São Paulo
Largo do Paissandu
Bombeiros trabalham nos escombros do prédio que desabou no centro de São Paulo na madrugada desta terça-feira PAULO WHITAKER REUTERS

O edifício Wilton Paes de Almeida, que desabou no centro de São Paulo, nesta terça, foi construído em 1961, e acolheu uma empresa de vidros. Depois, foi entregue à União por causa de dívidas. Virou sede da Polícia Federal, até ser desocupado em 2001 de suas funções comerciais. Abandonado, tornou-se alvo de famílias carentes, e de ações de reintegração de posse. É com esse histórico que a prefeitura e Ministério Público de São Paulo buscam as causas e responsabilidades pelo desabamento do edifício nesta terça. O prédio chegou a ser cedido à prefeitura paulistana, que depois veio a devolvê-lo à União, e depois retornou novamente à prefeitura. Atualmente, seu status era “cedido temporariamente” à prefeitura, que buscava há um ano, junto com o Governo federal, uma solução conjunta para retirar as famílias que moravam ali, explicou o prefeito Bruno Covas em coletiva de imprensa. Mas não deu tempo. Haviam 372 pessoas vivendo ali. Dessas, 328 confirmaram que saíram com vida.  Ao menos um, que estava sendo resgatado pelos bombeiros por uma corda, caiu junto com o prédio. Há 44 cujo paradeiro é desconhecido. Não se sabe se estavam no interior do edifício. 

A tragédia desta madrugada já havia sido anunciada não apenas por moradores e vizinhos do prédio que desabou após um incêndio. O próprio Corpo de Bombeiros já havia relatado oficialmente, em 2015, inúmeras irregularidades que poderiam provocar ou dificultar o combate a incêndios no edifício. De acordo com o porta-voz da Corporação, Marcos Palumbo, um laudo sobre a situação de risco foi encaminhado ao Ministério Público, que seria responsável por tomar providências de prevenção. “A gente verificou que haviam rotas de fuga obstruídas, com lixo e material altamente inflamável, problemas com botijões de gás. Poderiam ser problemas que causassem incêndios e as chamas se espalhassem de maneira muito rápida […] Nosso papel foi encaminhado ao Ministério Público para que ele promovesse as ações necessárias”, afirmou Palumbo em coletiva de imprensa no local do  incêndio.

O Ministério Público de São Paulo informou que o prédio já havia suscitado a abertura de um inquérito civil para apurar possíveis riscos já em 2015, e que de fato não havia um laudo favorável dos bombeiros, conhecido como Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB). Mas que àquela altura, os órgãos da prefeitura não viam motivos para interdição. Depois de “dois anos e sete meses de investigação, os órgãos públicos incumbidos de fiscalizar o imóvel, em especial a Defesa Civil de São Paulo e a Secretaria Especial de Licenciamentos, informaram que, a despeito do AVCB estar vencido, não havia risco concreto que demandasse interdição”, diz nota do MP de São Paulo.

Ainda segundo o MP, a retirada das famílias do imóvel já era objeto de ação específica de reintegração de posse desde 2014. Mas que diante da informação de que as famílias já estavam sendo retiradas em ação conjunta entre a União e a prefeitura, o inquérito acabou sendo arquivado em 16 de  março deste ano. “Os gravíssimos fatos ocorridos na data de hoje determinarão a reabertura das investigações para verificação das causas do acidente e também da veracidade dos relatórios técnicos encaminhados ao Ministério Público pelos órgãos públicos responsáveis pela manutenção e fiscalização da edificação, nos termos do que já havia indicado o relator do caso no Conselho Superior do Ministério Público”, informa o MP.

Questionado sobre o assunto, o prefeito Bruno Covas disse que a prefeitura espera ter informações sobre os questionamentos feitos pelo MP a partir desta quarta. Mas lembrou que a ação de retirada das famílias já vinha sendo negociada e havia esperança de um desfecho no curto prazo. “Neste ano foram seis reuniões feitas pela Secretaria de Habitação e pessoas que moravam lá. Estávamos fazendo cadastro das famílias [150 já estavam cadastradas], com a prefeitura e o governo federal, para que as pessoas desocupassem o espaço, pois sabíamos que não era um local adequado e uma eventualidade poderia acontecer”, disse Covas.

Segundo o secretário de Habitação, Fernando Chucre, o questionamento inicial do MP só se referia ao risco estrutural da edificação, risco este que daria aval à Defesa Civil para interditar o imóvel, por exemplo. Ou seja, se a estrutura do prédio estivesse comprometida, isso já seria um sinal de que ele poderia ir abaixo, e justificaria uma retirada de emergência das pessoas que viviam ali. Mas, a priori, esse risco não existia. “Como essa ação só falava dos risco estruturais, o MP optou por arquivar o processo”, explicou ele. O fogo, porém, modificou esse esqueleto do prédio. “Vamos lembrar do World Trade Center. Houve o impacto lá em cima [com o choque dos aviões] e houve o incêndio. O que derrubou não foi o impacto, foi o incêndio”, comparou.

