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                              Janio Ferreira Soares

 

 

Leio que Bob Dylan vai lançar um uísque chamado Heaven’s Door e constato que certas coisas se completam, a exemplo de uma rede na varanda num dia nublado com o Clube da Esquina tocando ao fundo; ou bandos de garças regressando quando o sol se esvai; ou um som de chuva no telhado a provocar arrepios em peles cansadas; ou ainda uma generosa dose de bourbon para acompanhar Like a Rolling Stones na voz anasalada do nosso velho bardo que, desde sempre, tem a postura daquele caubói que entra no saloon, encosta a bota no friso da base do balcão, olha ao redor por baixo da aba do chapéu e aí vira um trago que um gorducho barman lhe serviu sem nem dizer oi. (A propósito, o nome do uísque foi pinçado do título de uma balada que ele compôs para a trilha do filme Pat Garrett e Billy the Kid – e que depois tornou-se um estrondoso sucesso gravado por muita gente boa, incluindo nosso Zé Ramalho -, que narra a aflição de um Xerife baleado agonizando nos braços de sua mãe, lhe dizendo que já está fazendo “toc, toc, toc” na porta do Céu).

Mas voltando ao mote de que certas coisas são intrínsecas ao meio, por esses dias o pé de manga de Juca, que fazia tempo não frutava, voltou a produzir uma inigualável manguita dessas que você chupa até os últimos fiapos, que traiçoeiros como só fiapos de boa cepa são, costumam se alojar bem no meio daquela obturação mal dividida, fato que lhe fará quebrar todos os fios dentais ou palitos Gina que por ventura venham a ser usados na vã tentativa de retirá-los da fresta.

Antes de continuar, um parêntese: a mangueira citada acima foi plantada há 22 anos quando Juca nasceu e deriva de uma velha mania de Valéria de presentear cada uma de nossas crias com um tipo de fruteira que lhes represente. Foi assim com Luiza, que tem um luminoso jambo-branco pra chamar de seu e com Julia, que ganhou um belo cajueiro, mas num certo dia, resfriada e manhosa que só ela, não pensou duas vezes quando, numa dramaticidade digna de uma precoce atriz, propôs trocá-lo por “um copo d’água bem geladinha, pelo amor de Deus, senão eu morro!”.

Pois muito bem, com a mangueira novamente carregada, foi impossível não lembrar de quando Juca, na época ainda em fase de floração, vinha correndo feito um louco me intimando pra começar sua farra favorita, que consistia em pegar um cano de PVC e levantá-lo até uma manga lá no alto, enquanto ele se posicionava na outra extremidade. Aí era só forçar o talo que ela descia rolando por dentro do tubo até cair em suas mãos, numa brincadeira onde os muitos replays não eram suficientes para apagar a sensação do encanto da primeira vez.

“E o que mangas, jucas, luizas e julias têm a ver com o uísque de Dylan?”. Essa pergunta, my friend, quem pode responder é o vento.

Uma balada de Dylan é para sempre.

BOM  DOMINGO!!!

(Vitor Hugo Soares)

maio
13

Do Jornal do Brasil

 

Filha da estilista Zuzu Angel, morta no governo Geisel, em 1976, a colunista Hildegard Angel não ficou surpresa com as revelações do memorando da CIA. Segundo ela, o gabinete de Geisel encomendou o atentado contra sua mãe, na saída do túnel Dois Irmãos, em São Conrado. O caso de minha mãe está mais do que esclarecido. Não foi um acidente mal esclarecido.

Qual a sua reação diante do documento da CIA que revela a participação do general Geisel nas execuções durante a ditadura militar? 

Vi como uma predestinação. Aqui no Brasil queimaram toda a documentação. Houve queima de arquivos. Fizemos um pacto sinistro. Houve um corporativismo fechado, uma blindagem da história brasileira. Mas havia um documento lá na sede do grande irmão. Eles não contavam com isso.

Você ficou surpresa com os fatos agora revelados? 

Para mim não foi uma revelação. Quando o Claúdio Guerra, que foi delegado do DOPS, escreveu seu livro sobre a repressão, ele mencionou o caso de minha mãe (a estilista Zuzu Angel) e disse que o coronel Freddie Perdigão foi o organizador da emboscada encomendada que matou a minha mãe em 1976.  Foi encomendada a ele diretamente pelo gabinete do Geisel. A Comissão da Verdade recorreu ao livro do agente do Dops e ele mencionou que  havia foto do Perdigão no local do crime, na saída do túnel Dois Irmãos (hoje Zuzu Angel), em São Conrado.

