DO Jornal O Globo. Reproduzido pelo Bahia em Pauta ´do espaço da jornalista Olívia Soares, no Facebook.

por Rodrigo Sombra, especial para O GLOBO

 

Rogério Duarte, do filme “O tropikaoslista”, de José Walter Lima Divulgação

Um ano antes de morrer, o designer e escritor Rogério Duarte (1939-2016) sonhava em ser lembrado como um homem santo. Imaginava desprender-se do corpo e ver o próprio túmulo convertido em sítio de peregrinação. “Virão romarias aqui me visitar: ‘Aqui morou aquele asceta, Rogério, que foi um santo do pau oco’”, ele ri, balançando-se na rede da sede de sua fazenda em Santa Inês, interior da Bahia. A cena pode ser vista no documentário em cartaz “Rogério Duarte — O Tropikaoslista”, de José Walter Lima, e é emblemática da personalidade do artista, acostumado a jactar-se de seus feitos, mas também, nos momentos de leveza, capaz de rir da própria imodéstia. Então com 76 anos, magro, com uma boina enviesada na cabeça e um chumaço grosso de barba branca no rosto, Rogério é visto em boa parte do filme à vontade: rezando, ao violão, entre os animais no pasto, registros raros de uma vida notabilizada pela reclusão.

Rodado em 2015, o filme recupera o essencial da história de um dos ideólogos do tropicalismo, célebre por conferir identidade visual às capas de disco do movimento. Perpassa as atividades de Rogério como designer da UNE, a criação do icônico cartaz de “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), a tortura sob o regime militar, as colaborações com Hélio Oiticica, e o mergulho definitivo na cultura hinduísta a partir da década de 1970. Um dos meios pelos quais se aproxima de seu protagonista é através da amizade com figuras como Glauber Rocha e os membros do grupo tropicalista. Porém, à diferença de documentários biográficos nos quais a personagem se faz presente nos depoimentos daqueles com quem conviveu, Lima opta por um relato depurado. Nele, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paquito e Carlos Rennó comparecem lendo textos ou tocando músicas escritas por ou inspiradas no ex-parceiro, mas deles não escutaremos qualquer testemunho. É Rogério o único entrevistado do filme.

Lima e Rogério se conheceram na juventude e chegaram a morar juntos num apartamento em Copacabana, nos anos 1970. Autor de documentários sobre artistas como o músico Walter Smetak e o pintor Sante Scaldaferri, o diretor conta ter encontrado em seu personagem mais recente um comportamento profissional arredio.

— A gente quebrava o pau às vezes — relembra Lima, embora cenas de conflito não apareçam no filme — Rogério sempre foi de extremos. Às vezes ele falava “Eu sou muito importante, você não sabe com quem está falando”. Ao mesmo tempo dizia: “Você quer me documentar? Não sou nada, sou um fracassado”. Rogério tinha depressões terríveis, mas tinha dias em que estava ali, alegre.

Uma das preocupações do filme é delinear o pensamento de Rogério. Dispersas em entrevistas e ensaios, suas reflexões ganham nova encarnação no cinema.

Rogério deixou Salvador em 1960, aos 20 anos, e já ocupava posição destacada na intelligentsia carioca quando, anos mais tarde, Gil e Caetano chegaram ao Rio. Sua insubmissão aos ideários dominantes na política e na arte anteciparia o gosto pelo escândalo assumido posteriormente pelos outros tropicalistas.

— Ele já tinha uma envergadura intelectual que contribuía para um enriquecimento dos nossos modos de a ler realidade — relembra Gil ao GLOBO. — A configuração do que viria a ser a atuação tropicalista tinha muito a ver com essa dimensão que ele adquiriu na nossa vida. E sem medo da especulação intelectual como elemento escandalizador.

O gênio iconoclasta seria temperado com a conversão ao hare krishna. Com o tempo, sua prática religiosa se faria sentir como exercício intelectual no aprofundamento de seus estudos de sânscrito. Deste empenho resultariam publicações importantes, como a primeira tradução direta do épico hindu Bhagavad Gita, editada pela Companhia das Letras em 1998.

O interesse pela Índia, ao lado do xadrez e das partidas de ping-pong, era uma das afinidades entre Rogério e Moreno Veloso, seu afilhado.

— Era uma aventura ser afilhado de Rogério, porque ele era múltiplo, como fica evidente no filme. Poderia chegar na sua casa como hare krishna dançante, ou de terno e gravata como professor universitário. E todas essas vertentes eram o meu padrinho — ri Moreno.

Rogério tinha na música uma de suas áreas de atuação menos conhecidas.

— Acho que ele não se tornou um músico mesmo porque duvidava um pouco da capacidade que teria de se comunicar verdadeiramente com os públicos através da música — diz Gil.

Seu estudo de peças clássicas era acompanhado da produção de canções, entre elas “Gayana”, gravada por Caetano em seu último álbum de estúdio, Abraçaço (2012), e uma das únicas composições de Rogério a vir a público. Moreno recorda que pouco antes de morrer, ele dedicava-se a construir seu próprio violão.

Curiosamente, os desdobramentos mais recentes da obra de Rogério poderão ser sentidos no campo musical. Sob regência de Aldo Brizzi e participação de membros do Cortejo Afro, Gil prepara ópera inspirada no “Gitagovinda — A Cantiga do Negro Amor”, poema de Jayadeva traduzido e publicado de forma independente por Rogério em 2011. Escrito no século XII, o texto narra as peripécias eróticas de Krishna e figura nos píncaros da literatura indiana.

— Gosto da cultura vedanta. As interfaces entre deuses e homens, entre as coisas do mundo da beatitude celestial e as coisas mundanas — comenta Gil, a respeito do Gitagovinda.

Com estreia prevista para 2019, o espetáculo coroa o vínculo entre os companheiros de geração, cuja amizade configurou uma célula de investigação dos mundos orientais entre os tropicalistas.

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