As eleições do desencanto e do medo

Eleições 2018
Manifestantes protestam contra o Governo Dilma em Curitiba no dia 13 de março. Heuler Andrey AFP

As eleições brasileiras deste 2018, que despontavam como as de uma redenção da velha política para dar lugar a um novo ciclo de maior democracia e participação popular, aparecem, a menos de dois meses de ir às urnas, como as do desencanto e até do medo. E da maior incerteza desde os tempos da ditadura.

O desencanto dos brasileiros tem números: quase 60% dos cidadãos com direito a voto ainda não sabem se irão às urnas ou anularão. Até os candidatos que aparecem com maior consenso nas pesquisas apresentam, a começar por Lula, uma rejeição de 60%. É a primeira vez que, sem ele, que certamente não poderá disputar as eleições por estar condenado em segunda instância, quem lidera a corrida é um extremista de ultradireita, ex-capitão do Exército que escolheu como vice um general da reserva defensor da ditadura militar e da tortura. E pela primeira vez disputarão as eleições mais de cem militares.

A esquerda, que tinha esperanças de recuperar o poder, depois do inferno do impeachment de Dilma e do desastre do Governo Temer, encontra-se incapaz de se unir, paralisada pela incógnita de Lula ao não desistir da candidatura, o que impediu seu partido, o PT, de apostar num candidato progressista de outra agremiação, apoiado desta vez pelos seguidores de Lula. A ordem é ou ele ou ninguém.

O centro e a centro-direita se apresentam contaminados pela rejeição da sociedade, por se tratarem dos partidos mais sacudidos pela corrupção e alvo das condenações da Lava Jato, que de esperança de limpeza política se tornou uma incógnita e até fator de desestabilização da política.

Se as eleições de 2018 se apresentavam como esperança de início de um novo ciclo político que restabelecesse a economia e abrisse novos espaços para as reformas que nenhum Governo no passado teve a coragem de enfrentar, por serem impopulares, os brasileiros já olham para 2022, ao darem por perdido este pleito.

Mais ainda, sobre estas eleições se abatem já as nuvens negras de um novo impeachment caso Lula seja impedido de participar, já que foi cunhado o slogan “eleição sem Lula é fraude”, porque impediria 30% da população, a parcela que declara voto nele, de escolher o seu candidato. Na outra margem, ecoa também slogan inverso: “Eleição com Lula é fraude”, já que a lei da Ficha Limpa o impede de concorrer.

O máximo que os analistas políticos se atrevem a profetizar é que nunca, nos últimos 20 anos, uma eleição foi, semanas antes de ser disputada, tão incerta e com tanto desencanto e até medo, dois componentes dos quais o Brasil não necessita neste momento, com mais de 14 milhões de desempregados, uma economia fragilizada e o recrudescimento da violência com um triste balanço de 63.000 homicídios anuais, a maioria de jovens negros e pobres.

Tudo perdido? Não. A sociedade brasileira, apesar da crise política que a sacode, é viva e conta com uma democracia ameaçada, mas consolidada, e não perdeu a esperança de dar vida a uma substituição que, se não parecer possível desta vez, continua em germinação, porque junto com o desencanto pelos políticos não morreu a vontade por uma renovação que acabe com a velha república dos privilégios e das castas, para dar à luz uma nova primavera de democracia e bem-estar.

“Quiza un dia asi”:Uma das mais belas canções de Chabuca, autora de “Flor de la Canela” e “Fina Estampa”, sucessos também nas gravações de Caetano Veloso, que sempre deixou claro ser a notável  e saudosa peruana uma das maiores inspiradoras – como autora e como intérprete – do grande artista santamarense. Esta, Caetano nunca gravou, mas esta gravação de Chabuca Granda é a sua cara.

A versão de Eva, e coro afinadíssimo, em tom de Ofertório, também é simplesmente formidável.Confira as duas.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares) 

Presidiário, porém milionário

 

Em sua declaração à Justiça Eleitoral, Lula, ex-presidente e hoje presidiário, informou ter R$ 7,9 milhões em bens, registra o site jurídico Jota.

