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São Paulo / Brasília
Ciro Gomes, em debate em Brasília.
Ciro Gomes, em debate em Brasília. EVARISTO SA AFP

 

O ex-governador do Ceará, Ciro Gomes (PDT) aproveita-se do bom momento que o rodeia e está na batalha para se consolidar como o nome mais viável da centro-esquerda para as próximas eleições presidenciais. Nas últimas semanas, sua candidatura começou conversas discretas com PP, DEM e PR, partidos do espectro da direita que buscam uma saída para evitar ficar na oposição durante o próximo Governo e começam a ver o nome de Ciro como promissor. Ao mesmo tempo, tenta atrair mais à esquerda o PSB, competindo com o PT pelo apoio da sigla.

Ciro ganhou um impulso nas últimas semanas, especialmente depois de sua participação no programa Roda Viva, na TV Cultura, no final de maio, quando seu nome chegou aos trending topics do Twitter. Um levantamento feito pela Diretoria de Análise de Políticas Públicas (DAPP) da Fundação Getúlio Vargas há duas semanas aponta que sua presença no debate sobre os pré-candidatos tem aumentado de forma consistente nas redes sociais. O ex-governador do Ceará se apresenta atualmente como o terceiro com maior volume de referências. Está ainda muito atrás de Luiz Inácio Lula da Silva e de Jair Bolsonaro, mas à frente de Manuela D’Ávila (PCdoB) e de Guilherme Boulos (PSOL), que haviam expandido suas presenças no Twitter pelo apoio associado a Lula. “Pela primeira vez Ciro Gomes surge como foco de críticas no grupo azul [ligado a perfis de direita]. Isso demonstra uma preocupação com o pré-candidato, que passou a ser visto como um competidor mais forte na corrida eleitoral após sua aparição no programa”, afirma o texto do DAPP.

“A gente está no jogo”, comemora o presidente do PDT, Carlos Lupi, responsável pelas articulações políticas da campanha de Ciro, em conversa com o EL PAÍS. “Estamos na fase de solidificação da candidatura e é natural que se comece a ter uma consciência de que ele é o mais viável das forças populares de centro-esquerda”, afirma ele, que ressalta que as conversas com o PSB estão avançadas e “têm tudo para dar certo.” As pesquisas apontam que Ciro é, neste momento, o único nome da esquerda com viabilidade além de Lula, líder das pesquisas, que pode ter sua candidatura impugnada pela Lei da Ficha Limpa após ter sido condenado em segunda instância a 12 anos de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro pela Operação Lava Jato.

O levantamento Datafolha mais recente, divulgado no domingo, dia 10, apontava que, na ausência de Lula, Ciro aparecia com 10% das intenções de voto, bem à frente de Fernando Haddad, uma das opções petistas para substituir Lula (1%), Manuela D’Ávila (2%) e Guilherme Boulos (1%). Com o ex-presidente na disputa, seu desempenho cai para 6%. O impacto é maior especialmente no Nordeste, onde sem Lula ele alcança 13% das intenções de voto e cai para 7% quando o nome do petista é testado. Lula, entretanto, se mostra como um forte transferidor de voto. Por isso, o ideal para que a estratégia de Ciro decole é que o PT, diante de uma eventual impugnação da candidatura Lula, desista de ter um nome próprio na disputa de outubro e o apoie, algo defendido por uma parte do partido, mas que, neste momento, se mostra pouco viável.

Os desafios

Ciro enfrenta obstáculos importantes em sua campanha. O primeiro deles são as falas polêmicas. Em entrevista à Rádio Jovem Pan nesta segunda-feira, ele chamou o vereador de São Paulo Fernando Holiday, do DEM, partido que pode apoiá-lo, de “capitãozinho do mato”. Nesta terça-feira, discordou de forma nervosa do formato de um painel feito com pré-candidatos pela Associação Mineira de Municípios, que limitava a três minutos o tempo de duas respostas a que teria direito. Segundo relato do jornal Correio Braziliense, ele se irritou ao ser interrompido durante a primeira resposta e, depois, de o segundo questionamento ser sobre o mesmo tema do anterior. Deixou o debate antes das considerações finais e acabou vaiado.

