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06
Coisas da Política

Coisas da Política

Tereza Cruvinel

Um longo velório

Tereza Cruvinel

Maio começou mal para o presidente Michel Temer. No ano passado, neste mesmo mês, estourou o caso JBS, mas ele ainda tinha capital político. Torrou-o aliciando votos para enterrar as duas denúncias de Rodrigo Janot. Agora, seu governo enfrenta uma espécie de velório antecipado, que se prolongará por oito meses, se não acontecer antes a morte súbita, por conta de uma terceira denúncia. Ele encerrou uma semana espinhosa discutindo com seu advogado o rumo do inquérito em que é investigado no STF e admitindo desistir de sua inconvincente candidatura à reeleição.

Em entrevista à EBC, que rebaixou à condição de agência de comunicação governamental, ele admitiu a desistência: “Eu posso não ir para a reeleição na medida que eu comece a perceber que se tem muitos candidatos.” Será que ele ainda não começou a perceber a dispersão de candidatos entre as forças que o colocaram no cargo com o impeachment? Entende-se: precisou fazer um contorcionismo verbal para não admitir que a desistência será imposta pela inviabilidade eleitoral, conhecida até pelos peixes da Lagoa do Jaburu. Mas o pior ainda pode vir. 

Horas depois de anunciar um aumento para o Bolsa Família, buscando alguma boa vontade popular, Temer viveu cenas deploráveis para um presidente ao aventurar-se numa visita ao prédio da União que se incendiou e ruiu em São Paulo. Ouviu gritos de “ladrão”, “vagabundo” e “golpista”, objetos voaram em sua direção, um grupo ameaçou cerca-lo. A segurança providenciou uma retirada rápida mas o carro ainda teve a lataria socada. Antes, conseguiu dizer algumas frases aos jornalistas, prometendo socorro do governo às vitimas do descaso de todos os poderes – municipal, estadual e federal.

Na economia, ficaram mais eloquentes os sinais de que a propalada recuperação foi uma aragem passageira. O dólar deu um pulo e os dados sobre o desemprego foram desanimadores. Ninguém vai achar que a vida melhorou daqui até outubro, ao ponto de votar em Temer ou em seu candidato.

Na quinta-feira, a filha dele, Maristela, prestou depoimento e parece que se enrolou, ao declarar que a mulher do coronel Lima, suposto coletor de propinas para o pai, pagou contas da reforma de sua casa por amizade, por conhecê-la desde menina. A Polícia Federal acha que houve lavagem de dinheiro. Ontem a Procuradora-Geral da República, Raquel Dodge, concordou com a prorrogação do inquérito por mais 60 dias: muitos dados originários da quebra de sigilos ainda precisam ser analisados.

Quando o inquérito for concluído, no início de julho, Dodge decidirá pelo arquivamento ou pela apresentação de uma terceira denúncia. Chance zero, disse Temer ontem. Ela pode ser desencorajada, mas não pelos autos, e sim por estarem faltando menos de seis meses para o fim do governo.

Se vier a denúncia, será pautada, garantiu o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Se isso acontecer, será no segundo semestre, na reta quente da campanha. Não haverá santo que convença os deputados a colocar a reeleição em risco para salvar uns meses de mandato para Temer. Depois, com seu eventual afastamento, Rodrigo Maia assumiria a Presidência e poderia disputar a reeleição no cargo. Hoje tem apenas 2% nas pesquisas mas, montado na máquina, talvez conseguisse unir a centro-direita.

Ainda que não venha a terceira denúncia, o governo parece destinado a enfrentar o longo velório. E, o que é pior para o país, com a eleição do sucessor absolutamente indefinida.

O TROCO DO CONGRESSO

Rodrigo Maia deve colocar para andar a PEC que acaba com o foro privilegiado para todos os cargos, exceto os presidentes da República, da Câmara, do Senado e do STF, além do PGR. A intervenção no Rio impede a aprovação de emendas mas não a tramitação. A ideia é deixá-la prontinha para ser votada quando a intervenção acabar. Será o troco ao STF pela restrição discriminatória do foro, apenas para parlamentares.

Pai e filha, extraordinários!!!

BOM DIA!!!

(Vitor Hugo Soares)

 
Transeunte olha tela com as cotações das moedas estrangeiras numa casa de câmbio no centro de Buenos Aires.
Transeunte olha tela com as cotações das moedas estrangeiras numa casa de câmbio no centro de Buenos Aires. AFP

“Sobe o dólar e tudo aumenta”; “Não saímos mais do poço”; “Isto aqui está indo para a merda”. Como um mantra, os argentinos repetem hoje as frases que antecedem a essas explosões cíclicas da sua economia, como se os tempos de bonança fossem a incubadora de uma grande crise, a sala de espera de irredutíveis cataclismos. Em Buenos Aires se respira desânimo. Na última semana, com uma desvalorização do peso que chegou quase a 12% e três altas consecutivas dos juros, que saltaram de 27,25% para 40%, ativaram-se na memória as lembranças dos piores anos. Assim está a Argentina: acossada por seus piores fantasmas.

