Mensagem de ontem, no Facebook, depois de ler na página do jornalista, poeta, escritor e grande amigo, Elieser Cesar, o registro do aniversário do filho Fernando Valverde (Fernando Infante).

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Fernando Infante faz 27 anos, leio com surpresas, como diria o sábio Walmir Palma, em A Tarde, a poucos metros da mão do poeta estendida na Praça. Está homem feito o garoto de tantas poesias e crônicas maravilhosas do pai (amigo querido do peito), quando eu rolava boêmio pelas redações, era passo na noite boêmia de Salvador, ou virava as noites nas ruas , cafés e cantinas do bairro La Boca . A Fernando dedico “Passillo de La Vida”, tango de Adriana Varela que Fernando gostava e aprendeu a cantar quando era infante. PARABÉNS!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

“Você é uma preta de alma branca”

Racismo no Brasil
Jovens da favela Vigário Geral, no Rio de Janeiro Cordon Press

O maior número de eleitores nas próximas eleições presidenciais no Brasil, 54%, será de negros e pardos. E são eles que sofrem todos os recordes de mortes violentas. A cada 23 minutos é assassinado um jovem negro. 71% dos assassinatos são de pessoas negras. E enquanto a taxa de homicídios de brancos diminuiu 12%, a de negros aumentou 18%, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Diante dessa tragédia vivida pelos descendentes dos escravos, é urgente perguntar aos candidatos a governar o Brasil como pretendem abordar essa guerra aberta contra os negros e como farão para assegurar um futuro de igualdade de oportunidades que lhes devolva a dignidade que lhes foi roubada. Manter o país dividido entre negros e brancos é perpetuar a injustiça engendrada durante os 300 anos de escravidão. Escravidão, a brasileira, que foi uma das últimas a serem abolidas no mundo. Somente em 1888.

“Não sei se o Brasil está preparado para aceitar um presidente negro”, afirmou o juiz Joaquim Barbosa, que acabou renunciando a ser candidato às eleições presidenciais. De qualquer forma, negro ou branco, o próximo presidente não pode fechar os olhos para toda essa massa de jovens negros que morrem a cada hora vítimas da violência.

Urgem políticas sérias, concretas, realistas, capazes de encerrar para sempre esse triste capítulo da discriminação sofrida por essa maioria da sociedade, que além de ter sido condenada a não poder estudar como os brancos, o que fez que tivessem que aceitar os trabalhos mais humildes, são os mais expostos a uma morte precoce e violenta. Hoje, no Brasil, a grande maioria das domésticas, por exemplo, são negras ou pardas e cabe lembrar que o vocábulo “doméstica” deriva dos escravos que deviam ser “domesticados”, como se fazia com os animais de carga.

A sociedade brasileira ainda está impregnada de racismo aberto ou dissimulado. Isso significa rever o que os sociólogos chamam de “rejeição sutil.” É o que sofreram, por exemplo, duas meninas negras que, depois de voltar da escola, perguntavam a suas mães: “Por que as outras crianças nos acham esquisitas e não falam conosco?”

A linguagem cotidiana muitas vezes nos trai. As expressões coloquiais ainda estão impregnadas de discriminação contra os negros. Basta recordar algumas delas, como passar um “dia negro”, ter um “lado negro”, ser a “ovelha negra” da família ou praticar “magia negra”. Diz-se que o preto é a cor do pecado. Usamos o verbo “denegrir” que significa “manchar uma reputação que era limpa” . O preto suja.

A linguagem nunca é inocente e, às vezes, as palavras carregam uma forte carga de dor e agressão. Uma jovem negra africana ouviu uma senhora dizer como um elogio: “Bem, filha, eu não te vejo tão negra como dizem.” Uma empregada negra teve que suportar o seguinte elogio da família para quem trabalhava: “Você é uma preta de alma branca.” Tão sutil é a associação do preto com o inferior que até no jogo de xadrez as primeiras peças que se movem são as brancas. O branco é que dá sorte, não o preto.

Como enviado especial a uma viagem do papa a Uganda, fiquei surpreso ao ver, nas igrejas da África negra, anjos brancos como a neve. Contaram-nos que os missionários europeus diziam àqueles africanos que, se se comportassem bem e se tornassem cristãos, “ressuscitariam brancos no céu”.

Sempre acreditei que a poesia é um dos instrumentos que pode nos libertar das sombras de racismo incrustadas em nosso inconsciente. No livro Poemas para Metrônomo e Vento, de Roseana Murray, que acaba de ser publicado pela Penalux, há um poema intrigante intitulado A Pele Negra. O poema trata, com rara delicadeza, precisamente dessa dor que pulsa sob a pele dos negros. Quis reproduzi-lo para os meus leitores amantes da poesia como um exemplo de linguagem empática com essa ferida ainda aberta na nossa sociedade.

A pele negra

A harpa

que ondula

debaixo

da pele negra,

debaixo,

dos antigos

açoites,

e antes,

debaixo da noite,

suas tochas

e panteras,

essa harpa

nunca se cala,

seus acordes

profundos,

oceânicos

atravessam

séculos de memória

e dor,

não dormem.

Só mantendo desperta essa “harpa que não se cala” sob uma pele que conserva as cicatrizes dos antigos açoites contra os escravos, só estando atentos para não silenciar séculos de memória e dor, seremos capazes de nos livrarmos do peso do nosso racismo aberto ou sutil. Já que, como diz o poema, essa harpa não só não se cala, mas “seus acordes (…) não dormem”. Permanecem despertos para nos lembrar que não é a cor da pele que nos distingue e separa, mas a capacidade de aceitar que somos filhos do mesmo barro.

Meirelles ‘joga fora’ a carreira, diz Ciro Gomes

Ciro Gomes afirmou que Henrique Meirelles, a quem chamou de “amigo”, “joga fora” a carreira ao aceitar ser o candidato do governo de Michel Temer,  relata O Globo.

O presidenciável do PDT disse que a presença do ex-ministro da Fazenda “qualifica o debate”, mas que ele serve a uma gestão com uma agenda “antipovo” e “antipobre”.

Ciro também acusou o Ministério Público e o Judiciário de quererem “governar no lugar de todo mundo”. Para ele, Congresso e Executivo estão desmoralizados, o que provoca uma “invasão intolerável” dos poderes que não têm voto.

maio
23
Posted on 23-05-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 23-05-2018


 

Sponholz, no

 

Cármen Lúcia, presidente do STF, diz que corrupção é crime que mata

Ela fez discurso sobre ética e política em um seminário sobre combate à corrupção no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB).

“A falta de ética gera uma desagregação do tecido social e da estrutura estatal. É inaceitável, inadmissível. Todo governo só é legítimo se for honesto. Sem confiança, não há democracia. Democracia se dá pela segurança que o cidadão tem nas instituições.”, disse.

Para a presidente do STF, “não se pode seguir numa rua se ali estiver indicando contramão. Uma servidora pública que alimenta práticas antiéticas, isso é andar na contramão. Estado só vive pela confiança do cidadão nas estruturas de poder”;

A ministra disse que não há como conviver com a corrupção, o que ela chamou de ‘fratura social’.

“A única possibilidade de viver com o outro é confiando no outro. A base de toda convivência é a confiança. A corrupção é uma fratura social, uma prática que rompe essa união, a empatia pelo outro. Não há como conviver com a corrupção. A corrupção faz com que a nossa união com o outro seja dificultada”, disse.

Cármen Lúcia disse que o Brasil expôs e admitiu os casos de corrupção. “Poucos países tiveram a coragem de expor a corrupção, admitir que não quer mais conviver com isso. O estado é construído por todos nós”, afirmou a ministra.

A presidente do STF classificou a prática corrupta como uma “indignidade”, uma “injúria”.

“Quanto mais transparência, menor a possibilidade de corrupção. Se juntarmos o excesso de burocracia e a ausência de transparência, com toda certeza teremos facilitado a corrupção. O Estado precisa criar estruturas preventivas e repressivas da corrupção”, declarou.

maio
22

Do Jornal do Brasil

 

O jornalista, diretor do programa Observatório da Imprensa da TV Brasil, faleceu às 6h no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, onde estava internado devido a uma pneumonia. A causa da morte do ex- editor do JORNAL DO BRASIL foi insuficiência respiratória. A viúva, jornalista Norma Couri, ainda resolve se o enterro será na capital paulista ou no Rio de Janeiro.