Depois, a falta de força no Sudeste, o maior colégio do país, com 43,6% do eleitorado —na região, ele chega a 9% das intenções de voto, em um cenário sem Lula, e a 6%, com Lula. E, por último, a resistência do mercado a seu nome: segundo a avaliação de 97% dos investidores ouvidos pela XP Investimentos há duas semanas, Ciro é apontado como alguém que contribuiria paras “desfechos negativos” para o Ibovespa por atacar as reformas propostas pelo governo Michel Temer e o teto de gastos públicos.

O ex-governador se defende ao afirmar que revogaria a PEC do teto de gastos porque ela impacta, segundo ele, a expansão de serviços públicos. “Não vamos mais atualizar os carros da polícia? Não temos como expandir o serviço!”, destacou em uma sabatina do jornal Correio Braziliense. “Fui ministro da Fazenda, comandei a economia do Brasil, governei o oitavo Estado brasileiro em população, a quinta maior cidade do Brasil e não tenho um dia de déficit na minha longa história. Pelo contrário, como governador do Ceará fui ao mercado e comprei com 15, 20 anos de antecedência 100% das dívidas do tesouro cearense. Por que esse mercado vai tirar de mim a suspeição de que não sou austero?”, ressaltou ele.

Apesar de Lupi negar que já tenha havido qualquer conversa oficial com os partidos de centro-direita até agora, o fato é que uma aliança com o DEM, o PP e o PR poderiam ajudar Ciro em relação a seus dois últimos problemas. Estes partidos são mais amigáveis ao mercado, o que poderia acalmar mais os analistas da área econômica. E eles poderiam oferecer como vice um nome do eixo Rio-São Paulo e da área empresarial, como o de Benjamin Steinbruch, filiado ao PP-SP, que deixou seu cargo na Federação da Indústria do Estado de São Paulo (Fiesp) para se colocar à disposição do pedetista.

Depois de um mal-entendido na semana passada, em que Ciro defendeu a aliança com PSB e PCdoB para garantir a “hegemonia moral e intelectual” de sua chapa à presidência, o presidenciável precisou se desculpar com os partidos de centro que sinalizaram uma aproximação com vias à disputa presidencial. A retratação foi aceita e, entre terça e quarta-feira desta semana, ele deve se reunir com lideranças do PP, SD, DEM e PSC em Brasília para dar mais um passo nessa aproximação.

Conforme o presidente do Solidariedade, o deputado Paulo Pereira da Silva, o objetivo inicial desse grupo ligado ao Centrão, um grupo que se organizou em torno do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha e foi um dos patrocinadores do impeachment, era tentar viabilizar uma das candidaturas que já estão postas. Mas nenhum dos nomes chegou aos 2% de intenções de votos. “Como nenhum dos nossos está decolando, temos de abrir a negociação com outras candidaturas viáveis. É nesse cenário que apareceram os nomes do Ciro e do Geraldo Alckmin [PSDB]”.

Apesar de também haver uma sinalização ao nome de Alckmin, Silva acredita que ele estaria mais distante de receber o apoio do Centrão. “De zero a dez, o Ciro tem sete, o Alckmin os outros três”. A data-limite para a declaração desse apoio é 10 de julho, dias antes das convenções que oficializam as candidaturas.

O Centrão não quer ser oposição ao próximo presidente e “vende” como moeda de troca 23% do tempo de propaganda em rádio e TV e apoio direto de 120 deputados federais da atual legislatura. A única maneira de esse grupo estar de fora de um eventual segundo turno, em um primeiro momento, seria se os concorrentes fossem Jair Bolsonaro (PSL) e Marina Silva (REDE). “Ele é de extrema direita, e não queremos isso para o país. E ela não tem nada a ver com nosso grupo político”, diz Silva.

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  Assedio sexual mulheres Copa do MundoRepórter é agarrada por torcedor na praça Manege, em Moscou. Reprodução

Festa popular, promovendo o encontro e a congregação de etnias diversas, regada a cerveja, vodka, empolgação e gritos de gol. Ao mesmo tempo em que comprova sua dimensão festiva e multicultural a cada quatro anos, a Copa do Mundo masculina de futebol também expõe o caráter universal do machismo. Mal começou e o evento já registra casos de homens, de diferentes nacionalidades, assediando mulheres que circulam pelas cidades-sede na Rússia, sobretudo profissionais de imprensa