Chucre admitiu que não havia o aval dos bombeiros para o prédio, assim como outros edifícios antigos no centro da cidade não o tem, por dificuldade de se adequar à lei de prevenção de incêndio. No caso específico do prédio que desabou, o quadro teria sido agravado, ainda, pelo fato de as famílias utilizarem estruturas de madeira para marcar as divisões de moradias no prédio, bem como ele ser ocupado por catadores que acumulavam papelão ali. “Por isso fazíamos o esforço de retirar de lá as famílias, independente do inquérito policial [do MP]”, afirmou.

O titular da Superintendência do Patrimônio da União (SPU), Robson Tuma, chegou a se emocionar durante a coletiva concedida junto com o prefeito.“Não havia aptidão para habitação naquele imóvel. Mas tínhamos consciência de que uma nova disputa por reintegração de posse não era salutar”, afirmou. A falta de uma solução clara para esse imóvel, como outros ocupados por moradores carentes, estendeu o limbo que culminou no desabamento nesta terça. A SPU era um dos órgãos federais que atuavam em parceria com a prefeitura.

Mais cedo, em entrevista à Rede Globo, o pastor da igreja luterana, Frederico Carlos, criticou as más condições do local. “Sempre se falou do risco que esse prédio corria, e precisou acontecer uma desgraça”, disse ele, que mantinha uma convivência com os moradores. Carlos relatou problemas que vão desde fiações expostas a esgoto aberto, que davam a sensação de vulnerabilidade do local.O prédio de mais de 20 andares abrigava cerca de 150 famílias de um movimento de moradia e quase todas foram retiradas logo após o incêndio. Um homem, que era resgatado quando o prédio desabou, está desaparecido. Ainda não foram confirmadas outras vítimas. Outros cinco prédios próximos ao edifício Wilson Paes de Almeida foram interditados por terem sido impactados com a queda. O prefeito Covas informou que a Defesa Civil fará um mapeamento de outros edifícios ocupados irregularmente no centro da cidade que estejam em situação limite.

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Comentários

Daniel on 2 Maio, 2018 at 9:49 #

Há uma verdadeira indústria de movimentos financiadores e exploradores da desgraça alheia. Travestidos de “movimentos sociais” esses grupamentos terroristas, por um lado ameaçam a sociedade com invasões violentas e por outro colocam pessoas em condição de vulnerabilidade como reféns do movimento. Elas devem pagar quantias vultosas, como se fosse um aluguel, para os líderes desses grupos. E se não pagar, é “despejado” das invasões.

Até quando olharemos essas organizações terroristas e criminosas como se fossem vítimas e meros movimentos sociais? Até quando fecharemos os olhos para as barbaridades de esquemas fascistas de exploração da população pobre e ameaças para a população em geral?

Até quando??


Daniel on 2 Maio, 2018 at 10:11 #

Vanderlei on 2 Maio, 2018 at 22:39 #

É exatamente isto Sr. Daniel. Concordo plenamente com o seu comentário.


Lucas Ribeiro on 3 Maio, 2018 at 11:32 #

O tamanho da tragédia
Janio de Freitas, na Folha

Por um instante, estamos de volta a palavras e expressões como “tragédia”, “descaso do poder público” e “problema de moradia” colhidas na fogueira de uma ocupação no centro de São Paulo. São verdades, mas pequenas verdades. A tragédia e o descaso são monstruosamente maiores.

Diz-se, com base no IBGE, que há coisa de 8 milhões de imóveis desocupados no Brasil. E uns 7 milhões de famílias, bem mais de 20 milhões de pessoas, sofrendo o eufemismo “déficit habitacional”. Não crer nesses números é uma sugestão amigável.

Moradias desocupadas, como as lojas, na crise e no desemprego multiplicaram-se em uma forma de denúncia involuntária do desastre que a direita, a certa altura, achou prudente silenciar. Os números de famílias e pessoas não incluem os que sobrevivem, entre a precariedade e a miséria total de seu teto e seu chão, em locais onde pesquisadores não entram.

Já na fermentação que preparou o golpe de 64, o “problema de moradia” teve uma influência de repente equiparada ao da reforma agrária. O número incalculável e crescente de imóveis desocupados chegou a evidências revoltantes, de 63 para 64.

No começo do acúmulo, contra a dificuldade de aumentos indiscriminados dos aluguéis e dos despejos, sujeitados à lei do inquilinato. Depois, pela propaganda anti-Jango de que o golpe comunista daria aos inquilinos a propriedade de suas moradias de aluguel.

O afoito ministro da Justiça, Abelardo Jurema, respondeu com o anúncio de uma próxima reforma urbana que desapropriaria todos os imóveis desocupados. Outra reforma vazia, mas fez crescer muito a agitação fomentada pelos colecionadores de casas e apartamentos vazios (costume entre donos de meios de comunicação da época) e respectivas, ou nem tanto, madames.

O então presidente do Sindicatos das Empresas de Jornais e Revistas, deputado Chagas Freitas, chegou a ter uma imobiliária para administrar seus mais de 500 imóveis.

