ou nada fizeram pelo museu. “Agora que aconteceu tem muita viúva chorando. Eu não tenho visto ultimamente, na televisão, por exemplo, pelo menos em um horário, alguém destacando o museu, para que ele se tornasse mais amado pela nossa população. Está aparecendo muita viúva apaixonada, mas, na verdade, essas viúvas não amavam tanto assim o museu”.

Quando indagado sobre a responsabilidade da União sobre o baixo investimento, Marun disse que o principal órgão responsável por gerir a entidade é a Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Não vou culpar ninguém, não conheço o que a UFRJ priorizou. Só estou fazendo afirmações que condizem com a realidade: a UFRJ tem autonomia financeira, e o orçamento do museu sai do orçamento dela”. Ele só não disse que quem define os valores repassados às universidades é o Governo federal, do qual ele é um dos principais interlocutores e porta-vozes.

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Comentários

Daniel on 4 setembro, 2018 at 1:48 #

Devemos lembram que o arrocho sobre o Museu começou em 2014, sob o mandato de Dilma Rousseff.

A considerar também o fato de a UFRJ ter
inúmeros incêndios que datas recentes. Além de ter o comando daquela universidade tomado por filiados do PSOL e PCdoB.

Talvez seja apenas coincidência…


Taciano Lemos de Carvalho on 4 setembro, 2018 at 9:10 #

Na foto da matéria, a imagem do Meteorito Bendengó, achado no município de Monte Santo, sertão baiano, transportado por carros de bois e muques do sertanejo até a minha pequena Itiúba. Embarcou para o Rio de Janeiro de trem na estação do distrito itiubense de Jacurici.

Se resistiu a viagem pelos confins do universo, se não derreteu ao entrar na atmosfera terrestre, não seria a incúria, a irresponsabilidade, a omissão, a imprudência, de governantes que o destruiriam.

Como todo sertanejo (extra terrestre, é verdade, mas sertanejo de caída), antes de tudo é um forte.


Taciano Lemos de Carvalho on 4 setembro, 2018 at 9:13 #

O maior corte nos recursos do Museu Nacional dos últimos anos foi exatamente de 2017 para 2018, após a aprovação do Teto de Gastos – a chamada PEC da Morte.


Taciano Lemos de Carvalho on 4 setembro, 2018 at 9:58 #

(extra terrestre, é verdade…) = extraterrestre


Daniel on 4 setembro, 2018 at 12:04 #

Sua informação está equivocada. A maior queda de investimento foi entre os anos de 2013 e 2014.

2018 nem deve ser considerado, já que é um ano ainda em vigência.

E a chamada “pec do teto” foi aprovada em 2016, portanto, já teria os seus efeitos em 2017…


Taciano Lemos de Carvalho on 4 setembro, 2018 at 15:16 #

Em 2018, até agora, isto é, oito meses, entrando no nono, apenas 54 milhões.

Quando se diz que as universidades federais estão sendo mortas, é porque estão. E o Museu é de uma universidade federal.


Taciano Lemos de Carvalho on 4 setembro, 2018 at 15:19 #

E não é de hoje que a Universidade Federal do RJ e a direção do Museu se queixa da não liberação de verba carimbada para manutenção do prédio. Não recebeu, queimou.

Verdade que a universidade pública vem perdendo recursos há muito tempo. Cresce a ilegal dívida pública, corta-se nos gastos, que não seja os da dívida. E dentre os gastos, as universidades. E os demais museus.


Daniel on 4 setembro, 2018 at 17:34 #

Em primeiro lugar, o ano ainda não encerrou. Falar em 2018 como referenciald e comparação é desonestidade intelectual;

Sobre as universidades, é uma falácia dizer que estão “sendo mortas”. É somente um discurso político sem qualquer fundamento. O quadro funcional delas vem crescendo e a quantidade de bolsas, por exemplo, estão sendo mantidas.

O problema não foi o investimento federal em 2018, foi o que a UFRJ repassou para o museu. A UFRJ recebeu um valor superior ao de outros outros anos, o problema foi a queda do repasse da universidade para o museu.


Daniel on 4 setembro, 2018 at 17:38 #

Sobre o segundo post, apenas reafirma os equívocos do primeiro. As universidades, apesar do repetido discurso contrário, vêm recebendo investimentos altíssimos, especialmente tendo e vista o cenário de crise que ainda vivemos.

O problema reside nas prioridades. Enquanto se gasta muito em superficialidades, perde- se um instituição como o Museu Nacional.

http://www.ilisp.org/noticias/responsavel-pelo-museu-nacional-ufrj-preferiu-captar-dinheiro-para-criar-radio/

É é ou não é para se revoltar?