Antes mesmo do início da Copa, Julieth González Therán, enviada especial da Deutsche Welle a Moscou, foi agarrada à força e beijada no rosto por um homem de boné, na praça Manege, enquanto fazia uma transmissão sobre a contagem regressiva para a cerimônia de abertura. No estúdio, diante do constrangimento da repórter colombiana, a apresentadora Ana Plasencia desabafou, questionando as medidas de segurança tomadas pela Rússia para receber o Mundial: “Percebo que os torcedores tomam a liberdade de distribuir beijos sem pedir permissão”. Para poder terminar a transmissão, Therán teve de ser cercada por pessoas que presenciaram o assédio e a protegiam de novas investidas. Em seu perfil no Instagram, ela se pronunciou exigindo respeito. “Não merecemos esse tratamento. Somos igualmente competentes e profissionais. Compartilho a alegria do futebol, mas devemos identificar os limites entre afeto e assédio.”

No jogo entre Argentina e Islândia, fora do estádio de Nizhny Novgorod, um torcedor islandês fantasiado ameaçou interromper com gracejos a entrada ao vivo da repórter Agos Larocca, da ESPN, mas foi impedido por um produtor. Em frente a um dos portões de saída, a reportagem do jornal Superesportes registrou o momento em que dois torcedores argentinos assediaram e tentaram roubar um beijo de uma compatriota jornalista, que precisou se defender com o braço e o microfone para brecar a aproximação dos agressores.

Brasileiros também protagonizaram outro episódio de assédio em solo russo. Em vídeos que viralizaram no último sábado, um grupo de torcedores com camisas do Brasil debocha de uma mulher  que, de acordo com informações compartilhadas nas redes sociais, seria uma repórter local e não entendia o português  cantando palavras obscenas e depreciativas. Entre os integrantes da trupe está o advogado Diego Valença Jatobá, ex-secretário de Turismo de Ipojuca, cidade da região metropolitana de Recife.assedio torcedores brasileiros machismoÀ esquerda, torcedor islandês constrange repórter. Ao lado, brasileiros ridicularizam mulher na Rússia. Reprodução

 No começo de junho, o Itamaraty e o Ministério do Esporte lançaram um guia recomendando a torcedores gays que evitassem demonstrações públicas de afeto na Rússia, por causa da intolerância a LGBT’s no país-sede da Copa. Porém, não havia instruções para os homens brasileiros sobre como se comportar diante de uma mulher ao longo do evento. Em maio, a Associação do Futebol Argentino (AFA) resolveu agir nesse sentido. Mas, em vez de prevenir, reforçava o machismo com uma cartilha distribuída a jornalistas em que indicava as melhores práticas para conquistar mulheres russas. “Trate a mulher como alguém de valor, com ideias e desejos próprios”, pregava uma das orientações.

O campo fértil do assédio no futebol

Quando a Copa foi disputada no Brasil, em 2014, mulheres da imprensa também sofreram com abordagens machistas. A repórter Sabina Simonato, da Rede Globo, por exemplo, acabou assediada em duas oportunidades. Na primeira delas, ela foi beijada no rosto por um torcedor croata enquanto transmitia informações da Avenida Paulista, em São Paulo. Depois, às vésperas do jogo entre Alemanha e Portugal, o beijo veio de um funcionário da Casa de Portugal, no bairro da Liberdade, onde torcedores portugueses se reuniriam para assistir à partida. Colega de Simonato na Globo de Porto Alegre, a repórter Luciane Kohlmann, rodeada por torcedores holandeses, viu dois deles tomarem a liberdade de beijar sua bochecha.

Embora encarados por muitos como brincadeira, os ataques de fãs de futebol a jornalistas já não são mais tolerados por mulheres que, a duras penas, tentam conquistar seu espaço em um meio tradicionalmente machista. Em março, na cobertura ao vivo do jogo entre Vasco e Universidad de Chile, pela Copa Libertadores, no Rio de Janeiro, a repórter Bruna Dealtry, do canal Esporte Interativo, foi beijada à força por um torcedor vascaíno. Constrangida, ela se limitou a dizer no ar que a atitude “não foi legal”, mas continuou a transmissão. O episódio, somado a outras agressões sofridas por mulheres da crônica esportiva nos estádios, ajudou a desencadear a campanha #DeixaElaTrabalhar, encabeçada por um grupo de 50 jornalistas brasileiras.

