Por Flávia Freitas e Murilo Salviano, GloboNews

Um mês após bomba do Riocentro, EUA já sabiam origem do ataque

Um mês após bomba do Riocentro, EUA já sabiam origem do ataque

 Um relatório da inteligência americana que está no Arquivo Nacional no Rio de Janeiro mostra que, um mês depois do atentado do Riocentro, os Estados Unidos já tinham indícios de que o ataque tinha sido organizado pelos próprios militares brasileiros, e não por grupos de esquerda, como o governo militar alegou na época. Um dos objetivos do atentado seria atrasar a abertura política.

O relatório de integrantes da inteligência americana, baseados em Brasília, descreve as circunstâncias do atentado do Riocentro e discute o nível de participação de integrantes do governo militar. No canto direito de uma das páginas, um carimbo revela que o documento chegou ao Departamento de Defesa americano, em Washington, no dia 29 de maio de 1981.

Um mês antes, no dia 30 de abril, cerca de 20 mil pessoas se aglomeravam em um centro de convenções na Zona Oeste do Rio de Janeiro, o Riocentro. Eram as festas do Dia do Trabalho. Já passava das 21h quando uma bomba explodiu um carro Puma. Dentro dele, o sargento Guilherme Pereira do Rosário, que morreu, e o capitão Wilson Luís Chaves Machado, que ficou ferido. Os dois eram integrantes do DOI-Codi.

Ainda naquela noite, foi registrada uma segunda explosão: na subestação de força do Riocentro. Esse episódio desencadeou uma crise no governo Figueiredo. Quais os motivos das bombas e por que elas estavam dentro do carro daqueles militares? O caso nunca foi resolvido na Justiça.

Diz o relatório: “Não restam dúvidas de que o sargento Guilherme Pereira do Rosário, que foi morto, e o capitão Wilson Luís Chaves Machado (…) provocaram o ataque a bomba e não foram as vítimas. É nítido que os dois, como membros do DOI-Codi, agiram sob ordens superiores no momento em que a bomba explodiu acidentalmente no carro” e que o diretor do Serviço Nacional de Inteligência e o comandante do Exército provavelmente sabiam de todos os detalhes da bomba no Riocentro.

O serviço de inteligência dos Estados Unidos não expõe, no entanto, o nível de responsabilidade do então presidente João Figueiredo. Afirma que “ele não precisa necessariamente ter se envolvido de alguma forma com as ações do Exército nestes incidentes”.

Os agentes americanos também relatam a tática do governo Figueiredo em simular um clima de normalidade. “O governo tentou afastar a possibilidade de uma crise prometendo publicar os resultados da investigação 60 dias depois do episódio, mantendo as negociações, visitas presidenciais e tentando preencher o noticiário com qualquer outro assunto que não fosse a discussão ou especulação sobre a bomba no Riocentro”, afirma.

O documento está guardado no Arquivo Nacional. Ele chegou ao Brasil em meados de 2015, já depois da conclusão dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade, que investigou graves violações aos direitos humanos, principalmente durante o regime militar. Além dele, outros 715 documentos foram encaminhados, em três lotes, pelo governo Obama e estão sendo analisados pelos pesquisadores do Arquivo Nacional.

A história tenta resolver o que a Justiça não conseguiu. O atentado do Riocentro já completou 37 anos. O Ministério Público denunciou, em 2014, seis nomes ligados ao Exército, por terem planejado o ataque minuciosamente. Mas a ação penal está trancada na Justiça Federal do Rio de Janeiro e aguarda recurso no Superior Tribunal de Justiça.

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Comentários

Daniel on 22 Maio, 2018 at 0:46 #

E seque a cantilena…

A mídia continua convenientemente esquecendo que o combate travado pelos militares era sobre os grupos terroristas armados dispostos a implantar uma ditadura do proletariado.


Taciano Lemos de Carvalho on 22 Maio, 2018 at 9:13 #

Acho que a informação pode ser diferente. Ao invés de um mês depois, acho que os EUA sabiam meses antes. Talvez não soubessem que seria no Rio Centro, mas em alguma grande aglomeração de pessoas. Afinal, a ditadura brasileira foi gestada e pilotada pelos EUA


Daniel on 22 Maio, 2018 at 10:42 #

Como disse, segue a cantilena. Agora, a do “imperialismo” yankee sobre nossas terras tropicais…

Daí para a tese de Moro treinado pela CIA é só um pulo. rsrs


luís augusto on 23 Maio, 2018 at 8:32 #

Logo após a explosão, um popular puxou o documento do capitão Wilson Machado e constatou: Ih! São os homens!
Certamente era alguém que acompanhava os atentados contra bancas que vendiam jornais de esquerda e a morte de D. Lyda Monteiro, secretária da OAB, quase um ano antes.
E agora descobrem que os Estados Unidos sabiam um mês depois?
Quanto à participação americana no golpe de 64, isso é História.


Daniel on 23 Maio, 2018 at 14:41 #

A história é escrita pela elite intelectual. A mesma que cunhou a falsa informação de que a luta armada contra os militares se deu para alcançar e democracia, e não uma ditadura do proletariado.


vitor on 23 Maio, 2018 at 18:35 #

Luis Augusto:

Ótimo e oportuno o seu registro da história do popular que puxou o documento do capitão do Riocentro. Melhor ainda é vê-lo de volta – com o mesmo ânimo, lucidez e bom humor – a este recanto do Baia em Pauta, do qual você é referência fundamental. Viva! Mande mais notícias (pode ser pelo Zap de Margarida.)


Taciano Lemos de Carvalho on 24 Maio, 2018 at 1:24 #

Que alegria a minha ver Luís Augusto aqui de novo.
———

Militar bom na época da ditadura —ditadura que alguns acham que foi ditabranda, pois não foram eles, e ninguém deles, ou conhecidos deles, que estiveram nos paus-de-araras, no tonel de afogamento, nas porradas embaixo de árvores em áreas de quartéis, e na vala depois da morte— foi o capitão Sérgio Macaco. Dignidade maior!


Daniel on 24 Maio, 2018 at 10:14 #

Sejamos coerentes. O termo “ditabranda” foi estabelecido em comparação aos regimes totalitários que oprimiram, perseguiram e mataram milhares (ou milhões).

Ironicamente, todos eles abraçados e celebrados pelos mesmos que criticam o militarismo brasileiro…


Taciano Lemos de Carvalho on 24 Maio, 2018 at 11:08 #

Ditabranda é sempre aquela em que eu não fui o torturado, o preso, a vítima, o assassinado. Mas os documentos estão surgindo, revelando o assassino que existia em cada general ditador.

Verdade que são apenas documentos, pois todo mundo que viveu a assassina ditadura brasileira já sabia.


Daniel on 25 Maio, 2018 at 0:37 #

Quando regime que oprima, persiga, mate é detestável. Pior quando é defendido ou criticado de acordo com a filiação ideológica do opinador.


luís augusto on 25 Maio, 2018 at 8:59 #

Obrigado, amigos. São acontecimentos sucessivos que limitam a participação, mas procurarei estar presente. Abraços.


vitor on 25 Maio, 2018 at 12:22 #

Luis
Sei disso, amigo, e louvo a seu ânimo, coragem e lucidez de bravo fundamental. Cuide-se e vá em frente. Estamos na corrente com vc. Sempre. Forte abraço.


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