Esta foi uma semana complicada não só na Argentina. A alta dos juros nos EUA sugou o dinheiro dos mercados emergentes, e as moedas da região se desvalorizaram rapidamente. Mas nenhuma tanto como o peso argentino. E, quando o dólar sobe, as ruas se preocupam, e muito. Mesmo que “nada tenha mudado tanto no último mês para que houvesse semelhante alteração das expectativas”, diz o ex-ministro de Economia José Luis Machinea, o homem que tentou conter, até sua substituição por Ricardo López Murphy, o desastre de 2001. Então onde está o problema? Para o cientista político Juan Germano, diretor da consultoria Isonomía, é uma questão de percepção. “Na Argentina há três palavras proibidas: inflação, dólar e desemprego. Qualquer argentino pode entrar em pânico com esses assuntos. O desemprego é o tema mais tabu, porque dá muito medo. Em dois anos de [mandato do presidente Mauricio] Macri, essa variável não foi um fator de pânico, e não é agora. Mas dos três temas tabus, há dois que nesta semana estiveram em todos os jornais.”

Da porta da sua loja de guloseimas, Oscar tem o termômetro de Villa Urquiza, um bairro de classe média de Buenos Aires. “Não se fala de outra coisa: ‘O dólar sobe, tudo aumenta, o gás, a luz, a gasolina’. Eu vendo cada vez menos”, queixa-se. Tem a sensação, conta, de que o país está perto de passar por “algo muito grave”. Miguel tem 52 anos e já viveu muitas crises. Sai de uma quitanda com algumas frutas numa sacola de tecido laranja, e tem na boca comentários lapidares: “Outra vez o mesmo, sempre a mesma coisa. Sobe o dólar e tudo apodrece. Tudo aumenta”. Para Jorge, o dono de uma livraria, os problemas começarão na próxima semana, quando tiver que repor o estoque. “Antes vinham com aumentos de centavos, mas agora são de dois ou três pesos. As vendas? Como sempre, aguentando. As pessoas guardam o dinheiro quando têm medo”, diz. Dólar e inflação, os dois temas tabus, os de sempre

Ajuste deixa Macri sem avião

M.C.

Mauricio Macri continuará sem avião presidencial por enquanto. Horas depois de o Governo argentino anunciar cortes nos gastos públicos para conter o déficit fiscal, a Presidência comunicou a suspensão da compra de uma nova aeronave: “No contexto atual, não é um bom momento para isso”. O presidente argentino tem um avião apto a voos domésticos e regionais, o Tango 04, mas para viagens mais longas precisa usar serviços comerciais.

A decisão faz parte de uma economia mais ampla. O Governo se mostrou inflexível em sua decisão de reduzir gastos, o que incluiu o corte progressivo dos subsídios aos serviços públicos, com a consequente alta de tarifas. Macri pretende também moderar as altas salariais e insiste na mensagem de austeridade a seus colaboradores para evitar escândalos. O último teve como protagonista o ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, quando há uma semana o jornal Perfil divulgou que ele usou fundos públicos para voos privados, para homenagear em sua casa a diretora do FMI, Christine Lagarde, e para ter alfajores da marca Chocoarroz em seu escritório.

“Os argentinos pensam em verde”, diz uma velha máxima que sobreviveu a todos os modelos com que os Governos tentaram dominar a economia argentina. Liberais, neoliberais, keynesianos, populistas, nacionalistas, desenvolvimentistas, industrialistas: a história do país sul-americano teve espaço para todas as receitas possíveis. Mas o dólar sempre esteve aí, pairando como uma fatalidade sobre as cabeças. “Os argentinos pensam em dólares por causa de uma história de inflação que começou no nosso país na década de 1940 e, no transcurso dos anos, gerou pelo menos duas hiperinflações e grandes impactos na distribuição da renda. Alterar essa forma de pensar vai levar anos, na medida em que obtivermos taxas de inflação inferiores a um dígito”, observa Machinea. Em 1981, um dos últimos ministros de Economia da ditadura militar argentina, Lorenzo Sigaut, lançou uma frase que o tornou famoso. “Quem aposta no dólar perde”, disse, dias antes de desvalorizar o peso em 30%. É só um exemplo que explica a sobrevida dos fantasmas do passado.

