Nesse momento em que o Rio de Janeiro perde para São Paulo a preferência como o destino nacional mais procurado pelos turistas para o feriado de Corpus Christi, conforme pesquisa feita pelo Kayak,  um dos maiores sites de planejamento de viagens do mundo, chega a assustar a situação dos novos hotéis do Porto Maravilha, projeto megalômano nascido na esteira das Olimpíadas, que até hoje não decolou. 

Lamentavelmente, são exemplos que se repetem pelo resto da cidade, conforme ratifica o presidente da Associação Brasileira da Indústria Hoteleira (ABIH), Alfredo Lopes. “O governo federal e a prefeitura investiram bilhões na cidade para as Olimpíadas, depois o estado quebrou e nunca mais foi feita uma única campanha de estímulo ao turismo”, reclama. 

Hoteis em crise

O Hotel Nacional (E) foi reinaugurado mas voltou a fechar, ainda sem data para reabrir; o lixo se espalha pelo terreno do Courtyard, no Parque Olímpico; o ex-Windsor, vendido para a Rede Hilton; e o Hotel Ibis (D), no Porto Maravilha, que já fechou suas portas 

Segundo ele, a taxa de ocupação média este ano tem variado entre 42% a 43%. Em 2016, quando foram realizadas as Olimpíadas, o indicador mediu 58%.  O Rio Convention & Visitors Bureau não divulga dados atualizados, guardados numa caixa-preta, mas o percentual de hoje encobre uma situação que deve ser bem pior, tendo em vista que a base para o índice encolheu com o fechamento de diversos hotéis e com a consequente extinção de milhares de vagas, enquanto que na época do evento esportivo essa base havia se expandido, passando da oferta de 30 mil quartos na cidade para cerca de 58 mil. Juntando lé com cré, a oferta dobrou, enquanto a ocupação minguou. “Além da falta de divulgação, houve um recrudescimento da violência. Em Copacabana, Ipanema e Leblon a ocupação vai a 70%, cai quando entra em cena a Barra da Tijuca. Até o projeto “De janeiro a janeiro”, que envolveu empresários como Roberto Medina e Ricardo Amaral, fez alguma coisa no réveillon e carnaval e, depois disso, nada mais”, afirma Lopes. 

Conforme o presidente da ABIH, vários estabelecimentos foram obrigados e reduzir o valor das diárias, “reação natural ao aumento da oferta de quartos e à redução de turistas”. “Algumas redes optaram por fechar até 2019/2020, porque precisam fazer reformas e preferem interromper as atividades em períodos de baixa do que ficar no prejuízo. Aconteceu com a Rede Accor, que fechou o Sofitel de Copacabana e o Marina, no Leblon”, exemplifica Lopes. Isso sem falar no subaproveitamento do Novotel, também da rede, no Porto Maravilha. 

Em São Conrado, além do Hotel Nacional, o Pullman, que substituiu o Intercontinental, também fechou. Segundo a assessoria de imprensa do Hotel Nacional, o prédio continua em manutenção durante a transição para uma nova bandeira. “Está lindo, maravilhoso”, informam, sem dizer se há interessados, quantos são ou quando o hotel voltará a abrir as portas.

Com 34 andares e 413 quartos, o hotel foi reaberto em dezembro de 2016 sob a bandeira Meliá, que investiu R$ 430 milhões na reforma do prédio. A operação, no entanto, durou apenas 15 meses. “Os dois fecharam por causa da Rocinha e da poluição. Que gringo vai querer tomar banho de mar em águas poluídas?”, questiona o arquiteto Sérgio Leusin, professor titular aposentado da UFF. 

O abandono na região do Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, ao redor do Residence Inn by Marriott, com 140 quartos, contíguo ao Courtyard, com 264 unidades, salta aos olhos pelo lixo espalhado pelo terreno. Embora a assessoria informe que a taxa de ocupação é satisfatória e cresceu neste ano em relação a 2017, o movimento em um dia de semana era ínfimo. Havia apenas uma mesa ocupada em horário de almoço, e o buffet estava totalmente desativado. 