Trata-se, diz a Folha, de um patrimônio que cresceu 852% desde sua candidatura ao Planalto em 2006. Desse total, Lula tem R$ 6,3 milhões em planos de previdência privada.

É o terceiro candidato mais rico à Presidência –bem atrás dos dois primeiros, João Amoêdo e Henrique Meirelles, pelo menos em patrimônio declarado.

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Posted on 16-08-2018
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Eleições 2018 Lula
Protesto de apoiadores de Lula em frente ao TSE, em Brasília. EVARISTO SA AFP
Brasília

Desafiando a Justiça, alguns marqueteiros e até o que restou de oposição interna, o PT cumpriu o anunciado há meses e registrou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso em uma carceragem da Polícia Federal em Curitiba, como o seu candidato à Presidência da República. Trata-se de uma candidatura incerta, cujo desfecho mais provável seja terminar com a retirada de Lula da chapa em breve, por ter sua candidatura impugnada por conta de uma condenação em segunda instância pelos crimes de lavagem de dinheiro e corrupção passiva. 

O roteiro já começou a ser seguido nesta própria quarta-feira. Raquel Dodge, a procuradora-geral que também é o mais alto cargo do Ministério Público Eleitoral, pediu que o TSE  (Tribunal Superior Eleitoral) impugne a candidatura de Lula. Tudo isso apenas horas depois de 10.000 (conforme a polícia) a 50.000 (segundo os organizadores) de militantes e membros de movimentos sociais caminharem cerca de seis quilômetros pelas ruas de Brasília até a frente do tribunal, para que Fernando Haddad, vice oficial da chapa, Manuela D´Ávila, a vice não oficial, e a presidenta do partido, Gleisi Hoffmann, e a ex-presidenta Dilma Rousseff fizessem o registro da chapa do ex-presidente.

Com esse gesto do PT e com a contraofensiva de Dodge, começou a contar o prazo para que os pedidos de impugnação de candidatura sejam avaliados pelos órgãos competentes, uma corrida que no TSE termina, no máximo, em 17 de setembro. A pergunta que fica agora é: até quando o partido esticará a corda lutando por recursos, inclusive para além do TSE e recorrendo ao Supremo Tribunal Federal, e que consequências isso terá para as chances de sucesso na campanha de seu vice  Haddad, tido como plano B.

Pela Lei da Ficha Limpa, os condenados por tribunais colegiados não podem concorrer à eleição. Mas os defensores do ex-presidente entendem que ele poderia, sim, disputar o pleito. Tanto que, nos documentos enviados ao tribunal informaram que ele é ficha limpa, já que não possui nenhuma condenação judicial em São Paulo, o Estado em que tem domicílio eleitoral. Sua condenação ocorreu na Justiça Federal em Curitiba, onde responde a um dos processos da operação Lava Jato. O argumento para esse movimento é que a lei eleitoral só exige que o histórico legal do candidato no Estado em que ele é registrado é que precisam ser apresentados pela candidatura. Caberá a quem for pedir a impugnação apresentar a condenação em Curitiba. 

Para tentar convencer os ministros do TSE de que a candidatura de Lula é válida, os advogados já haviam preparado quatro argumentos contra impugnações: 1. O caso dele não foi transitado em julgado, não passou por todas as cortes e ainda tem chance de que a condenação seja revertida; 2. A Lei das Inelegibilidades prevê que, depois de terminadas as eleições e até a data da diplomação, é possível reverter a inelegibilidade obtendo uma medida cautelar; 3. Mesmo que tenha seu registro indeferido, Lula poderá disputar as eleições, apresentando recursos plausíveis contra essa decisão e; 4. O registro como candidato garante a ele o direito de fazer campanha e ter seu nome na urna mesmo que tenha sua candidatura questionada na Justiça Eleitoral.

