Resultado de imagem para Escrava Isaura Lucélia Santos

 

Resultado de imagem para Janio Ferreira Soares no jornal A Tarde

                   

CRÔNICA/ CACHORROS E VIDA

Alguns dos meus cachorros

Janio Ferreira Soares

Kid Nelson era um chihuahua invocadíssimo, como todo baixinho que se preza tende a ser. E a coisa agravou-se mais ainda pelo choque que o coitado levou ao morder a tomada da TV e provocar um curto-circuito bem na hora do último capítulo de Escrava Isaura, mais precisamente quando Leôncio suicidou-se, provocando a imensa ira de minha tia Iaiá que, politicamente incorreta e nem aí para seus olhinhos esbugalhados, aplicou-lhe umas boas chineladas por ter perdido Lucélia Santos, com a cabeça recostada no ombro de Edwin Luisi, dizendo: “ele não devia ter feito isso. É contra todas as leis de Deus”. Infelizmente, a poucos minutos da virada do ano, Kid assustou-se com os fogos e saiu correndo pela rua, vindo a falecer sob os pneus de um Chevette bege, naquele que foi um dos réveillons mais tristes da minha mocidade.

Baretta era um imponente pastor belga que viveu uma baita crise de identidade em seus primeiros meses. É que alguns amigos, incentivados por Otávio Américo (grande baixista do Mar Revolto), só o chamavam de Pazuzu, nome do demônio do filme O Exorcista, grande sucesso na época. Extremamente doce, a única vez em que Baretta lembrou o renegado foi quando Rivaldo, ainda estudante de veterinária, aplicou-lhe uma vacina de revestrés e ele, com a rapidez de um capeta, cravou-lhe os dentes bem naquela gordurinha que cai sobre a lateral do cós da calça quando o cinto aperta-o em excesso. No mais, ele foi-se quase banguela, coitado, apenas observando moscas e sonhando fisgá-las no ar, como nos tempos em que era tão forte e veloz quanto qualquer mocinho de caubói.

Finado Chicão (que é como Francisco ainda hoje é chamado por quem o conheceu), era um pastor alemão meio fake e um velho companheiro de caminhadas, mesmo após o fatídico dia de sua maior vergonha. Explico.

Certa vez, depois que o nível do rio baixou vários metros, ficou possível andar por lugares onde antes apenas nadávamos. Saltitante e empolgado por percorrer caminhos tão raros, ele deu um pulo numa borboleta pousada numa moita que, para sua desgraça, encobria uma enorme poça de lama. Completamente sujo e encabulado com as gozações, Chicão voltou pra casa e ficou pelos cantos com a cara amarronzada e cílios à milanesa, parecendo um cão de barro do Mestre Vitalino.

Se ainda tivesse espaço falaria de China, Branca e Alf, três vira-latas que cresceram com os meninos aqui no sítio, e de Pixote Jamaica, um querido pequinês, que adquiriu esse sobrenome já depois de velho, segundo as más línguas, por ter se viciado no som e nas coisas da terra de Bob Marley. Mas é melhor deixar essa história pra lá, pois têm muitos senhores respeitados envolvidos nisso. Agora, se me dão licença, Júlio e Edgar rosnam por um passeio. Fui!

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beira baiana do Rio São Francisco

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • agosto 2018
    S T Q Q S S D
    « jul    
     12345
    6789101112
    13141516171819
    20212223242526
    2728293031