A abolição da escravatura, a volta das tropas homicidas de Canudos, o “Bota Abaixo” da modernização urbana do Rio por Pereira Passos (a propósito, “A Revolta da Vacina”, do sempre lembrável Nicolau Sevcenko, é excelente) deram origem às favelas e abriram a série longa de fases e episódios agudos do “problema de moradia”.

Nenhum fez mudar coisa alguma, exceto a Lei do Inquilinato pelos militares, para favorecer aos proprietários os aumentos e os despejos de quem não pudesse pagá-los.

Os governos Lula e Dilma foram os primeiros a dedicar verbas e esforços de fato significativos à redução da carência de moradias com as condições básicas da dignidade humana. A constatação, porém, de uma qualquer deficiência em algum das centenas de milhares de imóveis entregues é motivo de escarcéu impresso e em telas, com a responsabilização dos dois governantes, não das construtoras que seguiram a praxe de roubar no material e na obra.

Muito simples e muito brasileiro: se Lula e Dilma não dedicassem dinheiro e esforço a reduzir a miséria habitacional, não seriam criticados nem igualados aos antecessores, todos poupados porque alheios às desgraças nacionais.

O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, MTST, não nasceu só para chatear. Tem causa como origem e causa como razão de ser.

As ocupações no centro de São Paulo não aumentaram à toa, em menos de cinco anos, de 42 para 70. Nem ocorrem e aumentam só aí. São frutos ácidos da tragédia social e de descaso governamental. Frutos estes, por sua vez, da lucrativa sociedade entre poder público e poder privado que desgraça o Brasi


Daniel on 3 Maio, 2018 at 14:06 #

De fato o MTST tem razão de ser: pretende se travestir de “movimento social” para explorar a população pobre enquanto engorda o orçamento de seus líderes milionários.


Daniel on 3 Maio, 2018 at 14:57 #

Desabamento revela a máfia do movimento sem-teto

Um grupo especializado em invasões entra num local abandonado, toma posse, divide o espaço em pequenos lotes e os repassa a gente pobre cobrando uma boa taxa pelo serviço.

Esse é o modo de ação das milícias do Rio de Janeiro. Como a imprensa revelou esta semana, milícias invadem parques e terrenos baldios e vendem a posse dos lotes por até R$ 100 mil.

Também é o modo de ação do LMD (Luta por Moradia Digna), como viemos a descobrir depois do desabamento de ontem. O coordenador do LMD, Ricardo Luciano, disse cobrar uma taxa de R$ 80 para bancar a manutenção do prédio. Difícil acreditar: diversos desabrigados pelo incêndio contaram a jornalistas que pagavam entre R$ 200 e R$ 500 de aluguel aos coordenadores.

Segundo reportagem da Folha, moradores ficaram indignados quando uma vizinha disse numa entrevista que a taxa era opcional. Mostraram carnês e recibos, e contaram que o movimento até cobrava juros. No Jornal Nacional, uma peruana afirmou que inadimplentes eram expulsos.

Pelo menos 120 famílias viviam no prédio. Temos aí entre R$ 24 mil e R$ 60 mil por mês vindos de só um dos setenta prédios ocupados por movimentos sem-teto no centro de São Paulo. Para onde vai esse dinheiro?

Para a manutenção e segurança do prédio nós sabemos que o dinheiro não ia. O movimento Luta por Moradia Digna não oferecia uma moradia exatamente digna a seus clientes. Sobram relatos de sujeira, instalações elétricas incendiárias, ratos pelos corredores e cortes frequentes de energia.

Uma pista do destino dos aluguéis está numa edição do Profissão Repórter de 2013. Ao conhecer a rotina de uma coordenadora dos sem-teto de um prédio na República, o repórter do programa ficou estupefato quando a mulher tirou seu carro da garagem —uma SUV nova e reluzente. Se tinha dinheiro para aquele carro, por que não pagava aluguel?

“Os dois coordenadores pegaram o carrinho deles, abriram o portão e saíram fora. Abandonaram a gente”, disse um morador do edifício Wilton Paes de Almeida depois do incêndio de ontem.

Claro que há diferenças entre os sem-teto de São Paulo e as milícias do Rio. Um tem marketing de movimento de esquerda, o outro não. Um tem apoio da imprensa e de ONGs; o outro enfrenta o ódio desses grupos. As milícias intimidam comerciantes e obrigam moradores a comprar gás e TV a cabo do seu monopólio —não há notícia, pelo menos até agora, que os sem-teto façam isso.

No ramo imobiliário, no entanto, o business das milícias e dos sem-teto é o mesmo: pegar uma propriedade de graça e lucrar com a venda da posse ou o aluguel.

Em casos raros, talvez até seja um negócio legítimo —uma empresa especializada em ocupar prédios públicos abandonados e oferecê-los a clientes pobres por um aluguel mais barato que a média da região. Mas é um negócio, que busca lucro por meio da especulação imobiliária. E não um movimento social como os marqueteiros dos sem-teto tentam nos convencer.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/leandro-narloch/2018/05/desabamento-revela-a-mafia-do-movimento-sem-teto.shtml


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