O PT aposta firmemente na justificativa 3 porque entende que há reais chances de reverter qualquer decisão da Justiça Eleitoral com relação ao ex-presidente. “Sempre se garantiu a presença de candidatos sub judice nas urnas”, afirmou à TVT Luiz Fernando Casagrande Pereira, um dos advogados eleitorais de Lula. Pelas contas dele, nas eleições municipais de 2016, ao menos 145 prefeitos foram eleitos na mesma situação de suposta inelegibilidade. Desse total, 98 (70%) reverteram a sanção inelegibilidade após a eleição e antes da diplomação. Portanto, acabaram empossados.

O tribunal tem até 17 de setembro para julgar os registros das candidaturas. Mas, levando em conta os discursos e as entrevistas concedidas por duas importantes peças desse julgamento, a presidente do TSE, Rosa Weber, e da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, há a expectativa de que no caso de Lula a análise dos documentos e uma eventual impugnação da chapa ocorra de maneira célere. “A lei das inelegibilidades deve ser assegurada para que só os elegíveis concorram e os inelegíveis não financiem suas pretensões com recursos públicos. É tarefa da Justiça Eleitoral anunciar ao eleitor o quanto antes e com segurança jurídica quem são os reais concorrentes, ou seja, os que tem capacidade eleitoral passiva e podem ser votados segundo a lei vigente”, havia dito Raquel Dodge em discurso ainda na noite de terça-feira, quando Rosa Weber foi empossada como presidente da Corte. Ela não citou diretamente o caso Lula.

Weber, por sua vez, foi menos enfática e disse que eventuais impugnações de candidaturas presidenciais por serem fichas sujas poderiam ser examinadas de ofício, ou seja, sem que o Ministério Público ou outros partidos a questionassem. “Se não houve impugnação a resolução no sentido de que pode haver o exame de oficio. Não será impugnação, será indeferimento de oficio, compreensão de que não estão presentes condições de inelegibilidade ou causa de inelegibilidade. Falo em tese e observados termos legais”, afirmou a magistrada em entrevista coletiva após sua posse.

No caso de Lula ser impossibilitado de concorrer, os petistas devem substituí-lo por Haddad, ex-prefeito de São Paulo, que perdeu a reeleição municipal há dois anos já no primeiro turno. Neste cenário, o PT pretende transferir para ele ao menos boa parte das intenções de voto do ex-presidente, que lidera as pesquisas. Para o cargo de vice, a indicada seria a deputada estadual gaúcha Manuela D’Ávila, do PCdoB. Haddad já tem concedido entrevistas na qual parece ser o candidato de fato, o que tem desagradado parte da militância do PT que insiste em defender a candidatura Lula e de dizer que ele é um preso político. Por outro lado, sem ser o candidato formal, Haddad acabou excluído do primeiro debate de TV da campanha entre os presidenciáveis.

Série de atos

Militante do MST segura foto de Lula em protesto nesta quarta-feira, em Brasília.
Militante do MST segura foto de Lula em protesto nesta quarta-feira, em Brasília. Eraldo Peres AP

Enquanto a marcha caminhada organizada pelo PT e pelo Movimento Sem Terra ocorria em Brasília, Haddad, Gleisi e outra liderança petista, o governador mineiro Fernando Pimentel, preferiram ficar nos escritórios da sede do diretório nacional do partido conversando com parte da imprensa. Nas ruas, os principais gritos eram de “Lula livre” e a música mais cantada era a que serviu de jingle em todas as suas campanhas, o “Lula lá”. Enfim, tudo para gerar um farto material para ser usado em campanha eleitoral. No discurso em que informou aos militantes de que o registro da candidatura havia sido feito, Gleisi preferiu olhar para uma câmera instalada em um drone do que para os milhares de manifestantes que se concentravam em frente ao TSE.

“Acho que, mesmo que o Lula seja impedido injustamente de concorrer, podemos chegar ao segundo turno com o Haddad. Mas ele vai ter de se comunicar melhor. Nem entre nós, petistas, ele é tão conhecido, assim. Senti falta dele. Você viu ele por aí?”, perguntou ao EL PAÍS o sindicalista e membro do PCdoB Agamenon Prado, durante a caminhada.