Daniel on 4 setembro, 2018 at 17:42 #

Desculpem os erros nos posts anteriores. rsrs


Lucas Ribeiro on 4 setembro, 2018 at 18:49 #

Lucas Ribeiro on 4 setembro, 2018 at 19:06 #

Daniel on 4 setembro, 2018 at 23:19 #

2014, governo Dilma…


Daniel on 4 setembro, 2018 at 23:21 #

Daniel on 4 setembro, 2018 at 23:22 #

Daniel on 4 setembro, 2018 at 23:22 #

Taciano Lemos de Carvalho on 4 setembro, 2018 at 23:47 #

Do site da UFRJ

4/09/2018
Nota sobre orçamento da UFRJ
Assessoria de Imprensa do Gabinete do Reitor
NOTA OFICIAL
Reitoria
A UFRJ alicerça sua preocupação com a difusão de informações imprecisas e incorretas sobre a questão orçamentária da Universidade, que estão retirando do foco central o Museu Nacional, a perda de acervo e o significado disso para a nação brasileira.

A Universidade sofreu significativa redução orçamentária nos últimos quatro anos. É falaciosa e extremamente absurda qualquer versão que insinue aumento de recursos, quando são visíveis os cortes na ciência e na educação, denunciados pela comunidade científica. O orçamento da UFRJ, desde 2014, foi distribuído da seguinte forma:

2014 – R$ 434 milhões;

2015 – R$ 457 milhões;

2016 – R$ 461 milhões;

2017 – R$ 421 milhões;

2018 – R$ 388 milhões.

Os valores acima são referentes ao orçamento definido pela Lei Orçamentária Anual e créditos suplementares (até 2017, pois a execução deste ano não foi fechada). Esses orçamentos contemplam as despesas com custeio (manutenção geral, obras de infraestrutura) e investimentos (compra de equipamentos, construção de novos prédios).

A folha de pagamento da UFRJ inclui servidores ativos e até servidores aposentados e inativos de outras décadas. Essa folha, que ultrapassa R$ 1 bilhão, é gerida diretamente pelo Tesouro Nacional e não há sentido em incluí-la nas avaliações sobre gestão anual do dia a dia da UFRJ, por parte da sua administração central.

Em razão dos cortes, a UFRJ prevê que fechará este ano com déficit de R$ 160 milhões.

https://ufrj.br/noticia/2018/09/04/nota-sobre-orcamento-da-ufrj


Taciano Lemos de Carvalho on 4 setembro, 2018 at 23:49 #

Do Jornal do Brasil deste 4/8/2018

UFRJ rebate governo e afirma que orçamento encolheu 10,6% entre 2014 e 2018
Jornal do Brasil

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) rebateu nesta terça-feira, 4, os dados divulgados pelo governo federal de que houve incremento de 48,9% nos repasses à instituição entre 2012 e 2017. Segundo a reitoria, a informação é “falaciosa” e “extremamente absurda”. E informou que o orçamento da universidade encolheu 10,6% entre 2014 e este ano: saiu de R$ 434 milhões para R$ 388 milhões.

No mesmo período, os recursos destinados pela instituição ao Museu Nacional caíram 35%, de R$ 531 mil para R$ 346 mil, conforme dados passados pelo museu. A instituição pegou fogo domingo e 90% de seu acervo foi queimado.

Macaque in the trees
Vista aérea do Museu Nacional após o incêndio de domingo: verbas que poderiam ter evitado a tragédia tiveram que ser usadas para manter a instituição aberta (Foto: Marcos Tristão)
A universidade rebate informações concedidas pelos ministros da Casa Civil, Eliseu Padilha, da Educação, Rossieli Silva, e da Cultura, Sérgio Sá Leitão, nesta terça-feira. Eles sublinharam a responsabilidade da UFRJ pela administração do Museu Nacional, já que a instituição lhe é vinculada, e refutaram as críticas diretas feitas pelo reitor, Roberto Leher, e o diretor do museu, Alex Kellner, na segunda-feira. Padilha afirmou que entre 2012 e 2017 a dotação orçamentária para a UFRJ subiu 48,9% e que, nesse mesmo período, os repasses da UFRJ para o museu se reduziram em 43,1%.

Procurada pela reportagem, a UFRJ divulgou nota: “A Universidade sofreu significativa redução orçamentária nos últimos quatro anos. É falaciosa e extremamente absurda qualquer versão que insinue aumento de recursos, quando são visíveis os cortes na ciência e na educação, denunciados pela comunidade científica. O orçamento da UFRJ desde 2014 foi distribuído da seguinte forma: 2014, R$ 434 milhões; 2015, R$ 457 milhões; 2016, R$ 461 milhões; 2017, R$ 421 milhões; 2018, R$ 388 milhões”. Até o fim deste ano, a estimativa é de um déficit de R$ 160 milhões.