“Essa coisa que parece tão misteriosa — por que os argentinos olham para o dólar — tem a ver com tanta gente que perdeu dinheiro. É difícil que um país funcione sem ter uma forma de economia legítima”, diz Alejandro Grimson, doutor em antropologia pela Universidade de Brasília. Para poupar, portanto, o melhor é o dólar, e quando o dólar sobe os preços aumentam, sobretudo o dos alimentos, commodities vinculadas a valores internacionais. “O Governo baixou os impostos sobre as exportações, e então tendeu a reacoplar o preço das matérias primas ao valor internacional. A gasolina também está dolarizada. O Governo liberou o preço, e não baixou mais”, diz Grimson. Como os problemas perduram, a tradição da economia em dólares passa de pai para filho. “Os argentinos sabem quanto vale um dólar. Está na rádio, nos noticiários a cada hora, nos jornais. E todos sabem perfeitamente quanto ganham e quanto gastam em dólares, e então ninguém quer ganhar menos em dólares”, diz.

No curto prazo, o Governo enfrenta o desafio de controlar a histeria cambial, desviando a agenda para assuntos menos conflitivos, ou seja, tirar o dólar e a alta dos preços das conversas do cafezinho e das capas dos jornais. “São assuntos que ativam paranoias automáticas, embora o contexto seja o de uma crise pequena. Mas será preciso controlá-los rápido, porque se eles se prolongarem no tempo serão um problema muito mais grave”, diz Germano. O desafio é enorme, porque uma vez que o desânimo se espalha é difícil recuperar o otimismo, sobretudo para um Governo que chegou ao poder com a promessa de uma “revolução da alegria”.

O fim do idilio com os mercados

M.C.

Mauricio Macri teve sua primeira grande crise com os mercados internacionais. Desde que assumiu como presidente da Argentina, em 2015, líderes de todo o mundo elogiaram a guinada ortodoxa de sua política econômica, depois dos 12 anos de protecionismo dos Kirchner. Em janeiro foram ouvidas algumas críticas quando o Banco Central, pressionado pelo Governo, baixou timidamente a taxa de juros apesar de a inflação continuar descontrolada, a cerca de 25% ao ano. Mas a corrida bancária desta semana colocou o idílio em crise: a Argentina já gastou mais de 7 bilhões de dólares de suas reservas internacionais para tentar deter a queda do peso.

O Governo tentou segurar a queda com alta de impostos e redução de gastos, sobretudo nas obras públicas. Mas o freio desses investimentos terá consequências políticas. O macrismo se apoiou em alguns governadores peronistas para aprovar certas leis no Congresso, onde está em minoria. Sem o trunfo das obras públicas, perde capacidade de negociação.

 DEU NO BLOG O ANTAGONISTA
 

Governador de Pernambuco diz que Joaquim Barbosa precisa se adequar à plataforma de esquerda

 

Paulo Câmara, governador de Pernambuco pelo PSB, disse, em entrevista ao Estadão, que se Joaquim Barbosa quer ser candidato pelo partido, precisa se adequar à plataforma de centro-esquerda:

“Isso é evidente. Não temos um projeto eleitoral, mas de governo. Não abrimos mão. Se a pré-candidatura do ex-ministro for para frente, ela tem que se incorporar a esse programa e às ideias do partido, que tem 70 anos. O PSB não apareceu agora. Tem história. Está no campo de centro-esquerda. Qualquer candidato do partido vai ter que ter coerência com o que nós pensamos.”

maio
06
Posted on 06-05-2018
Filed Under (Artigos) by vitor on 06-05-2018
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Clayton, no jornal  O Povo (CE)

Todos os medos voltam à Argentina

Ser argentino, entre outras coisas, é ter medo de que algo terrível aconteça em qualquer dia, ao virar a esquina. Todos os argentinos maiores de 50 anos foram contemporâneos e sobreviventes de cinco crises econômicas dramáticas que transformaram suas vidas e deixaram uma marca indelével de alerta e temor. E os que são mais novos receberam, quase por transmissão genética, a memória emotiva desses traumas.

Pessoas em frente a uma casa de câmbio em Buenos Aires.
Pessoas em frente a uma casa de câmbio em Buenos Aires. MARCOS BRINDICCI REUTERS

Por isso, nessa semana, quando o peso argentino voltou a afundar, quando sua desvalorização foi a mais alta do continente, quando o Banco Central precisou vender 6 bilhões de dólares (21 bilhões de reais) de reservas sem conseguir conter o aumento do dólar, quando a revista Forbes colocava na manchete: “É hora de fugir rapidamente da Argentina”, todos os medos voltaram a se instalar no coração dos habitantes do país. E o medo, sabemos, não é um componente que ajuda muito a superar uma situação como essa.