“É com profunda tristeza que a equipe do Observatório da Imprensa comunica o falecimento de seu fundador, Alberto Dines (1932-2018), na manhã de hoje no hospital Albert Einstein, em São Paulo. Estamos preparando uma edição especial sobre o legado do Mestre Dines a ser publicada em breve”, diz nota do instituto.

Jornalista, professor, biógrafo e escritor ingressou em janeiro de 1962 no JORNAL DO BRASIL

Alberto Dines nasceu no Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 19 de fevereiro de 1932, filho de Israel Dines e de Raquel Di­nes, ambos de origem judaica. Fez os cursos primário e ginasial em colé­gios israelitas do Rio. 

Em 1943 teve sua primeira experiência jornalística como um dos organizadores do boletim estudantil Horta da Vitória, do Ginásio Hebreu Brasileiro. Cursou o científico no Colégio Andrews.

Iniciou sua carreira em 1952 como crítico de cinema da revista A Cena Muda. No ano seguinte foi convidado por Nahum Sirotsky para trabalhar como repórter na recém-fundada revista Visão, cobrindo assuntos ligados à vida artística, ao teatro e ao cinema. Passou a fazer reportagens políticas, cobrindo as campanhas de Jânio Quadros para a prefeitura de São Paulo em 1953 e, um ano mais tarde, para o governo do Estado. 

Permaneceu na Visão até 1957, quando foi levado por Nahum Sirotsky para a revista Manchete. Tornou-se assistente de direção e secretário de redação. Após desentendimentos com Adolpho Bloch, demitiu-se da empresa e tentou criar, com recursos próprios, uma revista que não chegou a ser editada.

Em 1959 assumiu a direção do segundo caderno do jornal Última Hora, depois foi diretor da edição matutina e, mais tarde, das duas edições diárias (matutina e vespertina).

No ano seguinte foi nomeado editor-chefe da recém-criada revista Fa­tos e Fotos, tendo colaborado, nessa ocasião, no jornal Tribuna da Imprensa, então pertencente ao Jornal do Brasil. Em 1960, convidado por João Calmon, dirigiu o Diário da Noite, dos Diários Associados de Assis Chateaubriand, convertendo-o em tabloide vespertino. Deixou o jornal, demitido por Chateaubriand, por não obedecer a ordem de ignorar o sequestro do navio Santa Maria, em Recife, feito em protesto contra a ditadura de Antônio Salazar em Portugal.

JORNAL DO BRASIL

Ingressou em janeiro de 1962 no JORNAL DO BRASIL como edi­tor-chefe, aos 30 anos e dez de profissão. Segundo o diretor Manuel Francisco do Nascimento Brito, com a entrada de Dines, a reformulação do jornal foi afinal consolidada, pois ele sistematizou as modificações que levaram o JB a ocupar outra posição na imprensa brasileira.

Em 1963 Dines criou e ocupou a cadeira de jornalismo com­parado na Faculdade de Jornalismo da PUC.  No período fundou, dirigiu e colaborou regularmente com os Cadernos de Jornalismo e Comunicação do JORNAL DO BRASIL. Em 1965, instituiu a cadeira de Teoria da Imprensa na PUC, onde lecionou até 1966.

“Tempo negro. Temperatura sufocante” e a capa de Allende

Histórica capa do JB, quando o governo baixou o AI5

Quando da promulgação do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), em 13 de dezembro de 1968, coordenou a edição da célebre primeira página que se valeu de recursos como a previsão do tempo – “Tempo negro. Temperatura sufocante. O ar está irrespirável. O país está sendo varrido por fortes ventos…” – e de um anúncio no alto da página: “Ontem foi o dia dos cegos”,  como parte de uma estratégia para denunciar a censura imposta à redação a partir de então, em consequência da nova ordem política autoritária instalada.         

