Por Cauê Muraro, G1, Paraty

Fernanda Montenegro lê Hilda Hilst na abertura da Flip 2018 (Foto: Walter Craveiro/Divulgação) Fernanda Montenegro lê Hilda Hilst na abertura da Flip 2018 (Foto: Walter Craveiro/Divulgação)

 

Foi com uma apresentação emocionada de Fernanda Montenegro lendo trechos da obra da escritora Hilda Hilst (1930-2004), homenageada desta edição do evento, que a 16ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) começou na noite desta quarta-feira (25).

Com direção de cena de Felipe Hirsch, Fernanda esteve por cerca de meia hora no palco. Passou a maior parte do tempo sentada diante de uma mesa.

Mas, nos minutos finais, levantou-se. A última palavra que declamou foi “delicadeza”. Fez, então, um gesto indicando um abraço e logo as luzes se apagaram.

Quando se acenderam novamente, a atriz foi ovacionada e aplaudida de pé pelo auditório lotado. Com voz embargada, disse: “Maravilhosa Hilda Hilst. Inesgotável Hilda Hilst. Amada Hilda Hilst”.

Antes, havia lido trechos como estes, todos da poesia, da prosa ou de entrevistas de Hilda Hilst:

  • “Quero ser lida em profundidade, e não como distração, porque não leio os outros para me distrair, mas para compreender, para me comunicar, não quero ser distraída”;
  • “Eu sempre tentei me aproximar do outro, ainda que no decorrer da vida eu tenha tido medo dessa proximidade”;
  • “Não é todo mundo que consegue entrar no mundo da poesia”.

Mas o tom não foi só de reverência. Teve risos na plateia (como quando Fernanda leu coisas como “Exército Geriátrico de Extermínio”) e risinhos envergonhados (como quando leu passagens da conhecida vertente pornográfica da produção de Hilda).

‘Mulheres que mudaram a identidade brasileira’

Fernanda Montenegro subiu no palco após falas do arquiteto Mauro Munhoz, diretor-presidente da Associação Casa Azul, responsável pela Flip; da fundadora da Flip, Liz Calder; e de Joselia Aguiar, curadora da festa pelo segundo ano seguido.

Munhoz lembrou que a sessão de abertura da Flip 2018 junta teatro, música e literatura e tem dois atos: primeiro, com Fernanda Montenegro; depois, com a compositora Jocy de Oliveira. Ele lembrou que ambas são da mesma geração de Hilda.

 

“Em sua atuação artística e política, as mulheres dessa geração mudaram a identidade brasileira”, afirmou ele.

Já Joselia disse que a homengeada da Flip experimentou vários gêneros literários (poesia, prosa, teatro), publicou por editoras pequenas e era conhecida por público restrito. Mas atualmente, uma década e meia após a morte, tem sido cada vez mais assunto de trabalhos acadêmicos e críticas.

A curadora citou casos de pessoas que agora tatuam no corpo versos da autora, falando em “níveis de popularidade inéditos sem deixar de desafiar o leitor”.

‘Nós, mulheres, somos todas Hilda’

A abertura da Flip 2018 foi encerrada com dois números musicais compostos da maestrina, compositora e pianista Jocy de Oliveira.

Entre as apresentações, ela também falou sobre a temática da morte na obra da Hilda Hilst, que em certa fase da vida espalhou gravadores pela chácara onde morava em Campinas (SP), a famosa Casa do Sol, para tentar gravar sons de espíritos.

“Ao tentar se comunicar com outro mundo, Hilda dizia que conseguia algumas interferências de vozes desconhecidas, algumas bastante nítidas, outras bastante fracas”, contou Jocy.

“O segundo tema que me chama atenção [na obra de Hilda] é a ‘transgressão’. Hilda foi sem dúvida uma mulher transgressora, além de seu tempo. Enfrentou paradigmas de sua época, enfrentou a mídia, seus críticos, lançou seus textos pornográficos pelo desejo de ser lida.”

Jocy completou: “Ela nunca precisou se preocupar em ser uma mulher à frente de seu tempo, porque ela foi além de seu tempo”.

Ao falar sobre o poder dos textos da homenageada especialmente entre as leitoras, Jocy de Oliveira declarou: “Nós, mulheres, somos todas Hilda”.

No auditório da Praça, onde as mesas da Flip são transmitidas gratuitamente, a compositora foi bastante aplaudida após esta última frase.

Em seguida, foi mostrada uma versão de sua ópera “Medea solo”. De acordo com a compositora, o mito é mostrado na obra a partir “de um ponto de vista político” e retrata “questões extremamente pertinentes no mundo atual”.

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Comentários

Daniel on 26 julho, 2018 at 0:29 #

Nenhuma mulher é igual a outra. Bem cafona esse tipo de lugar- comum linguístico.


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