Os valores divulgados pela reitoria se referem a despesas com custeio (manutenção geral, obras de infraestrutura) e investimentos (compra de equipamentos, construção de novos prédios), de acordo com a UFRJ. “A folha de pagamento da UFRJ inclui servidores ativos e até servidores aposentados e inativos de outras décadas. Esta folha, que ultrapassa R$ 1 bilhão, é gerida diretamente pelo Tesouro Nacional e não há sentido em incluí-la nas avaliações sobre gestão anual do dia a dia da UFRJ, por parte da sua administração central.”

A nota diz ainda que “A UFRJ alicerça sua preocupação com a difusão de informações imprecisas e incorretas sobre a questão orçamentária da universidade, que estão retirando do foco central o Museu Nacional, a perda de acervo e o significado disso para a nação brasileira.”

O museu divulgou que os repasses foram de R$ 531 mil em 2013; R$ 427 mil em 2014; R$ 257 mil em 2015; R$ 415 mil em 2016; R$ 346 mil. De janeiro a abril deste ano, foram liberados apenas R$ 54 mil.

Estadão Conteúdo

http://www.jb.com.br/rio/2018/09/3425-ufrj-rebate-governo-e-afirma-que-orcamento-encolheu-10-6-entre-2014-e-2018.html


Daniel on 5 setembro, 2018 at 0:48 #

Só faltava mesmo a própria UFRJ divulgar uma nota em que confessa que reiteradamente negligenciou o Museu Nacional.

AS matérias são evidentes: priorizaram a criação de uma rádio UFRJ de custo muito superior à manutenção do museu; priorizaram gastos com pessoal em detrimento de investimento em cultura.

AS matérias que postei são indesmentíveis.


Daniel on 5 setembro, 2018 at 0:49 #

Está tudo errado.

“É óbvio que é uma insanidade uma universidade federal ser responsável pelo Museu Nacional do Rio de Janeiro. Assim como também é uma maluquice o Museu do Ipiranga estar sob a alçada da Universidade de São Paulo”, conforme notado pelo O Antagonista.

Deveriam ser instituições autônomas, geridas por verdadeiros administradores e aptas a captar recursos na iniciativa privada, como ocorre com os grandes museus do mundo civilizado.

Mas no Brasil é diferente. Aqui está tudo errado.

Confira algumas comparações inacreditáveis envolvendo o financiamento recebido pelo Museu Nacional, segundo apurado pelo Meio:

A verba consumida pelo Museu Nacional, em 2018, equivale ao gasto em 15 minutos pelo Congresso Nacional, no ano passado. Ou dois minutos do gasto pelo Poder Judiciário, no mesmo ano.

O reitor da UFRJ recebeu em salário líquido, ao longo de cinco meses, mais do que o museu recebeu até agosto. O museu é um dos órgãos da universidade.

O reitor da universidade é Roberto Leher, um dos fundadores do PSOL.

“A imprensa precisa parar de tratar Leher e seu partido como vítimas do incêndio no museu e cobrá-los pelo que são: corresponsáveis pela tragédia”, conforme publicado pelo O Antagonista.

https://renovamidia.com.br/reitor-psolista-da-ufrj-recebia-mais-que-o-proprio-museu-nacional/


Daniel on 5 setembro, 2018 at 0:52 #

Reitor faz pose de quem nada teve com o incêndio

O ativista Roberto Leher, reitor da Universidade Federal do Rio (UFRJ), reapareceu em Brasília, nesta terça (4), fazendo a melhor expressão de quem nada teve com a destruição do Museu Nacional. Só que não. Desde a posse, em julho de 2015, foi o terceiro incêndio sob a atual gestão na UFRJ. E as tragédias não ocorreram por acaso: essa turma tem se mostrado incapaz até de cumprir a recomendação legal de criar e manter um grupo de brigadistas para prevenção e combate ao fogo.

A atual gestão da UFRJ deixará a tristíssima memória dos incêndios na Reitoria, no dormitório dos alunos e no Museu que virou cinzas.

O reitor e seus prepostos foram incapazes até de articular convênio com os Bombeiros, sem custos, para proteger o Museu de incêndios.

De janeiro a julho deste ano, o reitor recebeu R$ 213 mil em salários, mais que o dobro dos R$ 98 mil repassados à manutenção do Museu.

Antes que lembrassem sua responsabilidade na tragédia, o reitor partiu para o ataque ainda na noite do incêndio. Atacou até os bombeiros.

https://diariodopoder.com.br/coluna-claudio-humberto/


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