A ‘previsão do tempo’

Convidado para ser paraninfo de uma turma da PUC logo após a edi­ção do AI-5, fez um discurso criti­cando a censura e, em conse­quência, foi preso em dezembro de 1968 e em janeiro de 1969 e submetido a inquérito. Em 1971, recebeu o prêmio Maria Moors Cabot da Universidade de Columbia, nos Es­tados Unidos.

Foi demitido em 1973 do JB, depois de 12 anos como editor. No JB, criou o Departamento de Pesquisa, a Editoria de Fotografia, a Agência JB e os Cadernos de Jornalismo. Um dos episódios que marcaram sua passagem pelo jornal foi a cobertura da deposição por golpe militar do presidente chileno Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973. Como a censura havia proibido a publicação de qualquer manchete sobre o assunto, Dines coordenou com o diagramador Ezio Esperanza a edição de uma primeira página sem manchete.

Capa do ‘JB’ sem manchete, na morte de Salvador Allende

Jornalista, professor, biógrafo e crítico

Em 1974 deixou, depois de 12 anos, a Fatos e Fotos, viajando para os Estados Unidos, onde foi professor visitante, durante um ano, na Universidade de Columbia. Retor­nou em julho de 1975 e assumiu a chefia da sucursal carioca da Folha de São Paulo, convidado por Cláudio Abramo, diretor de redação. Em 1980, Dines deixou a Folha de São Paulo, demitido por Boris Casoy, após escrever um artigo denunciando a repressão do governador Paulo Maluf à greve do ABC. Colaborou, durante todo esse ano, no semanário O Pasquim, onde reeditou a coluna Jornal dos jornais. Nesse período, escreveu a biografia do escritor Stefan Zweig. 

Em seguida assumiu o cargo de secretário editorial da editora Abril, em São Paulo. Como diretor-editorial-adjunto, participou da criação de revistas com a Exame de Portugal e instituiu os cursos de extensão e aperfeiçoamento.

Em Lisboa, entre 1988 e 1995, como diretor do grupo Abril em Portugal e consultor editorial da Sojornal ¾ que edita o maior semanário português, o Expresso, e o único vespertino do país, A Capital. Foi também diretor da empresa Jornalistas Associados, que prestava serviços de consultoria no Brasil e em Portugal. Em 1994 criou em Portugal o Observatório da Imprensa. Concluiu e editou a biografia de Antônio José da Silva, o Judeu, e o primeiro volume do livro Vínculos de Fogo.

Veja o vídeo produzido pelo Observatório da Imprensa em 2012, em homenagem aos 80 anos de Alberto Dines

De volta ao Brasil, em 1994 foi o responsável pela criação do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp. Passou também a escrever, entre agosto de 1994 e setembro de 1995, uma coluna de crítica ao jornalismo na revista Imprensa.

Em abril de 1996, lançou a versão eletrônica do Observatório da Imprensa, jornal de crítica e debate sobre o jornalismo contemporâneo, que passou a ter uma edição na TV Educativa do Rio de Janeiro em maio de 1998, e meses depois passou também a integrar ao vivo a programação da Rádio e Televisão Cultura de São Paulo.

Voltou ao JORNAL DO BRASIL em outubro de 1998, onde passou a manter coluna semanal de crítica jornalística. Foi ainda consultor da Grande Enciclopédia Larousse e colaborador de O Estado de São Paulo e do Observador Econômico, de São Paulo.  Fez estágios em jornais estrangeiros, como o Daily News e o New York Times, em Nova Iorque; o Daily Mirror, em Londres; o Paris Match e o Paris Jour, na França. Recebeu o título de notório saber em História e Jornalismo da Universidade de São Paulo (USP).

Casou-se pela primeira vez com Ester Rosali Dines, sobrinha de Adolfo Bloch, com quem teve quatro filhos. E, pela segunda, com a jornalista Norma Couri.

Publicou Vinte histórias curtas (contos, em co-autoria, 1960), Os idos de março e a queda de abril (co-autoria e organização, 1964), O mundo depois de Kennedy (1965), Jornalismo sensacionalista (em co-autoria, 1969), Comunicação e jornalismo (1972),Posso? (contos, 1972), O papel do jornal (1974), E por que não eu? (sátira política, 1979), A imprensa em debate  (em co-autoria, 1981),  Morte no paraíso – A tragédia de Stefan Zweig (bio­grafia, 1981), O baú de Abravanel: uma crônica de sete séculos até Silvio Santos (biografia, 1990), Vínculos de fogo: Antônio José da Silva, o Judeu, e outras histórias da Inquisição em Portugal e no Brasil(biografia, 1992, volume 1), 20 textos que fizeram história (1992), As transformações da revolução global e o Brasil (1995), Diários completos do capitão Dreyfuss (organizador, 1995).

DEU NA COLUNA RADAR – VEJA, ASSINADA POR LAURO JARDIM

Combate aos privilégios

O TCE da Bahia olhou as contas do governo do estado e concluiu que foi concedido irregularmente quase meio bilhão de reais  em isenções fiscais. As maiores beneficiadas na casa das centenas dre milhões, foram a Bridgestone, Engepack e M. Dias Branco.

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BAHIA EM PAUTA COMENTA:

É como diz uma jornalista atenta, amiga do BP: “Aí tem!”.

É só investigar, para descobrir. 

 

Por Flávia Freitas e Murilo Salviano, GloboNews

Um mês após bomba do Riocentro, EUA já sabiam origem do ataque

Um mês após bomba do Riocentro, EUA já sabiam origem do ataque

 Um relatório da inteligência americana que está no Arquivo Nacional no Rio de Janeiro mostra que, um mês depois do atentado do Riocentro, os Estados Unidos já tinham indícios de que o ataque tinha sido organizado pelos próprios militares brasileiros, e não por grupos de esquerda, como o governo militar alegou na época. Um dos objetivos do atentado seria atrasar a abertura política.

O relatório de integrantes da inteligência americana, baseados em Brasília, descreve as circunstâncias do atentado do Riocentro e discute o nível de participação de integrantes do governo militar. No canto direito de uma das páginas, um carimbo revela que o documento chegou ao Departamento de Defesa americano, em Washington, no dia 29 de maio de 1981.

Um mês antes, no dia 30 de abril, cerca de 20 mil pessoas se aglomeravam em um centro de convenções na Zona Oeste do Rio de Janeiro, o Riocentro. Eram as festas do Dia do Trabalho. Já passava das 21h quando uma bomba explodiu um carro Puma. Dentro dele, o sargento Guilherme Pereira do Rosário, que morreu, e o capitão Wilson Luís Chaves Machado, que ficou ferido. Os dois eram integrantes do DOI-Codi.

Ainda naquela noite, foi registrada uma segunda explosão: na subestação de força do Riocentro. Esse episódio desencadeou uma crise no governo Figueiredo. Quais os motivos das bombas e por que elas estavam dentro do carro daqueles militares? O caso nunca foi resolvido na Justiça.

Diz o relatório: “Não restam dúvidas de que o sargento Guilherme Pereira do Rosário, que foi morto, e o capitão Wilson Luís Chaves Machado (…) provocaram o ataque a bomba e não foram as vítimas. É nítido que os dois, como membros do DOI-Codi, agiram sob ordens superiores no momento em que a bomba explodiu acidentalmente no carro” e que o diretor do Serviço Nacional de Inteligência e o comandante do Exército provavelmente sabiam de todos os detalhes da bomba no Riocentro.

O serviço de inteligência dos Estados Unidos não expõe, no entanto, o nível de responsabilidade do então presidente João Figueiredo. Afirma que “ele não precisa necessariamente ter se envolvido de alguma forma com as ações do Exército nestes incidentes”.

Os agentes americanos também relatam a tática do governo Figueiredo em simular um clima de normalidade. “O governo tentou afastar a possibilidade de uma crise prometendo publicar os resultados da investigação 60 dias depois do episódio, mantendo as negociações, visitas presidenciais e tentando preencher o noticiário com qualquer outro assunto que não fosse a discussão ou especulação sobre a bomba no Riocentro”, afirma.

