Colômbia a ponto

Colômbia a pontoFERNANDO VICENTE

Ninguém nunca me pôde explicar por que os colombianos falam o melhor espanhol de toda a América Latina. Não me refiro à elite culta, mas aos homens e mulheres comuns nos quais são notáveis a precisão e a eloquência com que costumam expressar-se, e a riqueza de seu vocabulário. É verdade que a Colômbia teve ilustres gramáticos e linguistas desde o século XIX, e certamente conhecer nossa língua e saber usá-la deve ter sido, há muito tempo, preocupação central de seus programas escolares.

Outra coisa notável e surpreendente desse país é que, apesar de ter sofrido por mais de cinquenta anos com guerrilhas sanguinárias, vinculadas ao narcotráfico, algo que em qualquer outra nação latino-americana teria ocasionado um golpe de Estado e uma ditadura militar de longos anos, seguiu funcionando como uma democracia, liberdade de imprensa, eleições livres e juízes mais ou menos independentes. Quando o presidente Juan Manuel Santos e as FARC iniciaram as negociações de paz, o mundo inteiro festejou, e mais ainda quando, depois de um longo vaivém, ambas as partes chegaram a um acordo que parecia pôr fim a essa guerra interminável.

Por isso o mundo inteiro (e eu mesmo) tivemos uma surpresa maiúscula quando, no referendo que deveria consolidar aquele acordo, os eleitores colombianos o rejeitaram de modo inequívoco, dando razão a quem, como o ex-presidente Álvaro Uribe, se opunha a ele considerando que o Governo tinha feito concessões demais às FARC, sobretudo no que se refere aos crimes, sequestros e tortura de suas vítimas.

Acabo de passar uns dias na Colômbia, onde serão realizadas eleições em 27 de maio, e aqueles acordos de paz são o ponto nevrálgico dos debates. Fiquei impressionado com a virulência dos ataques dos adversários dos acordos ao presidente Santos, a quem acusam de ter feito concessões demais a uma guerrilha desalmada, sustentada pelo narcotráfico e que deixou semeadas por todo o país dezenas de milhares de famílias de vítimas. E essas críticas parecem contar com o respaldo de um grande setor da opinião pública. Um só exemplo pode dar ideia do volume das críticas: Humberto de La Calle, que foi o chefe negociador do lado do Governo e agora é candidato à Presidência pelo Partido Liberal, tem nas pesquisas um porcentual ridículo, que oscila entre três e quatro por cento das intenções de voto. Por usa vez, Iván Duque, o candidato do Centro Democrático, o partido de Uribe, que tem como vice-presidenta Marta Lucía Ramírez, de origem conservadora, lidera as pesquisas com dez pontos acima de seu mais próximo adversário, o esquerdista Gustavo Petro, ex-prefeito de Bogotá.

Acredito que, em longo prazo, a história fará justiça a Juan Manuel Santos

Acredito que, em longo prazo, a história fará justiça a Juan Manuel Santos, e uma maioria de colombianos terminará aceitando que foi oportuno e corajoso iniciar aquelas negociações para pôr fim a uma guerra que vinha sangrando o país e emperrando seu progresso, um anacronismo em uma época como a nossa, em que uma coisa pelo menos ficou clara: não é disparando tiros, assassinando, sequestrando e traficando drogas que se acaba com a pobreza, as desigualdades e as injustiças de uma sociedade. Não há um só exemplo que prove o contrário e, sim, na realidade, seria bem o oposto: se tivessem triunfado, as FARC teriam feito da Colômbia uma segunda Cuba ou uma segunda Venezuela, ou seja, uma ditadura brutal e paupérrima.

Com todas as deficiências que uma maioria de colombianos vê nos acordos de paz, estes serviram pelo menos para algo evidente: que, apesar do que a propaganda revolucionária e extremista fazia crer, as FARC, longe de representarem o “povo”, eram uma organização subserviente e temida, e ao mesmo tempo desprezada. O povo colombiano em sua imensa maioria a repudia e, em vez de aplaudir sua incorporação à vida política, a vê com ódio e temor. Por isso o candidato presidencial da antiga guerrilha, Rodrigo Londoño (Timochenko), teve de renunciar a sua candidatura, e os únicos parlamentares das FARC no novo Congresso serão só aqueles que preencherão o número mínimo de cadeiras garantidas pelos acordos de paz, embora os votos dos eleitores os tenham rejeitado.

Os acordos de paz não teriam sido possíveis sem os duros golpes que o Governo de Álvaro Uribe impôs à guerrilha, um Governo do qual, convém recordar, Juan Manuel Santos foi um enérgico ministro da Defesa. “Faltou apenas isto para acabar com as FARC”, me disse um amigo, apertando os dedos. Não sei se é correto, mas sei que, sem aqueles graves reveses militares que o anterior Governo lhes assestou, e que devolveram a confiança e recuperaram as estradas e boa parte do território que os guerrilheiros terroristas ocupavam, estes não teriam jamais chegado a sentar-se à mesa de negociações.

Os acordos de paz não teriam sido possíveis sem os duros golpes que o Governo de Álvaro Uribe impôs à guerrilha

O que acontecerá agora? Se as pesquisas são mais ou menos exatas, Iván Duque deverá ganhar com folga e, talvez, até no primeiro turno. Apesar de sua juventude, é um homem muito capaz e, além de sua formação econômica e a experiência financeira em organizações internacionais, é um homem culto, que não se envergonha de ler poesia e romances. Na chapa presidencial é acompanhado por uma mulher que conheço bem e não vacilo em dizer que é admirável: Marta Lucía Ramírez. O risco de populismo e extremismo, encarnado por Gustavo Petro, parece, portanto, descartado em boa hora para os colombianos. Duque e Ramírez não propõem desconsiderar os acordos, mas aperfeiçoá-los.

Não será fácil a tarefa para o futuro governante desse país que fala tão bem e de tão sólida entranha democrática. Há um milhão de venezuelanos que, ao fugirem da fome, do desemprego e da repressão que transformaram seu país em um inferno, escaparam para a Colômbia, que os acolheu generosamente. Mas, entre aqueles exilados, Maduro, seguindo o exemplo de Fidel Castro quando dos famosos marielitos, aproveitou para esvaziar suas prisões de criminosos e foragidos e incentivá-los a escapar para o país vizinho. Deste modo, deixa espaço nos ergástulos para enchê-los com os opositores democratas que se multiplicam a cada dia, enquanto a Venezuela afunda na miséria e no caos, e castiga um país vizinho que abriu os braços às infelizes vítimas de sua demagogia e desvarios. Não só a Venezuela precisa livrar-se o quanto antes de Maduro e da gangue que o acompanha em suas ações malignas, mas também a Colômbia e o restante da América Latina, que sofrem por igual com a tragédia que vive a terra de Bolívar.

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