AFA Mundial de Rusia
O polêmico manual distribuído pela AFA

“As russas não gostam de ser vistas como objetos”, “prestam muita atenção se você é limpo, cheiroso e bem vestido” e “odeiam homens chatos”, diz o manual de língua e cultura russa distribuído na terça-feira, dia 15, pela Associação Argentina de Futebol (AFA) a cerca de 40 jornalistas esportivos. Ao folhear o material, os alunos inscritos no workshop encontraram uma seção intitulada “O que fazer para ter uma oportunidade com uma garota russa”. O escândalo começou depois que alguns participantes, entre surpresos e indignados, postaram o tutorial machista nas redes sociais. A AFA confirmou a este jornal que o polêmico material existiu, mas afirma que foi retirado de circulação dias atrás pelo Departamento de Educação e nunca chegou às mãos de alunos. Segundo sua versão, o manual foi escrito por “uma terceira parte não vinculada à AFA, que viveu muitos anos na Rússia”.

Entre as dicas do livreto que viralizou estavam: “Trate a mulher que está na sua frente como alguém de valor, com ideias e desejos próprios”, “dê atenção a seus valores e sua personalidade” e “não faça perguntas estúpidas sobre sexo” . “Como as mulheres russas são bonitas, muitos homens só querem levá-las para a cama, talvez elas também queiram, mas são pessoas que querem se sentir importantes e únicas”, alertava o segundo dos oito pontos.

  • Futebol é ultramachista, mas nunca vi algo tão grosseiro em um âmbito institucional”, disse ao EL PAÍS o jornalista Nacho Catullo, o primeiro a tuitar o conteúdo do manual, que em poucas horas foi reproduzido por mais de 2.000 pessoas. Dos cerca de 40 jornalistas que participaram do workshop, apenas três eram mulheres, mas isso não impediu que muitos de seus colegas homens se chocassem ao encontrar conteúdo “ultrapassado e de mau gosto”, nas palavras de Catullo.

Outra recomendação pedia para não desanimar se encontrasse “mulheres que só dão valor às coisas materiais”. “Não se preocupe, há muitas mulheres bonitas na Rússia e nem todas são boas para você. Seja seletivo”, encorajava.

Diante da chuva de críticas, o pessoal da AFA interrompeu o curso para jornalistas, dirigentes e jogadores de futebol que irão à Copa do Mundo na Rússia e recolheu os manuais sem dar explicações. Depois de alguns minutos, eles foram devolvidos com a página arrancada. Mas já era tarde.

O escândalo mostra a rápida mudança cultural que a Argentina vive desde a eclosão de grandes mobilizações feministas, especialmente entre as novas gerações. Recentemente, cantores, jornalistas, jogadores de futebol e outras celebridades foram alvo de escárnio público por causa de comentários sexistas que teriam passado despercebidos anos atrás.

Os alunos enfatizaram que, no início, o professor Eduardo Pennisi não entendia o que estava acontecendo. Quando um dos participantes falou da polêmica gerada nas redes sociais, Pennisi disse que não achava o material obsceno ou sexual, conta Alejandro Wall, outro dos presentes. Havia incluído o guia para tornar a aula “mais agradável”, segundo Leonardo Paradizo, também participante.

O workshop de três horas foi realizado na sede da instituição em Buenos Aires. Os conselhos não foram escritos pelo professor, mas extraídos do blog Amar esta en ruso, como descobriram os usuários da Internet.

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