O documento está guardado no Arquivo Nacional. Ele chegou ao Brasil em meados de 2015, já depois da conclusão dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, que investigou graves violações aos direitos humanos, principalmente durante o regime militar. Além dele, outros 715 documentos foram encaminhados, em três lotes, pelo governo Obama e estão sendo analisados pelos pesquisadores do Arquivo Nacional.

A história tenta resolver o que a Justiça não conseguiu. O atentado do Riocentro já completou 37 anos. O Ministério Público denunciou, em 2014, seis nomes ligados ao Exército, por terem planejado o ataque minuciosamente. Mas a ação penal está trancada na Justiça Federal do Rio de Janeiro e aguarda recurso no Superior Tribunal de Justiça.

Fabulosa Maria das Graças! Que interpretação! Momento marcante do capítulo de ontem de “Segundo Sol”. Viva!!!

(Vitor Hugo Soares)

 

A caixa dos trovões

A caixa dos trovõesFERNANDO VICENTE

Enquanto Ivanka Trump, envolta em um vaporoso vestido que dava o que falar entre os presentes, descerrava a placa inaugurando a chamativa embaixada dos Estados Unidos em Jerusalém, o Exército israelense matava a bala 60 palestinos e feria 1.700 que, lançando pedras, tentavam se aproximar das cercas que separam Gaza do território de Israel. Os dois acontecimentos não coincidiram por acaso, o segundo foi consequência do primeiro. 

A decisão do presidente Trump de reconhecer Jerusalém como a capital de Israel, anunciada em sua campanha eleitoral, rompe setenta anos de neutralidade dos Estados Unidos. Estes, assim como seus aliados no Ocidente, sustentavam até agora que o status de Jerusalém, reivindicada como capital tanto por palestinos como por israelenses, deveria ser decidido em um acordo entre as duas partes que definisse a criação de dois Estados coexistentes na região. Embora a teoria dos dois Estados ainda apareça às vezes na boca de dirigentes das duas nações, ninguém acredita mais que essa fórmula ainda seja factível, dada a política expansionista de Israel, cujos assentamentos na Cisjordânia continuam devorando territórios e isolando cada dia mais os povoados e cidades que conformariam o Estado palestino. Se existisse, este seria atualmente pouco menos que uma caricatura dos bantustões da África do Sul nos tempos do apartheid.

O presidente Trump afirmou que sua decisão de reconhecer Jerusalém como capital de Israel é “realista” e que, em vez de dificultar um acordo, vai facilitá-lo. É possível que não só tenha dito, como também que, em sua formidável ignorância dos assuntos internacionais sobre os quais opina diariamente de maneira tão pouco responsável, acredite nisso. Mas duvido que acreditem muitos mais além dele e do punhado de fanáticos que aplaudiram entusiasmados quando Ivanka descerrou aquela placa e Bibi Netanyahu, com lágrimas nos olhos, exclamou: “Que dia glorioso!”. Na verdade, Trump abriu a caixa de Pandora com essa medida e, além da confusão e do desconcerto em que mergulhou seus aliados, provocou em grande parte a cruel e estúpida matança que veio se somar ao suplício que é, há muito tempo, a vida para os desventurados habitantes de Gaza.

A criação de dois Estados que convivessem em paz era a fórmula mais sensata para pôr fim a esse conflito que existe há setenta anos no Oriente Médio, e nisso acreditaram muitos israelenses durante muito tempo. Infelizmente, na época de Arafat, os palestinos rejeitaram um plano de paz no qual Israel fazia concessões notáveis, como devolver boa parte dos territórios ocupados e aceitar que Jerusalém fosse compartilhada como capital de Israel e da Palestina.

Desde então, aquele enorme movimento de opinião pública israelense que queria a paz foi encolhendo, enquanto cresceu o número de quem, como Sharon, considerava que a negociação era impossível e a única solução viria apenas de Israel, imposta pela força aos palestinos. E há muita gente no mundo, como Trump, que pensa assim e está disposta a apoiar essa política insensata que nunca resolverá o problema e continuará enchendo de tensão, sangue e cadáveres o Oriente Médio.

