Ganharam prestígio no torneio MIC (sigla em inglês de Copa Internacional do Mediterrâneo), que reúne todos os anos desde 2000 os melhores celeiros do planeta. Os rumores foram se tornando um clamor que percorria os estádios na província de Girona: o Brasil tinha uma dupla de garotos que transformavam cada jogo em uma festa de gols impossíveis, dribles espetaculares, controles delicados, passes exuberantes e um arsenal de assistências cúmplices executadas com precisão cirúrgica. Naquela seleção brasileira, estavam no banco outros dois jogadores que agora sonham em vencer a Copa do Mundo: o volante Casemiro e o goleiro Alisson.

Coutinho jogava no Vasco da Gama, era conhecido como Philippinho e disputava sua terceira edição do MIC: em 2006, com a seleção infantil, derrotou o Real Madrid com um gol de diferença na final, desatando um recital de futebol enquanto mantinha um impressionante duelo individual com o fogoso capitão madridista Dani Carvajal. Em 2007, Coutinho já usava a número 10 na seleção sub-15, e o Brasil venceu o Espanyol nos pênaltis na final. O responsável das categorias de base da CBF era Lucho Nizzo: um treinador por vocação obcecado para que jovens talentos completassem em seu país determinados ciclos de treinamento antes de emigrar. Nizzo trabalhou olhando no longo prazo e com muito cuidado na evolução de uma geração de jogadores nascidos entre 1988 e 1994: Marcelo, Willian, Renato Augusto… Em 2008, Neymar o deslumbrou: um atacante do Santos tão magro que lhe rendeu o apelido de “filé de borboleta”.

Nizzo lembra hoje com orgulho em conversa com o EL PAÍS: “Gostávamos da perspectiva de contar com jovens dotados de um potencial enorme, que poderiam ir muito longe se fossem trabalhados de forma correta. Coutinho era uma raridade. Tinha uma inteligência bem acima da média e era muito técnico. Pensava antes e melhor do que ninguém e gostava mais do passe do que do gol. Logo se deu bem com Neymar, que tinha fundamentos difíceis de ver no futebol de hoje, como a condução em alta velocidade, executando mudanças bruscas de direção com a bola presa ao pé. Já dominava os gestos técnicos e os dribles que vemos agora. Seu entrosamento com Coutinho era enorme. Só não faziam chover, porque o que faziam em campo era um absurdo, com muita qualidade técnica e velocidade de pensamento”. O Brasil passou como um festivo carnaval pelas primeiras fases do MIC. Nas semifinais, enfrentava o Konoplev, da Rússia, no Sant Antoni de Calonge. Com o gramado artificial transformado em uma lagoa pela chuva, os russos submeteram Neymar ao mesmo tipo de caça seletiva que hoje enfrenta em qualquer jogo da Copa.

Nenhuma reclamação saiu de sua boca. Nem um único protesto ou exagero como os que agora criam polêmica nos estádios russos. Alvo de muitas faltas, não terminou o jogo. Empate em 1 a 1. O gol brasileiro foi marcado por Coutinho, com um chute inteligente da entrada da área. O Brasil venceu nos pênaltis, com o vascaíno marcando seu gol com classe. Neymar acabou congelado de frio e chorando de dor no vestiário sob os cuidados dos fisioterapeutas.

Em 23 de março de 2008, em Palamós, o Brasil enfrentava na final outro forte time russo, o Lokomotiv, que acabou sucumbindo à superioridade técnica da seleção canarinha em que Neymar e Coutinho tiveram outra atuação brilhante. O Brasil venceu por 1 x 0. No dia seguinte, a imprensa catalã destacava o surgimento de uma parceria que não se podia perder de vista, pois, naquela manhã, Coutinho e Neymar encheram o gramado de Palamós de beleza e traços raros. “Jogaram com personalidade impressionante e combinando com uma química especial”, lembra Nizzo. “Gritava para que Neymar não driblasse, que estavam batendo muito nele, que tocasse… Respondeu que, quanto mais lhe chutassem, mais iria enfrentá-los com a bola.”

Juanjo Rovira, diretor do MIC, lembra o impacto gerado pela presença de Neymar: “Uma expectativa enorme. Havíamos credenciado muita gente da imprensa e muitos caça-talentos de clubes europeus. Neymar esteve perto de assinar com o R. Madrid em 2004, e isso funcionou como um chamariz. Com ele, chegava Coutinho. Nós os chamávamos de Zipi e Zape, porque estavam todo o dia juntos. O torneio para os brasileiros não foi apenas um banco de ensaio. Também uma grande vitrine de mercado para os jogadores”.

Toni Lima trabalha hoje como um experiente olheiro do Manchester United. Ex-jogador por Andorra, em 2008 foi secretário técnico do Ibiza, clube com o qual assinou um convênio de colaboração com o Inter de Milão para identificar jovens talentos. Lima também colaborava com a CBF e examinava com olho clínico a evolução de cada garoto que chegava ao torneio. Alguns parágrafos do relatório exaustivo que Lima escreveu em 2008 para o Inter, no litoral catalão, representaram um entusiástico aviso de que, na sub-17, uma parceria muito frutífera estava sendo modelada: “Coutinho e Neymar são dois polos opostos em termos de personalidade. O primeiro é tímido e quieto. O segundo, altamente extrovertido, com forte caráter competitivo e capacidade de puxar o grupo. Conectam-se maravilhosamente dentro e fora do campo. É algo comum em categorias de base, onde bons jogadores se identificam, se reconhecem e buscam um ao outro”. O Inter contratou Coutinho no ano seguinte, pagando 2,5 milhões de euros (cerca de 11,5 milhões de reais no câmbio atual) ao Vasco. Neymar continuou no Santos. E juntos continuaram crescendo nas seleções de base brasileiras.

Agora, com 26 anos, são os dois jogadores mais caros do planeta e o melhor trunfo para que o Brasil consiga o hexacampeonato. “Evoluíram em dois aspectos”, diz Nizzo. “No físico, porque ganharam massa muscular, e taticamente, porque na Europa adquiriram fundamentos e compreensão do jogo. De resto, são quase iguais como em 2008. E continuam buscando. Neymar vai crescer nos momentos decisivos. Sempre fez isso. E Coutinho trabalha muito para a equipe em uma função complicada, que está cumprindo perfeitamente na Rússia.”

Dezoito dos 23 convocados por Tite para a Copa do Mundo passaram pelas categorias de base da seleção. Um número recorde. Tite agora colhe os frutos de um bom trabalho feito por outros técnicos menos conhecidos, aos quais o Brasil deve reconhecimento. São os guardiões de suas essências.

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