O desencadeador da tempestade foi a decisão do Banco Central dos EUA de subir a taxa de bônus do Tesouro norte-americano. Isso causou uma fuga de fundos do mundo inteiro em direção a Wall Street. Os principais investidores se livraram de suas posses em moeda estrangeira e muitas delas desvalorizaram. Mas nenhuma como a moeda da Argentina: o peso caiu aproximadamente 14% em poucos dias.

O castigo extra ocorre por duas razões. Uma delas é conjuntural: no mesmo momento em que a taxa dos bônus norte-americanos subia, a Argentina aplicava um imposto aos investimentos estrangeiros. Os jovens de Wall Street não gostam disso, como pudemos ver. A segunda causa do castigo extra é estrutural. A Argentina tem enormes déficits fiscais e comerciais e os financia com dívida. Sua vulnerabilidade, portanto, é maior do que a dos outros países da região. A saída de capitais foi, então, torrencial. E o peso desvalorizou violentamente.

O medo, essa típica reação argentina, causa muitas vezes uma profecia autocumprida. Há muitas décadas, cada movimento exótico do dólar atrai imediatamente a atenção de todos os atores sociais. Quando o dólar sobe, todos sabem que todos comprarão dólares para precaverem-se de novos aumentos, e então todos compram dólares e provocam esse aumento: isso se chama comportamento em manada. O que poderia ser um problema menor chega então a níveis irracionais.

Mas além disso, os formadores de preço reagem e impulsionam a inflação além do esperado porque especulam em meio à desordem e porque é a maneira histórica que encontraram para se precaver em meio à tempestade. Todos perdem nesse jogo, mas o que fica de fora acredita que perde mais e então também entra. Por isso, as consequências de uma desvalorização são piores na Argentina do que nos outros países da terra. Nessa semana o Brasil, o Chile e o Uruguai tiveram desvalorizações. Ninguém teme que nesses lugares os preços sejam reajustados. Na Argentina, por outro lado, é um fato.

Saída de capitais, respingo inflacionário, aumento de juros para conter os danos, efeitos recessivos de alguma magnitude como consequência dos juros astronômicos e medo porque tudo isso ocorre ao mesmo tempo, e porque o medo chama medo. Com as coisas nesse ponto, a inquietação mais frequente em Buenos Aires, nesses dias, se traduz em uma pergunta que surpreenderia qualquer habitante de outro país: “Cara, qual é o valor do dólar?”.

O Governo afirma que é uma tempestade passageira. (Que outra coisa um Governo poderia dizer?) e argumenta que o estado da economia real, a relação entre a dívida e o que se produz no país, a quantidade de reservas que se mantêm no Banco Central, tudo isso finalmente irá se impor sobre movimentos disruptivos de curto prazo e sobre esse medo tão tipicamente argentino.

Talvez seja assim

De fato, na sexta-feira o aumento diminuiu levemente.

Mas nesse meio tempo, a Argentina perdeu 7 bilhões de dólares (24 bilhões de reais), a inflação, que foi de 25% em 2017, voltará a subir, e o crescimento da economia será prejudicado. O presidente Mauricio Macri vem aplicando um programa econômico que pretende combinar gradualmente um crescimento leve com uma diminuição progressiva da inflação com um aumento de preços bem radical. Essa rota sinuosa sofreu um duro golpe com o aumento dessa semana. Tudo será, agora, mais complicado. E a maioria dos argentinos, como acontece após cada desvalorização brusca, será um pouco mais pobre. Isso acontece em um momento em que, após a surpreendente vitória eleitoral de outubro, o Governo não para de perder apoio. Macri ainda conserva um respaldo significativo, mas é o mais baixo de todo o seu mandato. A última coisa que ele desejaria era ler essa manchete da Forbes: “É hora de fugir rapidamente da Argentina”.

Os capitais podem voar. Os funcionários podem se demitir. Mas os moradores de um país não têm plano B e, por experiência de duas gerações, quando o dólar se movimenta de maneira brusca, o coração dá um salto, e os medos voltam a se instalar. Como se fosse um povo que vive ao lado de um rio ou em uma região sísmica: sabe reconhecer os indícios de uma nova desgraça, conhece seus efeitos devastadores, mas não tem como evitá-la. Resta a ele, talvez, se for religioso, rezar. Por isso, quando o dólar cai, mesmo que seja pouco, como aconteceu na quinta-feira, a calma volta. Mas depois do acontecido nessa semana, será preciso muito tempo para que o medo vá embora.

Viver assim não é viver, pode-se dizer. De fato, se alguém quer entender por que, nas últimas décadas, a Argentina ficou para trás em relação a muitos países da região, tem nessa dinâmica uma boa explicação.

Macri assumiu com a promessa de que colocaria ponto final nesses intermináveis altos e baixos.

Está longe de conseguir.

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