Esse processo é que tornou possível um Governo como o de Netanyahu, o mais reacionário e prepotente que Israel já teve, e certamente o menos democrático, pois, convencido de sua superioridade militar absoluta em toda a região, persegue sem trégua seus adversários, rouba-lhes cada dia um pouco mais de territórios e, acusando-os de serem terroristas e de pôr em perigo a existência do pequeno Israel, abre fogo e os fere e assassina à vontade sob o menor pretexto.

Queria citar aqui um artigo de Michelle Goldberg que apareceu no The New York Times de 15 de maio sobre o que ocorreu no Oriente Médio, intitulado Um grotesco espetáculo em Jerusalém. Descreve com detalhes a extraordinária concentração de extremistas israelenses e fanáticos evangélicos norte-americanos que festejaram a abertura da nova embaixada, e a bofetada que foi para o povo palestino essa nova afronta infligida pela Casa Branca. A autora não esquece a intransigência do Hamas, nem o terrorismo palestino, mas também recorda a condição indescritível em que estão condenados a viver os habitantes de Gaza. Vi com meus próprios olhos e sei o grau de degradação em que sobrevive com muita dificuldade essa população sem trabalho, sem comida, sem remédios, com hospitais e escolas em ruínas, com edifícios desmoronados, sem água, sem esperança, submetida a bombardeios cegos cada vez que há um atentado.

Goldberg explica que o sionismo sofreu na opinião pública mundial com a direitização extrema dos Governos israelenses, e que uma parte significativa dos judeus dos Estados Unidos já não apoia a política atual de Netanyahu e os pequenos partidos religiosos que lhe dão maioria parlamentar. Acredito que isso valha também para o restante do mundo, para milhões de homens e mulheres que, como eu, sentiam-se identificados com um povo que tinha levantado cidades modernas e fazendas-modelo onde só havia desertos, criado uma sociedade democrática e livre, na qual um setor muito grande queria verdadeiramente a paz negociada com os palestinos. Esse Israel, infelizmente, já não existe mais. Agora é uma potência militar, sem dúvida, e de certa forma colonial, que só acredita na força, principalmente nestes dias, graças ao apoio do país mais poderoso do mundo, encarnado pelo presidente Trump.

Todo esse poder não adianta muito se uma sociedade vive esperando atacar ou ser atacada, armando-se cada dia mais porque sabe que é odiada por seus vizinhos e até por seus próprios cidadãos, exigindo que seus jovens passem três anos no Exército para assegurar a sobrevivência do país e continuar ganhando as guerras, e castigando com ferocidade e sem trégua, diante da menor agitação ou protesto, aqueles cuja única culpa é a de já estar ali havia séculos quando começaram a chegar os judeus expulsos da Europa depois das atrozes matanças perpetradas pelos nazistas. Essa não é uma vida civilizada nem desejável, viver entre guerras e matanças, por mais poderoso e forte que seja um Estado.

Os verdadeiros amigos de Israel não devem apoiar a política, em longo prazo suicida, de Netanyahu e companhia. É uma política que está fazendo desse país, que era amado e respeitado, um país cruel e impiedoso com um povo ao qual maltrata e subjuga enquanto, ao mesmo tempo, proclama-se uma vítima da incompreensão e do terror. Isso já não é verdade, se é que foi alguma vez.

Tenho muitos amigos em Israel, principalmente entre seus escritores, e defendi muitas vezes seu direito à existência, sob fronteiras seguras, e sobretudo que encontre uma maneira pacífica de coexistir com o povo palestino. Honra-me ter recebido o Prêmio Jerusalém e me alegra saber que nenhum de meus amigos israelenses participou desse “grotesco espetáculo” que protagonizou a estilizada Ivanka Trump descerrando aquela placa, e tenho certeza de que todos eles sentiram tanta tristeza e indignação quanto eu pela matança nas cercas de Gaza. Eles representam um Israel que parece desaparecido nos últimos dias. Mas esperemos que volte. Em nome deles e da justiça, é preciso proclamar a todos os ventos que não são os palestinos que representam o maior perigo para o futuro de Israel, e sim Netanyahu e seus capangas e o sangue que derramam.

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