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Ativistas fixam fotos de Babchenko na embaixada russa em Kiev.
Ativistas fixam fotos de Babchenko na embaixada russa em Kiev. S. F. EFE

Um dia ele estava morto e no dia seguinte ele estava dando uma entrevista coletiva. O jornalista russo Arkady Babchenko, cujo suposto assassinato havia sido divulgado ontem pelas autoridades em Kiev, apareceu nesta quarta-feira (30) diante da imprensa para provar que estava vivo e reconhecer que tinha participado da encenação de sua morte falsa para ajudar as autoridades locais a desarticular um plano do Kremlin para acabar com sua vida.

Menos de 24 horas após a imprensa mundial, o EL PAÍS inclusive, ter relatado seu assassinato, o repórter de guerra reapareceu diante das câmeras para explicar que ele foi vítima de uma campanha de assédio depois de publicar uma informação sobre a queda de um avião militar russo que se dirigia à Síria. O também ativista, muito crítico do presidente Vladimir Putin, explicou que fingir sua própria morte era uma maneira de desarmar um plano em andamento para assassiná-lo.

Em face da descrença geral, o repórter pediu desculpas a todos que haviam acreditado na farsa. “Eu gostaria de me desculpar por tudo que vocês tiveram que passar”, disse Babchenko à beira das lágrimas. “Sinto muito, não havia outro jeito de fazer isso, e eu quero pedir desculpas à minha esposa pelo inferno que ela teve que passar”.

Babchenko, o jornalista dado como morto na coletiva de imprensa nesta quarta.
Babchenko, o jornalista dado como morto na coletiva de imprensa nesta quarta. VALENTYN OGIRENKO REUTERS
 

De acordo com Vasili Gritsak, diretor da SBU e presente na conferência de imprensa, o autor do “assassinato” foi preso e o próprio Babchenko se ofereceu para participar da operação para neutralizar o atentado.

Em seu Twitter, horas antes de seu falso assassinato, Babchenko publicou uma foto de um helicóptero e se referiu a um general ucraniano que não quis levá-lo a bordo quatro anos antes. “Duas horas depois da fotografia ele foi derrubado, 14 pessoas morreram e eu tive sorte, nasci de novo”, disse ele. Parecia uma ironia do destino que na mesma data sua vida teria fim. Mas na verdade, tudo estava preparado.

Babchenko trabalhou no jornal Moskovski Komsomolets, a publicação com maior circulação na capital russa, informa Pilar Bonet. Foi nesse jornal que Babchenko, nascido em 1977, iniciou sua carreira jornalística e literária após ter participado como combatente nas duas guerras na Chechênia (1994-1996 e 1999-2003). O jornalista foi premiado por suas histórias a respeito do conflito, que o impactou profundamente.

Depois de saber que Babchenko ainda está vivo e não foi assassinado, o Ministério das Relações Exteriores russo disse que tudo o que havia acontecido nas últimas horas foi, na verdade, uma jogada das autoridades ucranianas para fins de propaganda, segundo informa a agência de Sputnik.

A farsa

A história foi bem elaborada, com pitadas de dramaticidade. Babchenko, 41 anos, casado e pai de uma filha, teria sido atingido por três tiros nas costas no portão de sua casa em Kiev na terça-feira. Sua esposa o teria encontrado em uma poça de sangue, depois de ouvir os disparos enquanto estava no banho, contou o jornalista Aider Mudzhabaev no canal de televisão ATR, veículo de imprensa pertencente a membros da comunidade tártara e sediado na Crimeia até ser considerado ilegal pelas autoridades russas de facto e forçado a deixar a península depois da anexação em 2014. Babchenko teria morrido na ambulância que o levava ao hospital.

O primeiro-ministro ucraniano, Vladimir Groisman, chegou a acusar a Rússia de estar por trás do assassinato de Babchenko. “Estou certo de que a máquina do totalitarismo russo não perdoou sua honestidade e seus princípios”, escreveu o político no Facebook, acrescentando que Babchenko era “um verdadeiro amigo da Ucrânia” e que contou ao mundo “a verdade sobre a agressão russa”. “Os assassinos devem ser punidos”, chegou a afirmar o primeiro-ministro.

O ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Pavel Klimkin, também apontou Moscou como o mais provável responsável pelo suposto assassinato. “É muito cedo para dizer quem está por trás disso, mas (…) a Rússia emprega diversas táticas para desestabilizar a Ucrânia. Concretamente, perpetra ataques terroristas, atividades de sabotagem e assassinatos políticos”, disse Klimkin em uma reunião do Conselho de Segurança da ONU em Nova York. O chefe da diplomacia ucraniana lembrou que o jornalista teve que deixar a Rússia em 2017 “depois de ataques e ameaças contra ele e sua família”. “Ele continuou lutando por uma Rússia democrática, pela Ucrânia e, naturalmente, Moscou o via como inimigo.”

Desde o início, a Rússia rejeitou de maneira categórica todas as acusações. “É um absurdo completo. Dá a impressão de que estão delirando. Eles que se entendam”, disse ele à agência de notícias Interfax o diretor do Serviço Federal de Segurança russo, Alexander Bortnikov. O chefe da agência de inteligência que também foi acusada de envenenar, no Reino Unido, o ex-espião russo Sergei Skripal e sua filha Yulia – ambos fora de perigo –, qualificou como “verdadeiras provocações” as acusações feitas pelo Governo ucraniano.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov, lamentou que Moscou estivesse sendo acusada antes mesmo do início da investigação oficial. “Uma nova tragédia ocorreu ontem, em Kiev. Arkady Babchenko foi morto a tiros na porta de sua casa e o primeiro-ministro ucraniano já afirma que isso, obviamente, é obra do serviço secreto russo”, disse Lavrov em um fórum na manhã desta quarta-feira em Moscou.

A Federação Europeia de Jornalistas (EFJ, na sigla em Inglês) condenou a atitude do Governo da Ucrânia, que defendeu a “mentira” que o jornalista russo Arkady Babchenko havia sido morto em Kiev e classificou a ação como uma “manipulação inaceitável da opinião pública”, de acordo com uma declaração divulgada em seu site.

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