Após o registro, no palco em frente ao TSE Haddad leu uma carta de Lula aos eleitores. Nela, o ex-presidente pede uma chance para, junto com o povo brasileiro, “consertar o país”. Diz um trecho da carta lida pelo seu candidato a vice: “Com meu nome aprovado na convenção, a Lei Eleitoral garante que só não serei candidato se eu morrer, renunciar ou for arrancado pelo Justiça Eleitoral. Não pretendo morrer, não cogito renunciar e vou brigar pelo meu registro até o final. Não quero favor, quero Justiça. Não troco minha dignidade por minha liberdade”.

Além da caminhada de militantes petistas e do MST, o PT realizou outros dois atos políticos para marcar a data de registro da candidatura de Lula. O primeiro foi o anúncio de que sua bancada de deputados e senadores apresentará onze requerimentos de oitivas ou pedidos de informações de autoridades que, no seu entendimento, prejudicaram o ex-presidente no episódio de prende e solta que o envolveu em 8 de julho.

O deputado federal Wadih Damous, um dos representantes das frentes jurídicas do PT para tentar liberar Lula, diz que a intenção dos requerimentos é apontar os responsáveis pela falta de equidade no julgamento de Lula com relação a outros presos. “Não estamos diante de um processo judicial. Estamos diante da utilização de um processo como arma de perseguição política. Quando dizemos que Lula é um preso político, estamos expressando o que está acontecendo no sistema de justiça: a seletividade, a não distinção mais entre julgador e acusador”.

O segundo ato foi o lançamento do livro “Caravana da Esperança – Lula pelo Nordeste”, que trata da caminhada que o ex-presidente fez meses antes de ser preso pelo juiz Sergio Moro. Na ocasião, o ex-prefeito Fernando Haddad disse que os atos a favor da libertação do ex-presidente persistirão. “Enquanto imperar a injustiça nós vamos estar em marcha para reconduzir o Lula à presidência da República”.

Resultado de imagem para Florisvaldo Mattos e a Revolução dos Alfaiates Tribuna da Bahia
Da Tribuna da Bahia, reproduzido pelo site blob Bahia em Pauta, da página do jornalista, professor e poeta Florisvaldo Mattos, em sua página no Facebook.

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SALVE, SALVE, POVO BAHIENSE!

Jornal “Tribuna da Bahia”, hoje caderno CIDADE, página 10, publica matéria cujo conteúdo realça o lançamento no próximo dia 24, às 18 horas, no IGHB (Piedade), de meu livro intitulado “A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates” sobre episódio famoso da história da Bahia, também chamado de Revolta dos Búzios, cujos 220 anos transcorreram precisamente no último domingo, dia 12.
Abaixo, o texto, o poema “Décimas da Liberdade e Igualdade”, declamado pelos revoltosos de 1798, a reprodução da página da TB, ilustração do enforcamento de revoltosos, capa do livro e cópia do convite distribuído pela ALBA para o lançamento do livro.

Texto do jornal:

Pelos 220 anos da também chamada Revolta dos Búzios, que abalou o morno cenário colonial-urbano da então Cidade da Bahia, em agosto de 1798, a Assembleia Legislativa da Bahia lançará no próximo dia 24, às 18 horas, em segunda edição, no Instituto Geográfico da Bahia, o livro intitulado A comunicação social na Revolução dos Alfaiates, de Florisvaldo Mattos, em que, deixando aos historiadores a parte essencialmente histórica, o autor aborda o que considerou ponto crucial, o papel da comunicação social na dita insurreição, que visava libertar o Brasil-Colônia do jugo colonizador de Portugal sob o primado de múltiplas bandeiras, tais como independência da Capitania, implantação da república, abolição da escravatura, igualdade para todos, livre comércio com as nações do mundo, interrupção de vínculo com a Igreja do Vaticano, instituição do trabalho remunerado, melhoria do soldo militar e garantias para os plantadores de cana, fumo e mandioca, assim como para comerciantes.
Calcula-se que centenas de pessoas estivessem engajadas no pretendido levante, todos em sua maioria pertencentes à mais reduzida condição social, mas, segundo os estudiosos, apenas 33 deles foram processados, sendo 11 escravos, seis soldados da tropa paga, cinco alfaiates, três oficiais militares, dois ourives, um pequeno negociante, um bordador, um pedreiro, um professor, um cirurgião e um carpinteiro, e, desses, desbaratado o movimento, como exemplo máximo de sofrimento, crueldade e tragédia, somente sobre quatro recaíram as penas de enforcamento, seguido de esquartejamento e exposição de despojos fixados em postes e espalhados por vários pontos da cidade, dois deles soldados (Luiz Gonzaga das Virgens e Lucas Dantas do Amorim Torres) e dois artesãos (João de Deus do Nascimento, mestre alfaiate, e Manoel Faustino dos Santos Lira, então oficial alfaiate, mas ex-escravo), livrando-se da punição severa um quinto personagem, Luiz Pires, também artesão, porque desaparecera, sem deixar rastros, numa Bahia colonial, cuja estrutura social se assentava no patriarcalismo e na economia escrava, com uma população estimada em menos de 200 mil habitantes, sendo 50 mil para o Recôncavo, menos de 60 mil para a Capital e menos de 100 mil para o resto da Capitania.
Baseado em fontes primárias e secundárias, em seu livro, o autor preferiu focar as suas lentes nas relações de comunicação que permitiram, seja no nível interpessoal, pela via oral, com predominância da conversa e do recado, seja no da comunicação manuscrita, com cartas, bilhetes e avisos, os revoltosos atuarem em dois planos: o da formação da consciência política e revolucionária e o da preparação para o levante, praticamente se esgotando nelas toda a engrenagem conspiratória, havendo, no entanto, um momento determinante que levou à frustração e ao fim trágico do movimento.
Foi quando, superando repentinamente as limitações da comunicação em círculo privado, na madrugada de 12 de agosto de 1798, a população foi surpreendida com uma série de textos manuscritos, em número de dez, afixados em locais públicos, para onde convergia grande número de pessoas, tais como portas de igreja, os chamados cantos do peixe, açougues, feiras de frutas e legumes, cais do porto, portas de quartéis, tendas de alfaiates e oficinas de artesãos, veiculando mensagens de conteúdo basicamente político-ideológico, em prol de uma reforma social. Deveu-se ao uso de um búzio de Angola, às vezes até preso na lapela, como uma das formas de identificação de conjurados, no trânsito diário por esses pontos, a opção posterior de se dar ao movimento a designação de Revolta dos Búzios, a preferida na atualidade.
A partir daí, deflagrada a perseguição, instalaram-se dois processos regidos por dois desembargadores fiéis à Corte de Portugal, um para investigação do que se passou a chamar “boletins sediciosos”, espalhados pela cidade, e outro voltado para a reunião de preparação para o levante, que fora convocada para o dia 25 seguinte, no então chamado Dique do Desterro, naquele tempo um lugar afastado e ermo.
Foi sobre tal nova forma de comunicação que Florisvaldo Mattos centrou a sua análise, considerando que esses dez “boletins sediciosos”, apesar de manuscritos, foram para os revolucionários e para o movimento “o seu jornal, seu instrumento de divulgação de ideias e definições para um público mais amplo, que extrapolava o circuito da conspiração até aquele momento” e assim, tendo em vista esse aspecto, tomou-os como a mais expressiva e inovadora forma de comunicação indireta utilizada pelos participantes da conjuração, desempenhando, para a época, o legítimo papel de jornal manuscrito, por meio do qual os conjurados difundiram as suas ideias e projetos de reforma social, com sublevação da ordem constituída, para um público indeterminado – chamado por eles de Povo Bahiense -, com características de comunicação pública, unilateral e indeterminada, como seriam alguns anos depois – no Brasil e na Bahia – os jornais impressos, a Gazeta do Rio de Janeiro, em 1908, autorizada por carta-régia de dom João VI, e Idade D´Ouro do Brazil, em 1811, na Bahia.
Motivos de uma das devassas que apuraram a conspiração, segundo ele, esses dez boletins sediciosos visavam, em essência, alcançar um público, uma coletividade de pessoas, em apoio do movimento. Dirigidos ao Povo Bahiense, cinco eram encabeçados como Aviso, um como Nota e quatro como Prelo, palavra que sintomaticamente fazia ressoar a técnica de impressão inaugurada por Gutenberg, que deu origem a toda a uma consagrada cultura editorial e gráfica no Ocidente. Sob o título de Aviso ao Povo Bahiense, eis uma dessas conclamações:

Ó vós Homens Cidadãos, ó vós Povos curvados e abandonados pelo Rei, pelos seus ministros.
Ó vós Povos que estais para serdes Livres, e para gozardes dos bons efeitos da Liberdade; Ó vós Povos que viveis flagelados com o pleno poder do Indigno coroado, esse mesmo Rei que vós criastes; esse mesmo rei tirano é quem se firma no trono para vos vexar, para vos roubar e para vos maltratar.
Homens, o tempo é chegado para a vossa Ressurreição, sim para ressuscitardes do abismo da escravidão, para levantardes a Sagrada Bandeira da Liberdade.
A liberdade consiste no estado feliz, no estado livre do abatimento; a liberdade é a doçura da vida, o descanso do homem com igual paralelo de uns para outros, finalmente a liberdade é o repouso, e bem-aventurança do mundo.
A França está cada vez mais exaltada, a Alemanha já lhe dobrou o joelho, Castela só aspira a sua aliança, Roma já vive anexa, o Pontífice já está abandonado, e desterrado; o rei da Prússia está preso pelo seu próprio povo: as nações do mundo todas têm seus olhos fixos na França, a liberdade é agradável para vós defenderdes a vossa Liberdade, o dia da nossa revolução, da nossa Liberdade e da nossa felicidade está para chegar, animai-vos que sereis felizes para sempre.

Na verdade, para o autor, esses boletins constituíram-se no mais vigoroso instrumento de divulgação dos revolucionários de 1798, como nítida compensação à inexistência de meios impressos, sustentando que, em face das precariedades técnicas da época, devem ser comemorados, senão como ato legítimo de imprensa, como seu alvissareiro embrião e prova coletiva de vontade redentora e modernizadora da Colônia do Brasil, 220 anos depois.

LIVRO
A Comunicação na Revolução dos Alfaiates
Florisvaldo Mattos
2ª Edição. Salvador: ALBA, 2018, 208, p.

FLORISVALDO MATTOS – Dados biográficos
Nascido em Uruçuca, antiga Água Preta do Mocambo, na Região do Cacau da Bahia, quando ainda distrito de Ilhéus, residindo depois em Itabuna, onde cursou no Ginásio da Divina Providência, e transferindo-se depois para Salvador, Florisvaldo Mattos diplomou-se em Direito, em 1958, mas optou pelo exercício do jornalismo, no mesmo ano, integrando inicialmente a equipe fundadora do Jornal da Bahia, como extensão da militância cultural de parcela do grupo nuclear da Geração Mapa, atuante, nos anos 1960, sob a liderança do cineasta Glauber Rocha. Foi professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde ministrou disciplinas e ocupou cargos na Faculdade de Comunicação, e foi presidente da Fundação Cultural do Estado da Bahia, de 1987 a 1989; jornalista, escritor e poeta, desde 1995 ocupa a Cadeira 31, da Academia de Letras da Bahia. Atuação em jornais: Jornal da Bahia, Estado da Bahia, Diário de Notícias, Jornal do Brasil (RJ); afastou-se do jornalismo em 2011, no cargo de Diretor de Redação do jornal A Tarde, de Salvador, onde antes editou por quase 14 anos o caderno “A Tarde Cultural”, premiado em 1995 pela Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA, na categoria de Divulgação Cultural. É autor dos seguintes livros: Reverdor, 1965, Fábula Civil, 1975, A Caligrafia do Soluço & Poesia Anterior, 1996 (Prêmio Ribeiro Couto, da União Brasileira de Escritores), Mares Anoitecidos, 2000, Galope Amarelo e outros poemas, 2001, Poesia Reunida e Inéditos, 2011, Sonetos elementais, 2012, Estuário dos dias e outros poemas, 2016, e Antologia Poética e Inéditos, 2017 (todos de poesia); Estação de Prosa & Diversos, (coletânea de ensaios, ficção e teatro, 1997); A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates, 1998 (1ª edição), e Travessia de oásis – A sensualidade na poesia de Sosígenes Costa, 2004, ambos de ensaio.