A estilista Zuzu Angel, mãe de Hildegard

Qual foi a conclusão das investigações? 

O caso de mamãe foi investigado desde a Comissão dos Mortos e Desaparecidos até a Comissão Nacional da Verdade. As três comissões fizeram investigações, ouviram testemunhas e peritos, e concluíram que minha mãe foi vítima de uma emboscada por agentes do governo.  O ex-ministro da Justiça Miguel Reale conversou com duas testemunhas. Mas até hoje tem gente bem informada que atribui a morte de mamãe a um acidente mal esclarecido. Nunca um caso foi tão esclarecido. Esse é um cacoete nacional. Precisamos nos convencer da monstruosidade da ditadura brasileira. Por isso, ainda vemos jornalistas importantes escrevendo que houve um acidente mal esclarecido. Quando mal esclarecidos estamos nós.

A Comissão Nacional da Verdade reconheceu o crime do Estado contra Zuzu Angel? 

Nossa família recebeu R$ 80 mil de indenização. E a comissão endossou o depoimento do  Cláudio Guerra. Portanto, o Estado reconheceu que o gabinete de Geisel chancelou o atentado. Mas temos muita dificuldade de aceitar que vivemos isso. Talvez exatamente por isso estejamos vivendo esse momento em que se tenta qualificar a ditadura militar. Tentam justificar a ruptura democrática, seja na política, seja pelo Judiciário.

Você pretende reabrir o caso de sua mãe? 

Vou primeiro ouvir o Nilo Batista, que ajudou na reconstituição da tortura e morte de meu irmão Stuart Angel,  ouvir o Pedro Dallari, que ajudou no caso de minha mãe, e outras pessoas que possam me aconselhar. como o ex-deputado Nilmário Miranda. Depois tomarei a decisão.

Do Jornal do Brasil

 

O Ministério Público do Trabalho recomendou à TV Globo 14 medidas para promover a participação de pessoas negras em produções audiovisuais e no jornalismo. A medida foi motivada pela ausência de personagens pretos e pardos* na novela Segundo Sol, ambientada em Salvador, na Bahia, e que estreia na segunda-feira (14). A recomendação é de sexta-feira (11) à noite, antevéspera dos 130 anos da abolição no Brasil, regime que durou três séculos.

Além de cobrar mudanças na novela, a recomendação prevê um conjunto de ações para promover a igualdade racial “em todo ambiente de trabalho da empresa”. Entre elas, a mais importante é a elaboração de um plano de ação prevendo formas de incluir, remunerar e garantir a igualdade de oportunidades aos negros. Outra recomendação é a realização de um levantamento de negros e negras em todas as produções da emissora, incluindo o jornalismo.

Novela ambientada em Salvador foi criticada por incluir poucos artistas negros

A TV Globo tem sido criticada por escalar poucos artistas negros para a novela Segundo Sol, apesar de o enredo se passar na Bahia, estado com uma das maiores populações negras no país, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Até uma campanha foi lançada com cartazes de artistas negros que já passaram pela emissora, mas ignorados pela produção.

“Decidimos expedir essa nota com o fim de mostrar a importância de a empresa respeitar a diversidade racial”, declarou a coordenadora Nacional de Combate à Discriminação no Trabalho do MPT, procuradora Valdirene Silva. Ela disse que, apesar de a novela ser uma obra artística e aberta, “tem a obrigação de incluir atores negros em proporção suficiente para uma real representação da sociedade”.

“Estamos diante de uma situação que é vista como discriminatória”, com base em leis internacionais e no Estatuto da Igualdade Racial.

A TV Globo tem 10 dias para comprovar as mudanças no roteiro e na produção da novela Segundo Sol e 45 dias para apresentar um cronograma de cumprimento das demais recomendações. Caso não sejam atendidas, o MPT pode propor ação judicial como último recurso.

Nas redes sociais, o diretor de cinema e pesquisador pós-doutor Joel Zito Araújo, desabafou na sexta-feira (11) sobre a situação. “Nunca pensei que meu filme A negação do Brasil, lançado em 2001, permaneceria atual por tanto tempo (infelizmente)”. O documentário fala sobre papéis que atores negros representaram nas novelas brasileiras, em posições subalternas, apenas. Ele alertava para a influência na perpetuação do racismo e na limitação do mercado de trabalho.