Antes da Copa do Mundo, no fim de abril, um caso de assédio chamou a atenção no México. Maria Fernanda Mora, repórter da Fox Sports local, informava sobre a festa do título do Chivas Guadalajara na Concachampions 2018 até ser apalpada nas nádegas por um torcedor. Ela reagiu ao abuso golpeando com o microfone o agressor, que passou a insultá-la. Assustada com a repercussão na mídia, que descrevia sua reação como exagerada, Mora divulgou uma carta cobrando que o caso não fosse tratado como um simples arrimón  expressão utilizada no México quando um homem encosta o pênis em uma mulher na rua ou no transporte público, de tão comum que se tornou esse tipo de assédio no país.

Nas redes sociais, outros torcedores passaram a atacá-la afirmando que ela havia “forçado a barra” ou que merecia ser estuprada. “Não me arrependo da forma como me defendi porque nós, mulheres, não vamos deixar e não vamos nos calar. É preciso deixar muito claro: o problema sempre é o agressor, e não nosotras”, escreveu. Assim como no Brasil, a violência sofrida por Mora motivou uma campanha de jornalistas contra o assédio sexual. Elas usaram as hashtags #NoMeToques e #UnaSomosTodas para denunciar ofensas machistas nos estádios mexicanos.

 

Ademilde Fonseca e Baby Consuelo: almas gêmeas da música brasileira, uma na saudade e a outra em plena forma na voz e na interpretação. Duas versões de um samba genial. Escolha a sua. E cante com elas para ver se a seleção de Tite acorda e vai pras cabeças.

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

Deputada Simone Santana (PSB) faz ato de repúdio a vídeo em que grupo de brasileiros constrangem estrangeira na Rússia (Foto: Marina Meireles/G1) Deputada Simone Santana (PSB) faz ato de repúdio a vídeo em que grupo de brasileiros constrangem estrangeira na Rússia (Foto: Marina Meireles/G1)

Deputada Simone Santana (PSB) faz ato de repúdio a vídeo em que grupo de brasileiros constrangem estrangeira na Rússia (Foto: Marina Meireles/G1)

 O vídeo também motivou uma nota de repúdio da Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco (OAB-PE). O assunto chegou à Alepe levado pela presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, Simone Santana (PSB), e gerou debate entre os parlamentares.

“Eles agiram como se a mulher que estava lá fosse alguém menor, como se fosse um brinquedo deles. Apesar de ter sido um momento de brincadeira, aquilo acabou externando um sentimento intrínseco dele [o ex-secretário]”, comentou a deputada. A parlamentar também assinou, em nome de seu gabinete, um voto de protesto em relação à situação.

 

Ex-secretário de Turismo de Ipojuca e advogado Diego Jatobá aparece ao lado direito da mulher (Foto: Reprodução/Internet) Ex-secretário de Turismo de Ipojuca e advogado Diego Jatobá aparece ao lado direito da mulher (Foto: Reprodução/Internet)

Ex-secretário de Turismo de Ipojuca e advogado Diego Jatobá aparece ao lado direito da mulher (Foto: Reprodução/Internet)

Durante a sessão, o assunto foi repercutido pelos deputados presentes, como a deputada Teresa Leitão (PT). “Fico imaginando se essa situação acontecesse com uma filha, com a esposa, a namorada, com a mãe de algum deles. Esse é um comportamento que precisamos combater”, afirmou a deputada.

O deputado Edilson Silva (PSOL) também demonstrou repúdio ao vídeo, mesmo sem estar ciente da circulação na internet. “Soube através da discussão aqui na casa, mas desaprovo o comportamento das pessoas que aparecem nas imagens. Tenho quatro filhas e tento combater ao máximo esse tipo de postura”, disse o parlamentar.

Rodrigo Novaes (PSD) afirmou conhecer o ex-secretário de Turismo de Ipojuca. “Ele é um homem bom, mas errou e está sendo julgado pelos seus erros”, declarou o deputado.

OAB-PE divulga nota de repúdio

Por intermédio da Comissão da Mulher Advogada, a Ordem dos Advogados do Brasil em Pernambuco também divulgou, nesta segunda (18), uma nota onde “repudia veementemente o conteúdo” do vídeo.

No texto, a entidade diz que “a preconceituosa atitude é causa de vergonha para todos nós, brasileiros, e vai na contramão do atual contexto de luta contra a desigualdade de gênero, em que cada dia mais as instituições públicas e privadas estão em busca de soluções conjuntas para que nenhuma mulher sofra qualquer tipo de violência ou discriminação pelo fato de ser mulher”.