DÉCIMAS SOBRE A LIBERDADE E IGUALDADE

Mote

Igualdade e Liberdade
No Sacrário da Razão
Ao lado da sã Justiça
Preenchem meu coração.

Décimas

Se a causa motriz dos entes
Tem as mesmas sensações
Mesmos órgãos, e precisões,
Dados a todos os viventes,
Se a qualquer suficientes
Meios da necessidade
Remir com equidade;
Logo são imperecíveis
E de Deus Leis infalíveis,
Igualdade e Liberdade.

Se este dogma for seguido,
E de todos respeitado,
Fará bem aventurado
Ao povo rude, e polido,
E assim que florescido
Tem da América a Nação
Assim flutue o Pendão
Dos franceses que a imitaram
Depois que afoitas entraram
No Sacrário da Razão.

Estes povos venturosos
Levantando soltos os braços
Desfeitos em mil pedaços
Feros grilhões vergonhosos,
Juraram viver ditosos,
Isentos da vil cobiça,
Da impostura, e da preguiça,
Respeitando os seus Direitos,
Alegres, e satisfeitos,
Ao lado da sã Justiça.

Quando os olhos dos Baianos
Estes quadros divisarem,
E longe de si lançarem
Mil despóticos Tiranos
Quão felizes, e soberanos,
Nas suas terras serão!
Oh! Que doce comoção
Experimentam estas venturas,
Só elas, bem que futuras,
Preenchem o meu coração.

ago
16
Posted on 16-08-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 16-08-2018


 

Clayton, no jornal (CE)

 

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DO PORTAL DE NOTÍCIAS TERRA BRASIL

Depois de integrar a comitiva que entregou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o pedido de registro de candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência pelo PT, o ex-prefeito Fernando Haddad, que por enquanto integra a chapa petista como vice-presidente, começou a ler, do alto de um trio elétrico, uma carta do ex-presidente. Lula cumpre, na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba, pena de prisão de 12 anos e um mês por corrupção e lavagem de dinheiro.

Na carta, o ex-presidente insiste em classificar sua prisão como um “ato político” do juiz Sérgio Moro, a quem acusa de uso de “fake news” para condená-lo e tirá-lo da campanha eleitoral. “Sou vítima de uma caçada judicial que já está registrada na história”, diz Lula.

Presidente do PT, Gleisi Hoffmann protocolou candidatura de Lula ao lado de Haddad e Manuela D'Ávila

 
Presidente do PT, Gleisi Hoffmann protocolou candidatura de Lula ao lado de Haddad e Manuela D’Ávila

Foto: Walterson Rosa / Framephoto / Estadão Conteúdo

A seguir, a íntegra da carta do ex-presidente: 

“Registrei hoje a minha candidatura à Presidência da República, após meu nome ter sido aprovado na convenção do PT e com a certeza de que posso fazer muito para tirar o Brasil de uma das piores crises da história.

A partir dessa aprovação do meu nome pelas companheiras e companheiros do PT, do PCdoB e do Pros, passei a ter o direito de disputar as eleições.

Há um ano, um mês e três dias, Sérgio Moro usou do seu cargo de juiz para cometer um ato político: ele me condenou pela prática de ‘atos indeterminados’ para tentar me tirar da eleição. Usou de uma “fake News” produzida pelo jornal O Globo sobre um apartamento no Guarujá.