Mídia alimenta racismo

A União de Negros pela Igualdade (Unegro), que lançou a campanha com cartazes de atores negros, também se pronunciou sobre a produção global. Em nota, afirmou que a mídia é “pouco permeável à ideia de ter o negro como protagonista”, reflexo de uma cultura que nega as identidades negras e reforça a exclusão desde a escravidão no Brasil.

A nota citou papéis negativos geralmente dados a artistas negros, como “o escravo, a mulata lasciva, a empregada doméstica, o preto bobo ou ignorante que faz a gente rir e o bandido”, destacando também os “positivos”, tais como “o jogador de futebol, o sambista ou aquele personagem que interpreta a exceção: o moço de família humilde que lutou muito e venceu na vida. Figuras que não são exclusividade da ficção, vistos também em programas de auditório e no jornalismo”.

Com a inserção de personagens em destaque em novelas e propagandas, a Unegro defende que a sociedade encare o problema. “A inserção não resolverá as questões raciais. O que se espera disso é uma contribuição para o debate [do racismo no país]”.

A dramaturga negra Maria Shu, autora de uma das primeiras mensagens alertando para o privilégio de atores brancos em o Segundo Sol, fez constatação semelhante. “A presença dos negros na TV tem apenas um foco, que é a espetacularização de suas dores. Estudamos, alcançamos novos espaços, mas não nos reconhecem como sujeitos produtores de conhecimento”.

Procurada pela Rádio Nacional, a TV Globo não confirmou ter sido notificada da recomendação. Porém, em nota, reconhece que a novela tem uma representatividade menor do que gostaria e disse que busca ampliá-la. “Vamos trabalhar para evoluir com essa questão”, informou.

A notificação do MPT é assinada pelos seis procuradores do grupo de trabalho de combate à discriminação e amparada no Estatuto da Igualdade. A lei federal recomenda ao poder público a promoção de igualdade racial no mercado de trabalho público e privado.

* Convencionou-se chamar negros a soma dos grupos populacionais preto e pardo, seguindo classificação do Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE).

Barcelona
Uma mãe carrega a mochila de seu filho a caminho da escola
Uma mãe carrega a mochila de seu filho a caminho da escola CARLES RIBAS

 

Tenho uma sensação de alívio. A especialista me diz que com três filhos e uma profissão como o jornalismo dificilmente terei tempo de criar filhos perfeitos ou hipercrianças. Para a menor acabo de dar de lanche um croissant de chocolate e um sorvete, a maior deixei assistir a quatro capítulos seguidos de um seriado americano, e o pai delas perde muitas horas da vida levando o do meio ao futebol do outro lado da cidade. Mas não conto nada disso à especialista.

O que é uma hipercriança? Eva Millet, autora do livro Hiperniños (sem tradução no Brasil), responde: “É o produto de uma criação intensiva, de uma dedicação absoluta dos pais à criança, mas uma dedicação mais focada em ver o filho como um produto. Têm de antemão um plano estabelecido para essa criança inclusive antes de nascer. É um modelo norte-americano. A criança é o rei absoluto da casa, o Luís XIV. É o modelo altar, a ela se presta culto, se dá de tudo, é consultada para tudo, e ao mesmo tempo sofre uma pressão brutal para triunfar. São crianças hiperprotegidas, que gerenciam mal a frustração, que se mostram muito pouco autônomas. É um fenômeno do primeiro mundo”.

Quais são os sintomas? “Aparecem quando ela não consegue fazer algo que deveria fazer sem a ajuda do adulto. Por exemplo, as lições de casa. Cada vez há mais crianças que não sabem fazer a lição sem seus pais, e cada vez mais pais que fazem isso para aumentar suas notas. Outra característica são os medos, e cada vez é mais comum o medo de errar, o medo de falhar. Também a ansiedade e o estresse, que são estados dos adultos, que cada vez mais são detectados inclusive nas crianças. Se vê um pouco a criação dos filhos como um campo de treinamento, porque cada vez é preciso levá-los a mais lugares, são infâncias muito estressadas.”

O último relatório do Estudo do Plano Nacional sobre Drogas na Espanha, detalha Millet, detectou que um em cada seis adolescentes acalmou suas tensões diante de um exame ou de uma ruptura tomando ansiolíticos. Os tranquilizantes pela primeira vez superam o álcool e o cigarro como droga de início.

