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Do velhodorio@60 para jucaboy@22

 

Janio Ferreira Soares

 

Rapaz, parece que foi ontem, mas naquele 21 de julho de 1996 em que eu fazia 38 e você alguns minutos de vida, o mundo ainda era analógico e girava na pegada da fita VHS que, sem nem desconfiar, registrou sua primeira storie.

O dia era um domingo, tal os domingos pré-iPhones costumavam ser, onde a parentada sempre chegava com panelas cheias de gordas delícias e baralhos nas mãos, enquanto avós inventavam mil brincadeiras para netos e agregados, que só findavam quando ninguém mais enxergava grama nem tronco de goiabeira, tudo acompanhado do sucesso do momento executado pelo É O Tchan, que de uma forma, digamos, didaticamente bizarra, orientava a meninada a botar a mão no joelho e dar uma baixadinha, mexendo gostoso, balançando a bundinha.

Lembro que quando lhe vi pela primeira vez passando no corredor da maternidade nos braços de nossa querida Dra. Jussara, o que mais me chamou a atenção foi a vermelhidão de seus lábios, a ponto de Julia, então com 6, cutucar Luiza, que acabara de fazer 7, e cochichar – num misto de inveja de quem perdera o título de caçula e de entusiasmo pelo irmão que acabara de chegar – um: “você viu, Iza, a boca dele parece um jambo!”.

Mas como eu ia dizendo, depois de 37 anos recebendo camisas sociais que nunca usei (me perdoe a confissão, tia Fernanda) e calções estampados que logo esgarçavam de tanto uso, eis que o destino resolveu que era hora de me presentear com algo que realmente valesse a pena e aí ordenou, com aquela voz que todo destino que se preza deve ter: “Vai, Dr. Anilton, recompense aquele coitado do calção puído, lhe dando de presente esse mimo que durante nove meses esteve embrulhado no quentinho da bolsa amniótica de Valéria e que, a partir de agora, fará com que seu pai nunca mais fuja das festinhas “surpresa” e da inevitável hora do é pique, é pique, é pique, diante de um bolo com quatro velas chamuscando idades distintas”.

Pois muito bem, desde o começo da Copa, eu e sua mãe montamos acampamento no sítio onde você cresceu, cuja forma, aos poucos, vai voltando aos bons tempos. As mangueiras, por exemplo, desandaram a florir e o laguinho já tem patos e piabas. O inverno é que não está ajudando muito, mas, com jeito, dá pra afastar as baronesas em volta da bomba e puxar uma aguazinha da beira do nosso rio, coitado, que assim como o amor da ciranda, também era pouco e se acabou.

Quanto à casa, já dá pra passar uma chuva. Semana passada livros e discos retornaram às estantes, panelas foram ariadas e colchões receberam um bom banho de sol. Agora só falta você chegar pra matar a saudade das paredes da sala, que não veem a hora de ouvir de novo um “rá-tim-bum, Juca!, Juca!, Juca!”. Nessa hora, se ninguém notar, estarei brincando de esconde-esconde. Te amo.

 

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, no lado baiano do Rio São Francisco.

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