No Porto Maravilha, o Holiday Inn, maior dos quatro grandes empreendimentos atraídos pelas facilidades oferecidas pelo ex-prefeito Eduardo Paes, sequer foi inaugurado. Em outubro de 2010, Paes enviou à Câmara dos Vereadores uma proposta de incentivos fiscais e mudanças nas normais urbanísticas — com ênfase nas mudanças dos gabaritos — para a construção de hotéis. Com uma torre de 23 pavimentos e 594 quartos, o Holiday Inn acabou simbolizando a “viagem” do Porto.

O Marriot da Rua Cordeiro da Graça 598, com 225 apartamentos, teve vida curta. Em fevereiro, o grupo  passou à bandeira Intercity, que anuncia uma ocupação de 50% difícil de crer, em meio ao deserto onde se situa. Da dupla Ibis e Novotel — ambas da rede Accor —, sobrou o segundo, com 194 quartos. Basta uma visita ao local para constatar a escassez de hóspedes e de candidatos às refeições anunciadas na fachada. O JORNAL DO BRASIL  não conseguiu contato com a assessoria de imprensa da Accor, localizada em São Paulo. 

Para e volta 

Um exemplo dos devaneios surgidos em concreto armado, sem condições de continuidade apesar de todo o incentivo fiscal que receberam, é o prédio de 22 andares na Rua Bolívar 65, em Copacabana, na Zona Sul do Rio, erguido ao lado de outro hotel, o Vilamar Copacabana. Segundo o porteiro do empreendimento, Paulo Neves, a obra não está embargada e, de fato, há algum movimento por ali. “Eles tentam tocar, embarga, para e volta. Nesse ritmo lento, conseguiram erguer o prédio inteiro, pronto há dois anos. Sabemos que vão acabar liberando a obra”, conta o jornalista e recepcionista do Vilamar, Creso Queiroz, que mora ali perto. 

A Sociedade de Amigos de Copacabana entrou com uma representação no Ministério Público contra a construção do hotel na Bolívar. “Fica ao lado do prédio onde moro, que sofreu rachaduras por causa da obra. O parâmetro residencial no bairro é de 15 andares e, na placa da obra, onde não há nome de um engenheiro responsável, constam 20 andares. Eles construíram um andar a mais no topo e outro no subsolo, mas houve um embargo e não tenho mais acompanhado”, diz Horácio Magalhães, presidente da associação. 

Na Rua Tonelero 202, também em Copacabana, foi erguida uma tripa de 18 andares para ser um hotel, com apenas 6m de frontispício. A situação é bem parecida à da obra na Bolívar. A construção, sem nenhuma placa informativa, está praticamente concluída há dois anos. “A fachada está mais ou menos, mas lá por dentro está tudo pelado. Os moradores ficam apreensivos. A obra mantém um vigia, com medo de alguém invadir”, relata João Luiz Ribeiro, porteiro do prédio vizinho. O vigia forneceu um celular do “presidente” que responderia pela obra, porém ninguém atendeu no número. 

Um quarteirão atrás, na Rua República do Peru 416, outro caso idêntico: o prédio de 13 andares, mais cobertura, que também seria um hotel, se deteriora e já começa a virar um esqueleto. A única placa é da HEB Engenharia e Projetos, que esclareceu que a empresa responde apenas pelo cálculo estrutural da planta. “A construtora, cujo nome já não me lembro, porque é um projeto antigo feito para a Copa do Mundo, deve ter retirado a placa deles”, comentou o estagiário Leonardo Côrtes.

Mais impressionante, entretanto, pelas dimensões do terreno, é a obra na Rua Francisco Otaviano 35, projeto de hotel de 24 pavimentos, com 484 quartos e área edificada de 35.959,29 m². Está parada há dois anos, porém, há momentos em que os caminhões voltam e algo acontece. Pertence à Toureiro Participações, que vendeu o Hotel Windsor, ex-Medirien, pelo altíssimo endividamento de seu grupo, para a Rede Hilton.

“Volta e meia a Francisco Otaviano fica alagada, porque a obra do hotel está sempre bombeando o lençol freático do subsolo e, junto com a água, deve vir areia que entope as tubulações. O piso da entrada de meu prédio, vizinho à obra, está despencado, e será feita uma perícia, porque eles dizem que não têm nada a ver com isso, embora o problema só tenha aparecido depois da obra, que se alterna entre embargo e liberação”, descreve o arquiteto Sérgio Leusin. Nesse caso, o projeto não conseguiu passar do embasamento dos três primeiros andares que seriam destinados aos restaurantes e serviços do hotel. O escritório de advocacia Carlos Martins de Oliveira, que representa a Toureiro Representações, não retornou aos contatos do JORNAL DO BRASIL.

