DO JORNAL DO BRASIL

OPINIÃO

Só repressão não trará solução

Teresa Cruvinel

O momento mais delicado da greve/lockout  dos caminhoneiros pode ter chegado com a decisão do presidente Temer de empregar as Forças Armadas para desbloquear na marra as rodovias.  A força na mão de governos em apuros  é sempre um perigo. As seis maiores centrais sindicais do país condenaram a decisão.  Podem acontecer confrontos, pode haver radicalização, embora seja mais provável que o governo consiga, pela repressão, desarticular o movimento. Mesmo assim, não terá resolvido o problema. Terá que honrar o acordo firmado, que é provisório, e fazer escolhas difíceis, pelas quais todos pagaremos.

Por sinal, intervenção militar foi a palavra de ordem mais pregada pelos envolvidos na paralisação, um movimento  heterogêneo, composto também por grupos que pregam o Lula Livre e a eleição de Bolsonaro. Alguns caminhões, mostraram as redes sociais, exibiam o cartaz “Desculpa, Dilma”.  Os que pediram a volta dos militares disseminaram com esta pregação. Agora vão conviver com eles por algumas horas nas estradas.  Nas coxias estão as empresas do setor que pegaram carona na greve, cuja ideologia é o lucro. Já conseguiram bons ganhos com o acordo firmado ontem, como ficar fora do projeto que reonera a folha de pagamento das empresas.

Tal como quando decretou a intervenção na segurança do Rio, Temer fez um discurso em busca do apoio para sua reação tardia: não vamos permitir isso e aquilo, disse ele, quando o transtorno já é grande, afetando até os cemitérios.  Fernando Henrique, em 1999, fez duas coisas ao mesmo tempo: congelou o preço dos pedágios e mandou as tropas para as estradas.  Temer terá que fazer isso agora: garantir a normalização da vida dos brasileiros e apresentar soluções que impeçam o repique da greve daqui a 15 dias.

O governo teve tempo para negociar antes da greve estourar mas não ligou. Estourada, foi cozinhando o problema enquanto a Câmara avançava com uma medida de custo fiscal impossível de ser assimilado, a zeragem do PIS-Cofins sobre o diesel.  Veio a negociar de fato ontem e fez concessões sem garantias de que a paralisação seria suspensa. O fato de uma das mais importantes entidades representativas dos caminhoneiros,  a Abcam, ter abandonado a mesa de negociação era um indicador claro de que o problema não seria resolvido com aquele acordo.  

Neste momento, as forças federais começam a chegar às refinarias e pontos de bloqueio nas rodovias.  Hoje pela manhã, aqui em Brasília, houve uma situação muito tensa no depósito da Petrobrás, quando o governo local, o GDF, quis abastecer dez caminhões para abastecer serviços como hospitais e viaturas. Manifestantes chegaram a se deixar no chão mandando o batalhão de choque passar por cima.  No final chegaram a um acordo e os caminhões foram abastecidos, sob compromisso de que o combustível só seria utilizado nos serviços públicos.

Com o uso da força, o governo poderá conseguir uma precária volta ao normal. Para resolver efetivamente o problema, terá que fazer escolhas difíceis: ou mudar a política de preços da Petrobrás, de vinculação dos preços à variação do dólar e do preço internacional do petróleo,  o que teria um custo altíssimo (só com a redução de 10% no diesel a empresa teve perda de valor da ordem de R$ 46 bilhões).  Ou, ao que tudo indica, terá de cavar mais fundo no buraco fiscal.

Gastará R$ 5 bilhões, segundo o ministro Marun, em compensação à Petrobrás pelo desconto de 10% no diesel por 15 dias adicionais, além dos 15 com os quais a empresa se comprometeu, segundo diz, voluntariamente. Se o congelamento do diesel for prolongado, sabe-se lá quanto isso vai custar. Não vai abrir mão do PIS-Cofins mas sim da Cide, o que significar R$ 2,5 bilhões de receita a menos. E buscará um improvável acordo com os governadores para que eles aceitem reduzir as alíquotas estaduais de ICMS sobre os combustíveis. 

No fim, pagamos todos, porque estes recursos sairão de outras rubricas do orçamento. Pagamos todos porque quanto piores estiverem as contas públicas, pior será o desempenho da economia. A bomba que se arma para o futuro presidente é de alta detonação mas ninguém deixará de concorrer por isso. 

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Comentários

Daniel on 26 Maio, 2018 at 1:47 #

É preciso trazer solução! O radicalismo visto na tais manifestações, o descontrole que tomou e o (cada vez maior) grau de incômodo legado à população, são razões mais do que justas de uma reação equivalente.

Não é possível que após entrar em acordo com manifestantes, ainda haja esse tipo de stress social. Já há casos de ambulâncias que estão sem rodar, cargas de remédios e oxigênio para hospitais se perdendo, cargas vivas apodrecendo nas estradas, desabastecimento de comércios e postos de gasolina. Nenhum país soberano pode permitir esse tipo de situação caótica.


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