Desde então o povo brasileiro aguarda, em vão, que Moro e os demais juízes que confirmaram a minha condenação em segunda instância apresentem alguma prova material de que sou o proprietário daquele imóvel. Que digam qual foi o ato que eu cometi para justificar uma condenação. Mas o que vemos, dia após dia, é a revelação de fatos que apenas reforçam uma atuação ilegítima de agentes do Sistema de Justiça para me condenar e me manterem na prisão.

Chegou-se ao ponto em que uma decisão de um desembargador que restabelecia a minha liberdade não foi cumprida por orientação telefônica dada por Moro, pelo presidente do TRF4 e pela procuradora Geral da República ao Diretor-Geral da Polícia Federal.

Como defender a legitimidade de um processo em que conspiram contra a minha liberdade desde o juiz de primeira instância até a Procuradora-Geral da República?

Sou vítima de uma caçada judicial que já está registrada na história.

Tenho certeza de que se a Constituição Federal e as leis desse país ainda tiverem algum valor serei absolvido pelas Cortes Superiores.

A expectativa de que os recursos apresentados pelos meus advogados resultem na minha absolvição no STJ ou no STF é o que basta, segundo a legislação brasileira, para afastar qualquer impedimento para que eu possa concorrer.

Não estou pedindo nenhum favor. Quero apenas que os direitos que vem sendo reconhecidos pelos tribunais em favor de centenas de outros candidatos há anos também sejam reconhecidos para mim. Não posso admitir casuísmo e o juízo de exceção.

O Comitê de Direitos Humanos da ONU já emitiu uma decisão que impede o Estado brasileiro de causar danos irreversíveis aos meus direitos políticos – o que reforça a impossibilidade de impedirem que eu dispute as eleições de 2018.

Quero que o povo brasileiro possa decidir se me dará a oportunidade de, junto com ele, consertar este país.

A partir de amanhã, vamos nos espalhar pelo Brasil para nas ruas no trabalho, nas redes sociais, mas principalmente olhando nos olhos das pessoas, lembrar que esse país um dia já foi feliz e que os mais pobres estavam contemplados no orçamento da União como investimento, e não como despesa.

Cada um de vocês terá que ser Lula fazendo campanha pelo Brasil, lembrando ao povo brasileiro que nos governos do PT o povo trabalhador teve mais emprego, maiores salários e melhores condições de vida.

Que um nordestino que mora no Sul podia visitar sua família de avião e não somente de ônibus.

Que um pobre, um negro, ou um índio podia ingressar na universidade.

Que o pobre podia ter casa própria e comer três vezes ao dia.

Que a luz elétrica era acessível a todos.

Que o salário mínimo foi aumentado sem causar inflação.

Que foi posto em prática aquele que a ONU considerou o melhor programa de transferência de renda do mundo, beneficiando 14 milhões de famílias e tirando o Brasil do mapa da fome.

Que foram criadas novas universidades e novos cursos técnicos.

Para recuperar o direito de fazer tudo isso e muito mais é que sou candidato a Presidente da República.

Vamos dialogar com aqueles que viram que o Brasil saiu do rumo, estão sem esperança mas sabem que o país precisa resolver o seu destino nas urnas, não em golpes ou no tapetão.

Lembrar que com democracia, com nosso trabalho, o Brasil vai voltar a ser feliz.

Enquanto eu estiver preso, cada um de vocês será a minha perna e a minha voz. Vamos retomar a esperança, a soberania e a alegria desse nosso grande país.

Companheiras e companheiros, o Moro tinha até hoje para mostrar uma prova contra mim. Não apresentou nenhuma! Fato indeterminado não é prova! Por isso sou candidato.

Repito: com meu nome aprovado na convenção, a Lei Eleitoral garante que só não serei candidato se eu morrer, renunciar ou for arrancado pelo Justiça Eleitoral. Não pretendo morrer, não cogito renunciar e vou brigar pelo meu registro até o final.

Não quero favor, quero Justiça. Não troco minha dignidade por minha liberdade.

Um forte abraço,

Lula”

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