A crise no Grupo Oreiro

As obras da Francisco Octaviano, que pertence a um  grupo de espanhóis donos de dezenas de hotéis no Rio, liderado pelo, também, espanhol José Oreiro, sócio controlador  da Toureiro Participações, mostra a dimensão da crise do setor hoteleiro na cidade. Depois de investir mais de USD 200 milhões na compra do Hotel Meridien, Oreiro foi obrigado, em decorrência da queda da taxa de ocupação e seu alto endividamento, a vender o hotel Windsor da Atlântica para a rede Hilton. Especula-se no setor que o grupo de espanhóis ainda terá de se desfazer de outras unidades para diminuir suas dívidas, desmontando, assim, o que já foi uma das maiores redes de hotéis do Brasil.

Incentivos e benefícios 

De acordo com a Secretaria Municipal de Urbanismo (SMU), os quatro hotéis da Zona Sul foram licenciados dentro da Lei Complementar 108/2010, que institui incentivos e benefícios para construções de hotéis para as Olimpíadas. O prazo para que eles ficassem prontos foi fixado em 31 de maio de 2016 (de acordo com a LC163/2016). Nenhum dos quatro teve o habite-se liberado a tempo, mas as situações deles hoje são diferentes, de acordo com a SMU: 

“O hotel da Rua Bolívar está embargado desde 2016, assim como o da Rua República do Peru 416. Já o da Rua Francisco Otaviano não está embargado ou tampouco o da Rua Toneleiro 202. Ambos não ficaram prontos até o prazo de 31 de maio de 2016 – antes das Olimpíadas. O primeiro está sendo licenciado, embora ainda precise cumprir exigências. E o segundo está em análise na Procuradoria”. 

Leusin lembra que estes hotéis receberam financiamentos do BNDES e isenções de ISS, entre outras vantagens. “Foi uma malversação de dinheiro público para viabilizar inciativas que afetam o maior patrimônio da nossa cidade: o skyline (termo da arquitetura e do urbanismo que se refere a um recorte do panorama urbano capaz de identificar a cidade por sua silhueta).

Cabeças de porco

A  Câmara Municipal analisa, sem prazo final para votação, os projetos de lei complementar enviados pela prefeitura que alteram o código de obras (PLC 43/2017), a Lei de Uso e Ocupação do Solo (PLC 57/2018), Lei de Parcelamento do Solo (PLC 56/2018) e o Código de Licenciamento e Fiscalização (PLC 55/2018). 

Um dos aspectos em discussão é a questão dos hotéis. Os que foram licenciados há mais de 10 anos, com obras não concluídas, poderão ser beneficiados pela transformação de uso a partir do aproveitamento da volumetria existente, sem restrições de área mínima das unidades ou exigências de vagas, além de outras facilidades, segundo a assessoria de imprensa da secretaria municipal de Urbanismo.  

“Vale ressaltar que os que foram beneficiados pela LC 108/2010 (que instituiu incentivos e benefícios para construções de hotéis para as Olimpíadas) e que deveriam ter sido concluídos até maio de 2016, não serão contemplados com estes benefícios do PLC 57/2018, tendo em vista terem sido beneficiados anteriormente”, ressalva a nota da assessoria. 

O coordenador da Comissão de Políticas Urbanas do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU), Lucas Faulhaber, vê com preocupação as possíveis mudanças, na medida em que elas possam provocar um “rebaixamento na qualidade das habitações”. 

Segundo ele, hoje a legislação estabelece que um apartamento de um quarto deve ter, no mínimo, 30 m²; de dois quartos, 36m²; e de três, 44 m², respectivamente. A nova proposta tolera uma área média de 42 m², independente do número de quartos, o que poderá dar margem até a um quarto de 10m², por exemplo. “Sob o argumento de estimular o uso do transporte público, de péssima qualidade na cidade, retirar a exigência de vaga de garagem pode lotar o espaço público de automóveis”, critica Faulhaber. 

Ao mesmo tempo em que preocupa o futuro uso destes hotéis que sequer chegaram a ser inaugurados, o temor do arquiteto Sérgio Leusin vai mais longe: “Este tipo de modificação pode encher a cidade de cabeças de porco”

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