Greve dos Caminhoneiros 2018
Soldados tentam desobstruir bloqueios de caminhoneiros. Joédson Alves EFE

O Brasil entra em águas incertas – e turbulentas. A greve de caminhoneiros completou neste domingo uma semana, com desabastecimento de supermercados, aeroportos, hospitais e postos de gasolina por todo o país. Ao longo do final de semana o Governo Federal manteve a mesma política de enfrentamento com o movimento que marcou a retórica do Planalto desde o início do movimento. No sábado o ministro Raul Jungmann voltou a bater na tecla de que parte da greve é orquestrada por patrões, o que configuraria o locaute, que é ilegal. Ele chegou a afirmar que foram emitidos mandados de prisão contra alguns empresários, sem dar mais detalhes. De qualquer forma, mesmo após anunciar que o Exército iria ajudar a desobstruir as rodovias, a situação no país continuou caótica, na medida em que centenas de bloqueios ainda impediam a circulação nas estradas do país na noite de domingo. 

Frente a uma situação cada vez mais caótica, Temer reagiu como pode. O Governo editou no sábado um decreto que autorizava o poder público a requisitar “veículos particulares necessários ao transporte rodoviário de cargas essenciais”. O confisco poderia ser realizado por qualquer servidor público, desde que com autorização das entidades governamentais responsáveis. Não bastasse o impasse com os caminhoneiros, o Governo também sofreu outro revés no final de semana, com o anúncio de uma greve de petroleiros. A Federação Única dos Petroleiros (FUP) anunciou neste sábado que a categoria deve cruzar os braços por 72 horas à partir de quarta-feira, 30 de maio. O objetivo é pressionar o Governo para “baixar os preços do gás de cozinha e dos combustíveis, contra a privatização da empresa e pela saída imediata do presidente Pedro Parente [da Petrobras], que, com o aval do governo Michel Temer, mergulhou o país numa crise sem precedentes”.

 Estado-maior do presidente tentou mostrar que tinha a situação sob o mínimo de controle. Na noite de sábado os ministros Raul Jungmann, da Segurança Pública, e Sérgio Sérgio Etchegoyen, do gabinete da Segurança Institucional, culparam empresários donos de transportadoras de estarem por trás de parte da mobilização. Após reunião do o gabinete de crise do Governo Federal, Jungmann chegou a dizer que “mandados de prisão já foram expedidos”. Ele não informou, no entanto, se já haviam sido cumpridos e quem seriam os empresários responsáveis pelo locaute (espécie de greve patronal, proibida por lei). “Alguns caminhoneiros receberam ordens de permanecerem paralisados, o que configura a prática do locaute”, disse.”Esta paralisação teve, em parte, a promoção e o apoio criminoso de proprietários e patrões de empresas transportadoras e distribuidoras. E podem ter certeza, eles irão pagar por isso”.

O ministro Etchegoyen foi realista quanto à normalização do abastecimento no país. “É difícil prever qualquer data para a normalização. Queremos que seja o mais rápido possível, mas não há indicação se isso ocorrerá em um dia, dois dias… O que percebemos é que o abastecimento começa a caminhar no sentido da normalidade”. O ministro disse ainda que o caminhão parado “deixa de fazer uma série de viagens”, o que provoca uma demora no restabelecimento dos estoques.

Governador de São Paulo toma a dianteira na crise

Enquanto o Planalto não conseguiu avançar no diálogo com os caminhoneiros, quem alcançou um papel de destaque nas negociações com a categoria foi o governador de São Paulo, Márcio França (PSB), que fez esforços para mediar a crise. Candidato à reeleição, o peessedebista alcançou uma exposição midiática e política que não havia tido desde que assumiu o Bandeirantes para que Gerado Alckimin pudesse disputar o Planalto, no início de abril. Desde sábado o governador tem se reunido com lideranças dos grevistas. Com a ajuda da Polícia Militar e da Guarda Civil Metropolitana, que escoltaram caminhões-tanque, França conseguiu garantir o abastecimento de combustível para os serviços básicos na capital até o final de segunda-feira.

Neste domingo o governador se reuniu novamente com caminhoneiros na tentativa de emplacar um acordo que desmobilizasse de vez a paralisação da categoria. França afirmou que os grevistas querem o congelamento do preço do diesel por 60 dias: “vamos conversar com o Temer e ver o que conseguimos”, disse após o encontro. Outra demanda encaminhada por ele ao ministro Carlos Marum, o aumento no desconto do diesel de 41 centavos por litro para 46 centavos, naufragou em Brasília. Ele sugeriu ainda que o Governo estabeleça um teto para o preço do combustível, de forma a fomentar “a confiança” entre as partes.

Por fim, França cobrou do Congresso que retome suas atividades na segunda-feira e não na terça, data em que costumam ser realizadas as primeiras sessões da Câmara e do Senado. “Eles precisam antecipar a volta para segunda-feira, não dá para fingir que não tem nada acontecendo”, afirmou.

São Paulo continua em Estado de emergência, declarado na sexta-feira. A capital tem gasolina suficiente para manter seus serviços básicos até o final da segunda-feira.

Morte de animais

Os reflexos da produção também são sentidos pelo produtor. A Associação Brasileira de Proteína Animal informou que “lamenta anunciar que a mortandade animal já é uma realidade devido à falta de condições minimamente aceitáveis de espaço e quantidade de ração”. De acordo com a entidade, “um bilhão de aves e 20 milhões de suínos estão recebendo alimentação insuficiente”. A nota informa ainda que “com risco de canibalização e condições críticas para os animais, 64 milhões de aves adultas e pintinhos já morreram, e um número maior deverá ser sacrificado em cumprimento às recomendações da Organização Mundial de Saúde Animal e das normas sanitárias vigentes no Brasil”. A associação estimou o impacto da greve na balança comercial do setor em 350 milhões de dólares.

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