Millet explica que os hiperpais entraram na escola e os colégios estão perplexos. Pais se que metem na Associação de Pais e Mestres para mudar o cardápio, pais que montam grupos de WhatsApp para criticar professores… “Professores me contam que encontram crianças que ouvem a palavra NÃO pela primeira vez na escola, que chegam com muito poucos limites, que não dormem, que caem no pátio e ficam imóveis à espera de alguém que os levante…”.

Pergunto a Clara Blanchar, colega de EL PAÍS, e autora (como eu) do blog De Mamas and de Papas e também mãe: “A mera descrição da hipercriança estressa e angustia. Claro que queremos o melhor para nossos filhos, mas exatamente porque minhas filhas (primeiro mundo, classe média) têm de tudo e com facilidade, considero importante valorizar a capacidade de ter consciência e de serem autônomas. Consultá-las e levá-las em consideração, tudo bem. Mas escolher… às vezes sim; em outras, tem que comer a verdura porque sim. E lembrá-las de que são privilegiadas; que, comparadas com outras realidades, estamos na Disneylândia. Faz tempo que abandonei essa infinita corrida pelo mais, pelo melhor. É difícil, porque a pressão (minha e alheia) é intensa e o sentimento de culpa por não fazer mais é cruel, mas tento relaxar, consciente de que jogo em outra liga (na qual também há boas escolas, atividades extracurriculares e acampamentos). E para que procurem espaços para fazer o que é mais legal de ser criança: brincar, brincar e brincar, se puder ser ao ar livre e com primos e amigos, melhor”. Blanchar acredita em sua amiga Mariluz: “É a rainha de abandonar o hipercriancismo. Ao ver o ritmo e o nível de festas de aniversário da classe apenas três meses depois de começar o curso, decidiu baixar a bola e levar quatro amigas para dormir em casa. Faz anos que faço isso e dá certo.”

Custa acreditar que a geração que Millet chama de criança móvel seja agora a que produza filhos altar. Não entendo como aquelas crianças que não tiveram festas de aniversário em bufês infantis nem férias de verão para ver tartarugas na Costa Rica agora se matem para encontrar os acampamentos mais especializados ou escolham uma creche que ensine mandarim. Nesse caminho, e isso é certo, os pais e mães perderam a autoridade. “Vejo que é um fenômeno cada vez mais amplo. A média de filhos é de 1,3 por casal, eles nascem mais tarde e pensamos em como serão, já que além de mães contamos com experiência profissional. Uma coisa da hiperpaternidade é que o filho é gerenciado e você importa ferramentas do trabalho para educar; temos mais recursos e além disso existe a concorrência entre as famílias. Há um terror de que seu filho acredite que ficou para trás porque esse modelo se baseia na precocidade. No fim, ser pai ou mãe é uma maratona. Um fenômeno muito curioso é falar no plural: “fomos aprovados, tomamos uma suspensão, nos apaixonamos…”, explica Millet, que cita duas imagens que se repete: a criança que desce do ônibus e entrega a mochila ao pai ou à mãe para que a carreguem ou o pai/mãe que persegue o filho com um sanduíche na mão pelo parque para que a criança o mordisque.

O alívio se transforma progressivamente em angústia conforme a conversa avança. Estamos fazendo tudo tão errado assim? “Há medo de impor limites para não parecermos uns generais. Afeto e limites são os pilares da educação. O que temos de fazer é relaxar. Complicamos a vida de forma desnecessária. É preciso pensar que a educação acontece em longo prazo e que você não é inteiramente responsável pelo que vai acontecer com seu filho. Defendo confiar em nós mesmos, mas também nas crianças.”

Fim de papo. Duas mensagens ficam claras para mim: nunca mais vou carregar a mochila dos meus filhos e vou colocar limites. Hoje, porém, fiz tudo errado de novo. O lanche voltou a ser chocolate.

maio
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Posted on 13-05-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 13-05-2018
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Claudio, no jornal Agora S. Paulo

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 DEU NO BLOG O ANTAGONISTA

Ex-assessor de Geddel quer ser prefeito

Um dia depois de ter sido absolvido pelo STF, Gustavo Ferraz, ex-assessor de Geddel Vieira Lima, disse que quer ser prefeito de Lauro de Freitas, na Grande Salvador, publica a Folha.

“Sinceramente, não tenho motivos para olhar para trás. Sou um militante e vou continuar fazendo política. Quero ser prefeito da minha cidade.”

Ferraz foi preso em setembro do ano passado por auxiliar Geddel a esconder R$ 51 milhões no bunker da propina em Salvador.

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