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O Brasil subindo a ladeira de Finelon

Janio Ferreira Soares

Manhã de 12 de junho, dia dos namorados e da penúltima noite da trezena de Santo Antônio da Glória. Fogos e sinos convocam para a missa das sete, onde logo mais as tias que me restam comungarão por elas e por mim, fato que me dá um certo alívio de que, se Céu existir, este velho herege que prefere malte à hóstia poderá ser acolhido nas escadarias do paraíso por algum arcanjo torto tocando Stairway To Heaven numa harpa envenenada.

Às vésperas da estreia do Brasil na Copa, poucos são os carros com bandeirinhas tremulando nas janelas que, pela anemia das cores, desconfio sobejos dos 7×1 ou de 2010, quando a coitada da jabulani andou sendo maltratada como nunca nos verdes campos da África do Sul. Ruas enfeitadas? Uma aqui, outra ali. Asfalto pintado? Só nas faixas de pedestres e nos absurdos quebra-molas atestando um atraso que remete à corrente pra frente de 70.

Validando o marasmo, o Datafolha informa que o desinteresse pela Copa bate recorde e que 53% dos brasileiros não estão nem aí pra Neymar e companhia. Macaco velho, me lembro do cordel A Briga na Procissão, do poeta Chico Pedrosa, onde ele conta que numa encenação acontecida na Semana Santa, um centurião completamente bêbado chicoteava de verdade o lombo de Jesus, interpretado por Quincas Beija-Flor. Todo encalombado e sem aguentar mais, Quincas pegou ar e disse que se ele não parasse de bater o pau ia cantar, recebendo de volta um: “que Cristo frouxo é você que chora na procissão? Tu vai ver o que é bom na subida da ladeira da venda de Finelon. O couro vai ser dobrado e daqui até o mercado a cuíca muda o som!”.

Tarde de domingo, 17 de junho. Uma chuva fina em nada atrapalha as mais de quatro mil pessoas no Ginásio de Esportes de Paulo Afonso. Como na ameaça do centurião, vejo que a cuíca já mudou o tom e agora o que vale é cerveja na mão e selfies com a imagem do super telão de led ao fundo. Diante de tanta tecnologia, impossível não lembrar da presepada feita por meu pai nas quartas de final da Copa de 1954.

Dono do único aparelho potente de ondas curtas de Glória, ele foi até o sítio de Zé Ferreira para captar melhor o sinal da Radio Nacional e, ao contrário do combinado com a turma que ficara tomando umas no bar de seu Miguel, soltava foguetes a cada gol da Hungria, para vibração dos bebinhos em festa.

Meio-dia de sexta-feira, 22 de junho. Com a dramática vitória de 2 x 0 sobre a irritante Costa Rica, a cuíca sobe mais um tom e a ladeira de Finelon se descortina. Abro uma Heineken, derramo um pouco pro velho e ergo um brinde a Detinho, Alaor, Lindemar, Delcik e toda uma geração que viveu num tempo onde o humor goleava rancores e as fake news eram apenas brincadeiras propagadas através de sons de foguetes estourando no ar.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beira baiana do Rio São Francisco

 

 

 

 

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