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Paulo Afo9nso: canion do Rio São Francisco.


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 CRÔNICA                         

Se meu rio falasse

Janio Ferreira Soares

Nesses tempos de ministros do STF comprometidos até o talo da toga – e ainda por cima falando um juridiquês que mais confunde do que explica -, melhor ouvir o CD do baiano Giovani Cidreira ou então a voz desse pedaço de rio agonizando em minha frente, que se falasse diria algo mais ou menos assim.

“Olá, antes de entrar no assunto que me trouxe até aqui, gostaria de me apresentar, embora a maioria já deva ter ouvido falar de mim e de meus remansos. Me chamo Francisco, assim como o Papa, o ex-sogro de Carlinhos Brown e o santo gente boa nascido em Assis, na Itália, cujo nome inspirou o meu.

Apelidos não tenho, apesar de muitos que nunca me viram mais largo insistirem em me chamar de Velho Chico, provavelmente querendo uma intimidade que jamais lhes dei, até porque, se o próprio ribeirinho que me vê todo santo dia nunca me tratou assim, por que diabos um estrangeiro haveria de?

Oficialmente tenho 516 anos, mas, como naquela música que gosto muito e que a moçada canta em minhas margens quando luas me lampejam, eu nasci há uns 10 mil anos atrás e, do mesmo modo que o velhinho sentado na calçada com uma cuia de esmola e uma viola na mão citado por Raul no começo da canção, não tem nada nesse mundo que eu não saiba demais.

De extensão eu tinha 2.700 Km, mas com os desvios que alongaram meu curso e duplicaram meu tormento, perdi as contas. De afluentes devo continuar com os 168 que os livros de geografia cravam, embora só uns 36 me irriguem pra valer. Já de velhas promessas de me revitalizarem ou coisa assim, ah!, seu moço e dona moça, isso é conversa pra Nego D’água dormir.

Como vocês sabem, broto lá em Minas e passeio por alguns estados do Nordeste, onde, nos bons tempos pré-barragens, despencava nos cânions de Paulo Afonso que nem trovoada de verão e depois seguia até bater de frente com o oceano, numa peleja bonita de se ver. Já hoje, completamente poluído pelas Baronesas que se alimentam dos esgotos que caem em minhas águas (e separado pelas hidroelétricas de Três Marias, Sobradinho, Itaparica, Complexo Moxotó e Xingó – que me dividiram em várias partes tornando-me uma espécie de esquartejado líquido), chego tão desnutrido no final de minha jornada que o mar já penetra alguns quilômetros dentro do meu leito, trazendo com ele mariscos, pescadas e robalos que, queira Deus, convivam em harmonia com minhas traíras e surubins.

Agradeço do fundo de meus peraus sua atenção e me despeço dizendo que mesmo com milhões de metros cúbicos sem oxigênio, partes de mim ainda resistem à espera de algum milagre ou, quem sabe, de ventos do Norte mais constantes, que pelo menos possam provocar um rodízio na minha agonia. Agora me dê licença que os meninos já vão começar a sessão Beatles. Fui!”.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura de Paulo Afonso, na beira baiana do Rio São Francisco.

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Comentários

Ana Vieira on 30 Abril, 2018 at 10:17 #

Parabéns,grande Jânio Soares.meu primo Janinho..Seus textos.sempre geniais, são embebidos com muita emoção.E quando você escreve sobre o São Francisco, a dimensão é de uma cachoeira de beleza e amor.


vitor on 30 Abril, 2018 at 17:46 #

Ana: verdade. Beleza de texto. Reproduzido também no espaço do Bahia em Pauta (Vitor Hugo Soares) no Facebook, produziu (além das curtida) um excelentte e rico debate sobr o rio da nossa aldeia. Viva. Espero que Janio tenha acompanhado.


Taciano Lemos de Carvalho on 30 Abril, 2018 at 18:36 #

Quando se fala do Rio São Francisco, especialmente quando se aborda a sua agonia —agonia provocada pelos homens, especialmente os governantes— temos que reler algumas coisas ditas pelo bravo, destemido, e digno, bispo Dom Luiz Flávio Cappio. Então:

“Os mercadores de sonho e a transposição do rio São Francisco. Bem social, direito de todos, transformado em bem econômico, direito de alguns.” Entrevista especial com Dom Luiz Flávio Cappio

http://www.gamalivre.com.br/2017/03/os-mercadores-de-sonho-e-transposicao.html


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