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Postado em 18-08-2018
Arquivado em (Artigos) por vitor em 18-08-2018 02:34

Muitos achavam que Aretha Franklin já não estava entre nós. Talvez porque não gostasse de voar e raras vezes tenha posto pés na Europa (nunca atuou no mítico Olympia de Paris, por exemplo) ou em qualquer lugar da América que não fosse suficientemente perto para o poder percorrer de trem. Talvez porque marcasse concertos com a mesma facilidade com que os cancelava. Talvez porque a tendência depressiva (que se dissipava apenas quando estava em estúdio) a fizesse ficar longas temporadas desligada do mundo. Ou talvez apenas porque a sua carreira é tão longa, que parecendo fazer parte da nossa vida desde sempre já não poderia estar viva senão no nosso imaginário dedicado às divas afro-americanas.

 Aretha do baton vermelho e dos longuíssimos casacos de pele, que começou a cantar aos 14 anos numa Igreja Batista (era já mãe de dois filhos e tinha o primeiro disco “Songs of Faith” a caminho), que ultrapassou “a voz de um milhão de dólares” do próprio pai – o pregador itinerante e fundacional influência na sua vida, Clarence Franklin -, que trocou a escola pela estrada e acabou coroada e nunca destronada Rainha da Soul em 1967, morreu ontem, perto das dez horas, em sua casa, no mesmo lugar onde nasceu a 25 de março de 1942, em Detroit, no estado do Michigan. Tinha 76 anos e um cancro terminal no pâncreas. E pelo menos desde segunda-feira, quando a família fez soar o alarme sobre o seu grave estado de saúde, que sabíamos que iria ser assim. Mas “vai ser difícil imaginar a vida sem ela”, escreveu ontem a atriz e cantora Barbra Streisand.

Respeito e superação

A história de Aretha Louise Franklin, alicerçada na música, na religião e na política, confunde-se com a da América. Não será, por isso, de estranhar que tenha sido eleita para coroar três momentos inapagáveis da História: as tomadas de posse dos presidentes Bill Clinton e Barack Obama e, muito antes, o funeral de Martin Luther King, visita de casa.

Em 1968, quando o homem que tinha um sonho foi assassinado, a cantora, compositora e pianista consagrava-se a cantar o tema de Otis Redding que ela transformaria num hino mundial de superação e de luta pelos direitos civis dos negros e das mulheres, “Respect”. E por isso, em 2016, Obama escreveu um email a um jornalista da New Yorker a afirmar que “a história americana cresce quando Aretha canta”. E por isso Obama chorou, um ano antes, quando a ouviu cantar “A Natural Woman”. E por isso ontem Obama escreveu a mais comovente declaração de amor que um presidente americano pode escrever a uma mulher que transformou, como nenhuma outra, as dificuldades e a tristeza (dela e do país) em beleza e em esperança. Com um piano e uma voz únicas no soul, no gospel e no r&b.

“De cada vez que Aretha cantava, éramos abençoados com um vislumbre do divino. Na sua voz, podíamos sentir a nossa história, toda a história e em cada uma das suas matizes – a nossa força e a nossa dor, a nossa escuridão e a nossa luz, a nossa busca de redenção e o nosso respeito tão arduamente conquistado. Ajudou-nos a estar mais ligados uns aos outros, mais esperançosos, mais humanos. E por vezes ajudou-nos simplesmente a esquecer tudo o resto e a dançar.”

Se Obama fosse para uma ilha deserta, levaria um disco de Aretha. Porque ela o faz lembrar “o que é essencial em cada um de nós”. E se é para dançar, a sugestão é dele: “Rock Steady”.

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Comentários

Daniel on 18 agosto, 2018 at 4:09 #

É sempre interessante como Obama, apesar de ter feito gestões terríveis, ter favorecido o fortalecimento do Estado Islâmico, se aproximado de ditadores sanguinários e feito com que a economia americana quase parasse, surge para a mídia como se fosse uma espécie de santo.

Com Trump acontece justamente o oposto: faz um mandato excelente e é vilipendiado pela mesma mídia que ignorou o desastre que foi o mandatário anterior. Como se não fosse suficiente, distorce, mente, persegue e ainda acusa os críticos que conseguem sair da “matrix” da fake news que eles mesmos criaram.


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