Resultado de imagem para Tropikaoslista documentário Walter Lima Jr

Resultado de imagem para Lucia Jacobina artigo no Bahia em Pauta

 O TROPIKAOSLISTA

 Lucia Jacobina

 

Estreou desde a semana passada e continua em cartaz nas telas de cinema o filme de José Walter Lima “O Tropikaoslista”, documentário sobre Rogério Duarte, um dos expoentes do movimento tropicalista no Brasil que, nos anos sessenta, empreendeu uma revolução no pensamento, nas artes plásticas e na música.A exibição desse filme na mesma época em que se comemora o cinquentenário do Maio de 68 francês vem mostrar que a efervescência da década,com manifestações artísticas de vanguarda, mudanças comportamentais e políticas, não se circunscreveu a determinada sociedade, tendo tumultuado todo o planeta contando com a liderança destacada da juventude.

O cenário cultural brasileiro já tinha passado por uma reviravolta na música tradicional com a bossa-nova e o cinema-novo, quando sobreveio o golpe militar. Com o retrocesso político instaurado, manifestações estudantis, operárias e artísticas começaram a ser coibidas. O aparecimento do tropicalismo que se lançava na música popular com o uso de guitarras elétricas, cabelos masculinos compridos, figurino de cores berrantes e nas atitudes irreverentes de Caetano Veloso, Gilberto Gil e os Mutantes foi o suficiente para provocar uma reação da ditadura. Por serem também intérpretes e contarem com a força da televisão, os músicos citados foram os que mais se sobressaíram no movimento que contou ainda com a presença de Tom Zé, José Carlos Capinam, Torquato Neto e Rogério Duarte, todos parceiros musicais. O tropicalismo teve duração efêmera, pois se desintegrou com a prisão e a saída de cena de Caetano e Gil que foram morar na Inglaterra. Seus integrantes decidiram seguir outros caminhos. Alguns se tornaram conhecidos internacionalmente, outros fizeram novas parcerias e continuaram suas carreiras, restando do movimento o repertório musical e as capas dos discos elaboradas em sua grande maioria por Rogério Duarte.

Esse baiano, tal como nos apresenta o cineasta Walter Lima, nasceu em Ubaíra, estudou em Salvador e mudou-se para o Rio de Janeiro, naquela época a meca para quem queria fazer sucesso. Foi lá que tomou contato com outros artistas plásticos revolucionários como Hélio Oiticica, Lygia Pape e Lygia Clark criadores de uma nova estética que espelhasse a realidade brasileira e libertasse nossa cultura dos padrões europeus. Foi também nessa época que desenhou para Glauber Rocha o famoso cartaz de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, premiado em Cannes. Sua concepção inovadora no desenho gráfico marcou o panorama artístico daquela época, tendo contribuído também com o jornal Flor do Mal, inspirado livremente em Baudelaire, e participado do projeto polêmico de Kaos,que terminou nunca sendo editado.

Já existe uma alentada bibliografia sobre o tropicalismo. Discorrer, entretanto, sobre comportamentos radicais com imagens é a contribuição que o talento de José Walter Lima traz ao cinema com sua habilidade com a câmera. Logo nos momentos iniciais, a narrativa é conduzida como um caleidoscópio, onde se sobressaem a força cromática das figuras e o traço, mostrando a arte de Rogério como uma rebelião; em seguida, o artista adota as filosofias hinduísta e budista e um estilo de vida peculiar que integra o burburinho da grande cidade ao verde da paisagem bucólica de uma fazenda. É o próprio Rogério quem relata sua trajetóriae explica ao espectador como permaneceu fiel a suas crençassempre aberto a novos experimentos que contribuíssem para a expansão de sua experiência vital.

A dinâmica imposta à narração é tão intensamente rica e variada que prende a atenção do espectador do princípio ao fim, exibindo um artista em tempo integral, um pensador com força expressiva capaz de criar e viver sua própria criação. Parabéns Walter Lima por essa lição de cinema.

Lúcia Leão Jacobina Mesquita é ensaísta e autora de Aventura da Palavra

 

 

Be Sociable, Share!

Comentários

vitor on 25 Maio, 2018 at 12:15 #

Lucia
Feita a devida correção do nome do nosso Waltinho, amigo guerido desde o tempo do Manga Rosa, na Barra. Logo cedo ( eu ainda estava na cama) Olívia ligou, pedindo o reparo na edição do Bahia em Pauta, antes de compartilhar o seu belo artigo sobre “Tropikaoslistas” na página dela no Facebook. Margarida providenciou a correção. Agora resta pedir desculpas a Walter Lima (o nosso). Mas estou convencido de que o seu artigo de hoje diz mais do que minhas palavras vãs, de editor desatento às 3h da madrugada. Parabéns.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos