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Postado em 11-06-2018
Arquivado em (Artigos) por vitor em 11-06-2018 00:33
Nova York

Anthony Bourdain se transformou numa estrela planetária graças a sua atitude rebelde, suas viagens e, sobretudo, pela sua paixão pela comida. A última imagem que postou na sua conta no Instagram é a de um prato típico da Alsácia, na qual se veem duas salsichas, duas peças de toucinho e um corte de porco curado repousando sobre um leito de chucrute, com uma mensagem em que se lê “almoço leve”.

Essa imagem de aventureiro, que através das tradições culinárias ajudou a descobrir a humanidade, é a imagem que celebram as grandes cadeias de televisão nos Estados Unidos para lhe render tributo. “Muitos dos que o assistiam sentirão também que perderam um amigo”, dizia Anderson Cooper em seu programa AC 360, transmitido pela CNN. O canal de notícias foi sua casa nos últimos cinco anos.

O prato que imortalizou na sua agenda virtual dias antes de tirar a própria vida é típico da região onde Bourdain estava filmado um novo episódio de Parts Unknown. A sétima temporada estreou em maio. A comida é o legado que deixa o chef estrela, que muito antes de se converter em um contador de histórias começou sua carreira lavando pratos numa cozinha em Nova Jersey. Tinha 13 anos.

O fenômeno Bourdain começou há duas décadas com um artigo que escreveu na revista New Yorker sob o título “Não coma antes de ler isto”. Foi a semente do livro Kitchen Confidential, no qual contava sobre os recantos mais escondidos das cozinhas na cidade dos arranha-céus. Virou rapidamente um sucesso de vendas. Daí começou a apresentar A Cook´s Tour para a rede Food Network, título que estava inspirado em seu segundo livro.

Foi contratado depois pelo Travel Channel, que o lançou ao estrelato com No Reservations. The Smithsonian o elevou à categoria de estrela do rock ao vê-lo, pela sua atitude, como o Elvis dos cozinheiros. Por esse programa foi premiado com dois prêmios Emmy. A CNN o contratou em 2013. “Muitos de vocês, como muitos de nós, sentimos um amplo leque de emoções: choque, tristeza, confusão”, dizia emocionado Cooper. 

Bourdain utilizou a crítica gastronômica como um canal para ajudar a audiência a viajar pelo mundo e explorar a humanidade através suas comidas. A televisão serviu-lhe também para fazer uma defesa das populações marginalizadas e denunciar as condições trabalhistas que se vivem nas cozinhas. “As pessoas me confundem. A comida, não”, confessou em seu primeiro livro, no qual revelou sua paixão pela carne. Isso o levou a ser reconhecido dentro e fora da indústria.

O chef nova-iorquino forjou a imagem de livre pensador, hedonista e humanista. Também não ocultou os problemas que teve por abusar das drogas. Anthony Bourdain, duas vezes divorciado, apoiou além disso a sua namorada, a atriz Ásia Argento, em sua cruzada contra o ex-produtor de cinema Harvey Weinstein, a quem ela acusou de tê-la violentado. A promotoria confirmou que ele faleceu por enforcamento. A prova toxicológica deve decifrar se ele consumiu alguma substância.

O programa de Bourdain era transmitido aos domingos pela noite nos EUA. Privilegiava o encontro com os locais e os sabores das regiões que visitava, afastadas dos turistas, em contraste ao requinte e à estética. Nunca viajava sem seu quimono de jiu-jitsu e entre suas causas era muito perseverante contra o assédio sexual nos restaurantes. Também era um grande defensor dos imigrantes, com ou sem documentos, especialmente dos latinos que trabalham nas cozinhas.

Bourdain dizia que o principal motivo que tinha para viver era sua filha Ariana, de 11 anos. Mas nas entrevistas mais recentes mostrava uma parte sombria por seu antigo vício em heroína e inclusive comentou que já havia pensado em suicídio após ver tudo o que já havia feito na vida. Mas em seguida retificou a mensagem e declarou-se “razoavelmente contente”. Também disse que morreria trabalhando, porque não tinha intenção de se aposentar. “Sou demasiado neurótico”, admitiu.

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Comentários

regina on 11 junho, 2018 at 7:57 #

Poucos me impressionaram tanto, até aqui, como o fez Anthony Bourdain!!! Tendo acompanhado sua trajetória pelos 20 anos de carreira, muito de perto, e aprendido, com ele, a ver o mundo, e seus habitantes, através do prato de cada dia…
Sua figura forte, esbelta, resoluta, competia com o diálogo igualmente vigoroso e destemido com que enchia a tela e eletrizava uma audiência faminta, não só de descobrir os segredos culinários, seus olores e sabores regionais, mas, sobretudo, a história por trás de tudo!!
Aprendi muito, viajei, com Tony, o mundo, visitei vilarejos por demais curiosos e interessantes, sentei no chão ou em banquinhos de plásticos de botecos os mais diversos, participei dos papos inusitados, a linguagem nua e crua, o olho no olho, lambia os dedos, só me segurava na hora dos muitos porres que tomou, porque sou fraca e tenho os meus limites, o que ele aparentava não ter, se entregava inteiro….
Sua morte foi um baque enorme, um soco no estômago, pra lembrar que tudo que vi, até aqui, não passava de um show muito bem elaborado e conduzido, que a vida real é outra coisa, tem seus limites, e, às vezes, somos nós mesmo que os impomos!!!
Descanse em paz, meu herói, vou seguir vendo os tapes, quando a dor passar….


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