Partidos

De acordo com o cadastro de filiados a partidos, disponível para consulta no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o nome de Diego Valença Jatobá aparece nas listas do Democracia Cristã (DC) e do Partido Socialista Brasileiro (PSB).

O G1 procurou os dois partidos e, por telefone, a assessoria do PSB informou que ele está com a filiação suspensa desde março de 2017, por não ter realizado um recadastro obrigatório. O presidente do DC em Pernambuco, José Geraldo Lins de Queiroz, afirmou que Jatobá já foi, mas não é mais filiado à legenda.

O G1 tentou contato com Diego Jatobá, mas não obteve retorno.

Lula na Copa é uma chuva de clichês

 

Lula enviou ao programa de José Trajano na TV do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC suas impressões sobre a estreia do Brasil na Copa, o 1 a 1 contra a Suíça.

Fiquem com o melhor da sabedoria futebolística do ex-presidente e presidiário:

“O jogo de estreia da seleção demonstrou uma máxima do futebol que sempre repetimos: treino é treino, jogo é jogo.”

“O fato é que não jogamos bem e o adversário fez o que tinha de fazer, que era impedir o jogo do Brasil.”

“Vamos nos preparar para a próxima, na sexta-feira, sem menosprezar a Costa Rica. Afinal, todos sabem que um dia o pequeno Davi venceu o gigante Golias.”

Assim como o Brasil na estreia, Lula deixou a desejar. Um gerador automático de comentários-clichê sobre futebol talvez fosse mais divertido.

jun
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Posted on 19-06-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 19-06-2018


 

Mariano, no portal de humor

 

Tom C. Avendaño

  • TLula comentarista Copa do Mundo TrajanoO ex-presidente Lula, em 1 de março deste ano. NELSON ALMEIDA AFP

Luiz Inácio Lula da Silva, o primeiro ex-presidente do Brasil a ir para a prisão por corrupção e, mesmo assim, de acordo com as pesquisas, o favorito indiscutível para a maioria dos eleitores para assumir a presidência nas eleições de outubro, para desgraça do resto das elites políticas do país, tem uma nova ocupação: comentar a Copa do Mundo Rússia 2018 na televisão. Seu amigo, o veterano jornalista esportivo José Trajano, Ultrajano em seus vários perfis online, anunciou nesta semana nas redes sociais que, a partir desta segunda-feira, o presidente dará sua opinião sobre as idas e vindas da seleção brasileira no programa Papo com Zé Trajano, da TVT. Conseguir isso em um país em que é ilegal entrevistar presos requer um esquema bem tramado: Lula vai acompanhar os jogos na televisão que tem em sua cela – um dos privilégios de que desfruta por ser ex-presidente – e escreverá suas opiniões em cartas, pois a lei permite que prisioneiros mantenham correspondência com amigos (não é preciso ser procurador-geral para aceitar que Ultrajano é amigo de Lula: basta vê-los em qualquer um dos muitos programas que gravaram juntos, ou também os vídeos em que Ultrajano, já sozinho, pede que Lula volte à presidência). Assim que a carta for recebida, o apresentador lerá as opiniões do ex-presidente ao vivo.

A decisão é no mínimo incomum, tanto para um aspirante a candidato à presidência quanto para um político preso pela sentença mais polêmica do amplo catálogo de vereditos por corrupção no Brasil. Os muitos inimigos de Lula atribuem isso ao seu egocentrismo; seus seguidores, não menos numerosos, ao realismo mágico que se empenham em projetar sobre o ex-presidente e seus dois mandatos, entre 2002 e 2010, quando o Brasil cresceu de forma grandiosa e milhões de pessoas deixaram a pobreza extrema. Mas também é provável que a decisão venha da terceira característica mais marcante de Lula: sua astúcia política. Da prisão ele não pode comentar a atualidade política ou ser entrevistado; ao mesmo tempo, existe a velha teoria de que no Brasil as eleições são ganhas por aquele que passa mais tempo na televisão. Nesse dilema, a Copa do Mundo é uma desculpa perfeita para passar sob os holofotes um tempo do que seus adversários não têm. É o golpe perfeito, aperfeiçoado por um último detalhe. Se quisesse, Lula poderia alegar que comentar a Copa do Mundo é um trabalho e pedir a redução da pena. Dificilmente o conseguiria, mas a cara de seu inimigo, o juiz Sérgio Moro, ao ler a petição também seria uma forma de vitória política.

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